Estudo inédito identifica agrotóxicos em produtos ultraprocessados como cereais matinais, bolachas água e sal, bisnaguinhas…

Estudo inédito identifica agrotóxicos em produtos ultraprocessados como cereais matinais, bolachas água e sal, bisnaguinhas...

Os resultados do estudo divulgado esta semana pelo Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, me fizeram lembrar do jornalista e escritor americano Michael Polan que diz: “Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida”.

Em meados dos anos 2000, ele lançou seu primeiro livro – Em Defesa da Comida – e logo se tornou uma celebridade da comida de verdade (ganhou minissérie na Netflix) e ajudou muita gente a rever seus hábitos alimentares.

Com essa frase, Polan resumiu muito bem a realidade da vida moderna: tudo que se come, mas é industrializado, não é alimento! Falo dos produtos processados e ultraprocessados, que dominam parte da dieta dos humanos há algumas décadas e cujo consumo só cresce porque o lobby dessa indústria é gigante.

No ano passado, o governo Bolsonaro chegou a questionar os malefícios dos “alimentos” ultraprocessados e pediu revisão do Guia Alimentar para a População Brasileira, que é um super guia respeitado por quem quer lidar com alimento saudável.

Para fazer essa acusação, certamente, não se baseou em nenhum estudo científico como o que, em fevereiro de 2018, associou o consumo de “comida” ultraprocessada ao câncer.

Sim, está mais do que provado que, devido aos ingredientes que os compõem – você já viu a lista no rótulo? – e aos intensos processos industriais pelos quais passam, esses produtos nada saudáveis podem causar doenças cardiovascularesganho de peso, aumentando a taxa de mortalidade.

Agora, a pesquisa inédita divulgada pelo Idec – e que você pode acessar na íntegra, neste link: Tem Veneno nesse Pacote! -, intensifica o alerta a respeito do consumo dos produtos ultraprocessados: alguns, entre os mais vendidos, revelaram a presença de agrotóxicos.

Entre eles, estão venenos muito perigosos, um está proibido em outros países. A boa notícia é que bebidas como refrigerantes – muito consumidos em todo o país – e à base de soja não estão envenenados.

59,3% dos produtos analisados estão contaminados

Estudo inédito identifica agrotóxicos em produtos ultraprocessados como cereais matinais, bolachas água e sal, bisnaguinhas...

O Idec testou 27 amostras de oito categorias de “alimentos” e bebidas – refrigerantes, bebidas de soja, bolachas de água e sal, biscoitos recheados, cereais matinais, salgadinhos, bisnaguinhas e néctares (para suco).

Marcas analisadas: Coca-Cola, Pepsi, Guaraná Antarctica, Maguary, Del Vale, Su Fresh, Ades, Shefa, Batavo, Sucrilhos, Cereal Nescau, Nesfit, Fandangos, Baconzitos, Torcida, Marilan, Vitarella, Triunfo, Zabet, Bono, Negresco, Oreo, Traquinas, Wickbold, Banco e Seven Boys.

Estudo inédito identifica agrotóxicos em produtos ultraprocessados como cereais matinais, bolachas água e sal, bisnaguinhas...

O estudo revela os resultados da pesquisa detalhados por produto e marca. Vale a leitura. Aqui, reproduzo um resumo dos destaques:

– pelo menos um resíduo de agrotóxico foi encontrado em 16 desses produtos, o que representa 59,3% do total;
14 produtos (51,8%) apresentaram resíduos de glifosato ou glufosinato;
– todos os produtos que tinham trigo como ingrediente continham agrotóxicos;
refrigerantes e néctares estão isentos de agrotóxicos;
não foram detectados diquate ou paraquate;
– além do glifosato e do glufosinato, foram encontrados: Carbendazim, Carbendazim (MBC) e benomil, Cialotrina-Lambda, Cipermetrina, Clorpirifós, Clorpirifós-metílico, Bifentrina, Deltametrina, Fenitrotiona, Malationa e Pirimifós-metílico;
– também foi identificado o butóxico de piperonila que é um ingrediente que potencializa a ação dos princípios ativos dos agrotóxicos. Onde ele está, tem veneno!

