Ética, amor e empatia para atravessar a lama

lotus

Em alguns momentos, procurar belezas, amores e sinais de esperança pode até ser coisa de Poliana. E daí? O mundo não é cor de rosa. Mas também não é só vermelho ou verde e amarelo.

De uns tempos prá cá, parece que o mundo resolveu desabar. Todas as pessoas à minha volta, sem exceção, estão atravessando fases difíceis na vida. Perderam trabalho, perderam dinheiro, perderam a casa, perderam amigos ou companheiros de estrada. Algumas estão doentes, outras estão e nem se deram conta ainda. Eu, é claro, me incluo nessa história. Mudei de casa, de cidade, de trabalho, não tenho grana garantida todo mês, minha mãe está hospitalizada há mais de vinte dias, minhas crenças já não são mais as mesmas. Tudo em mim parece ter virado de cabeça para baixo. Em meio a tantas turbulências, manter o equilíbrio pode ser bastante complicado. Mas é fundamental. É o único caminho possível.

Equilíbrio significa não pesar demais para um lado só. Não cultivar monoculturas dentro da gente. E que lado está capenga ultimamente? Aquele das pequenas (e importantes) belezas, do riso sincero, do abraço amigo, da esperança. É preciso lembrar que há mais coisas no mundo do que essa enxurrada de desilusões à qual assistimos todos os dias. Desilusão, aliás, é algo que pode ser positivo. Porque enquanto estamos iludidos, seguimos no mesmo passo, desatentos. Quando a desilusão acontece, a inércia e o comodismo dão lugar ao movimento e este, por si só, transforma. De alguma maneira.

Colocar as belezas e os amores na nossa balança não é fazer o jogo do ingênuo contente. É buscar manter a sanidade, a serenidade. É algo legítimo. Há uma pessoa que me leva para esse universo dadivoso constantemente, ininterruptamente. Minha filha. Todos os dias ela encontra a pedra mais linda do mundo, a flor mais maravilhosa, o tomate mais saboroso. Todos os dias ela me lembra que nossos cães são adoráveis, que a escada da casa é incrível, que a lua merece uns minutos de contemplação, que poder andar é o máximo, que chocolate é realmente dos deuses, que mexer na terra é uma delícia.

Eu agradeço sempre – e muito – por isso. Tenho uma gratidão sem fim pelo presente que é poder amamentá-la e, assim, ter a oportunidade de dar (e receber) colo várias vezes por dia. Quando está mamando, ela me olha de um jeito tão especial e amoroso, que consegue destruir todo e qualquer tipo de pensamento ruim dentro de mim. Sobra o amor. Sempre. E a esperança. Doce.

Isso não é alienar-se do mundo. Isso, para mim, é ter de onde tirar forças para seguir em frente e enfrentar as adversidades não com ódio ou rancor, mas com ética e empatia. É disso que precisamos agora e em cada segundo de nossas vidas. Adversidades existem, não estou fazendo de conta que não, mas também não quero ignorar aquilo que me mantém em pé, firme em meus propósitos, tranquila com minhas escolhas.

É preciso saber dançar entre a luta e o aconchego do lar, o trabalho e o descanso, a resistência e o desapego. E desejar mais diálogos e interseções, mais cuidados mútuos e escutas amorosas. Enquanto houver dor, será preciso ter coragem. E a coragem não é o contrário do medo. O contrário do medo é o amor. Enquanto houver ódio, será necessário amar. E, depois, e sempre, seguir amando, verbo intransitivo, íntegro de presente e futuro.

Foto: Khánh Kmoong via Photopin

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

8 comentários em “Ética, amor e empatia para atravessar a lama

  • 19 de Abril de 2016 em 9:00 AM
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    Giu, não posso deixar de comentar esse post… parece que está falando da minha vida, de mim… e muitos devem se indentificar com esse sentimento nesse momento, só escrevendo do coração mesmo para conseguir tocar…

    Não Sei
    Cora Coralina

    Não sei… se a vida é curta ou longa demais pra nós,
    Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
    se não tocamos o coração das pessoas.
    Muitas vezes basta ser:
    Colo que acolhe,
    Braço que envolve,
    Palavra que conforta,
    Silêncio que respeita,
    Alegria que contagia,
    Lágrima que corre,
    Olhar que acaricia,
    Desejo que sacia,
    Amor que promove.
    E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.
    É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
    Mas que seja intensa, verdadeira, pura… Enquanto durar”

    Um abraço e tudo vai ficar bem.

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    • 25 de Abril de 2016 em 9:37 AM
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      Eliete, obrigada por Cora Coralina e pela esperança! Sim, tudo vai ficar bem. Um abraço pra você!

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  • 19 de Abril de 2016 em 2:57 PM
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    Somos convidados a Viver, a transbordar, seguir adiante, com o coração cheio de Esperança, com aquele brilho nos olhos, que são uma expressão própria daqueles que Amam…

    Enorme Abraço,

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    • 25 de Abril de 2016 em 9:40 AM
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      É isso, Kleber! Esse é o convite que nunca devemos recusar… Viver, transbordar, amar! Abraço pra você!

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  • 19 de Abril de 2016 em 4:10 PM
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    Absolutamente necessário, seu texto, Giuliana!

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    • 25 de Abril de 2016 em 9:40 AM
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      Obrigada, Selma! Um grande abraço!

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  • Pingback:Como aprendi sobre empatia com as mulheres - Conexão Planeta

  • 8 de junho de 2017 em 1:56 PM
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    Me tocou bastante, parece que você falou de mim.
    Fique bem.
    Tentarei ficar também!
    Abraços

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