De todo modo, o Idec aleta para o fato de, em outros lotes dos produtos analisados podem ser encontrados mais agrotóxicos, em maiores quantidades, já que somente um produto de cada tipo e marca foi analisado. “Pode haver diferenças de contaminação de produto para produto”.

A presença de agrotóxicos se deve ao uso de soja, milho e trigoculturas que aplicam esses venenos com muita frequência – na composição desses produtos.

A Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária estabelece limites para as quantidades aplicadas, mas as normas não incluem alimentos industrializados.

“A descoberta reforça a necessidade de mudanças em nosso sistema alimentar, em que o modelo agrícola predominante é baseado na monocultura. Esse tipo de produção visa a atender a grande demanda por commodities, como soja, milho, trigo e açúcar, e faz um uso intensivo de agrotóxicos, tornando-se insustentável dos pontos de vista social, ecológico e sanitário“, destaca o instituto em seu site, na página em que divulga o novo estudo.

“Outro aspecto relevante é como esse sistema proporciona maior disponibilidade e acessibilidade a ultraprocessados. Não é por acaso que esses produtos são promovidos por agressivas estratégias de publicidade que induzem ao seu consumo excessivo“.

O Idec destaca, por exemplo, o cereal matinal Nesfit Tradicional, que é divulgado como um produto saudável, mas apresentou resíduos de dois agrotóxicos. Veja no estudo, que você pode baixar gratuitamente aqui.

A farra dos agrotóxicos no Brasil

Estudo inédito identifica agrotóxicos em produtos ultraprocessados como cereais matinais, bolachas água e sal, bisnaguinhas...
Foto: Ulleo/Pixabay

O Brasil sempre foi um paraíso para as industrias químicas que produzem e comercializam agrotóxicos pelo mundo. Com a entrada de Michel Temer no governo, em 2016, a situação ficou ainda mais favorável Com frequência, noticiamos a autorização de mais venenos pela Anvisa. O que não sabíamos é que aquela era apenas uma amostra do que faria o governo Bolsonaro, tendo a ruralista Tereza Cristina à frente do Ministério do Meio Ambiente.

O país é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo e o segundo maior comprador de agrotóxicos já proibidos em alguns países da Europa e na America Latina, como o glifosato, que não é mais vendido na Alemanha, nem na Áustria, e, desde o último dia de 2020, proibido também pelo governo do México.

No Peru, o projeto de junho de 2020 está parado e, na Colômbia, o processo também está emperrado. Na América Central, pequenas ilhas do Caribe como Bermudas, São Vicente e Granadinas (2018), aprovaram o banimento total do Glifosato há alguns anos: a primeira em 2017 e as outras duas em 2018.

Enquanto isso, no Brasil, desde novembro de 2019, o glifosato é não é mais considerado “extremamente tóxico” pela Anvisa.

Pra não variar, o governo Bolsonaro está na contramão do resto do mundo. Enquanto lá fora são implementados esforços no sentido de restringir o uso dessas substâncias devido aos riscos que causam à saúde pública e ao meio ambiente – o que gera custos à União -, aqui, a cada ano, batemos um novo recorde na quantidade de agrotóxicos autorizados.

Em 2020, 493 novos compostos químicos foram liberados pela Anvisa! Em apenas dois meses no ano passado, durante a pandemia (março e abril), o governo aprovou 118 agrotóxicos.  

Em seu estudo, o Idec ainda chama a atenção para o fato de que o Brasil não só consome substâncias altamente nocivas, mas também técnicas proibidas em outras partes do mundo, como a pulverização aérea, “que espalha agrotóxicos não apenas em plantações, mas também indiscriminadamente em pessoas, comunidades, escolas, rios e tudo mais que houver pela frente”. 

E a pulverização desses venenos tem sido usada, também, como arma em disputas de terra, como aconteceu em abril deste ano no município de Buriti, no Maranhão. Agrotóxicos foram lançados de avião sobre a comunidade do Araçá e atingiu diversas crianças, como contou o portal Por Trás do Alimento (parceria entre a Agência Pública e a organização Repórter Brasil).

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Foto: Pixabay/domínio público

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Foto (destaque): Pixabay/domínio público

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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