Estudante do Pará concorre em competição mundial com bioplástico comestível, que prolonga vida de frutas e verduras

Estudante do Pará concorre em competição mundial com bioplástico comestível, que prolonga a vida de frutas e verduras

Você já deve ter lido ou escutado sobre esta estatística inúmeras vezes. Mais de 30% de todos os alimentos plantados no mundo acabam tendo como destino o lixo. Há décadas sabemos desse desperdício, mas muito pouco tem sido feito para evitá-lo em grande escala. Pensando em diminuir parte dessa perda, Jonas Cunha da Silva, estudante do curso de engenharia de bioprocessos da Universidade Federal do Pará (UFPA) desenvolveu um bioplástico líquido, comestível, que aplicado sobre frutas e verduras, prolonga a vida útil das mesmas.

O projeto de Jonas foi o grande vencedor da etapa brasileira do Falling Walls Lab Brazil 2020, competição internacional sobre inovação e empreendedorismo, promovida pela Falling Walls Foundation, de Berlim, e organizada no país pelo Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo. O estudante de Belém do Pará, de 23 anos, concorreu com outros 39 inscritos.

O bioplástico é feito a partir de cascas de frutas. Os testes demonstraram que depois da aplicação do líquido, algumas frutas ganharam entre três e seis dias de sobrevida, mantendo os mesmos valores nutricionais e sem alterar em nada seu sabor.

Estudante do Pará concorre em competição mundial com bioplástico comestível, que prolonga a vida de frutas e verduras

O bioplástico líquido sendo aplicado sobre frutas

Junto com outros alunos da UFPA, e que fizeram parte da pesquisa, o estudante do Pará fundou uma startup, a Biomimética, que no futuro, pode vir a comercializar o novo produto.

Por causa da pandemia da COVID-19, o anúncio do ganhador foi feito durante um evento virtual. E assim ocorrerão as próximas fases da competição. Cem pesquisadores do mundo inteiro foram selecionados e dez ficarão entre os finalistas. O vencedor, que receberá o título de Breakthrough Winner of the Year, será anunciado em novembro.

Estudante do Pará concorre em competição mundial com bioplástico comestível, que prolonga a vida de frutas e verduras

O trabalho apresentado pelo brasileiro e que está entre os 100 escolhidos na competição internacional

Conversamos com Jonas que nos contou mais sobre sua pesquisa.

Como surgiu a ideia para criar o bioplástico?
A ideia surgiu através de estudos sobre biomateriais, sabendo como eles são feitos, decidimos procurar por esses componentes em cascas de frutas, e desenvolvemos uma técnica de extração desses componentes usando apenas água e outros componentes orgânicos. Somos uma equipe formada por mais de dez pessoas e nossos planos são de utilizar o projeto para promover a fundação da nossa primeira empresa, uma startup com três sócios.

Como o bioplástico é feito?
Utilizamos casca e talos de frutas, depois de realizar alguns procedimentos de trituração, trabalhamos com água e alguns componentes orgânicos com o objetivo de isolar os componentes de interesse que formam o bioplástico. Depois disso adicionamos alguns aditivos com propriedades ativas de acordo com a necessidade de cada fruta. Todos os ingredientes utilizados nesse produto já estão presentes na dieta humana: componentes de casca de frutas, oleos essenciais, vitaminas, sais minerais…

Por que usar frutas?
As frutas têm um tempo de vida muito curto, ao mesmo tempo sofrem com altas taxas de perdas no comércio de hortifruti. É um setor que precisa com urgência de estabilidade no tempo de validade dos seus produtos.

Foram quantos meses de testes?
Estamos com o projeto há cerca de um ano em andamento, mas infelizmente por conta da pandemia, a prática que tivemos com o projeto é de cerca de seis meses. Hoje estamos conseguindo voltar a trabalhar, e agora, com tomates, estamos projetando um tempo de vida de até 20 dias a mais.

O bioplástico funciona em qualquer fruta?
Serve para qualquer tipo de fruta, mas ainda estamos trabalhando nisso. A gente precisa adaptar a composição do produto para cada tipo de fruta. Ocorre situações em que uma mesma versão do produto consegue ter resultados em mais de uma fruta, entrentanto, normalmente a gente precisa desenvolver uma formulação específica para cada tipo de fruto.

Vocês pretendem testar o bioplástico com legumes também?
Sim, já temos os nossos primeiros resultados, só que estamos procurando otimizá-los para divulgar.

A ideia para uo futuro é que o bioplástico seja aplicado por quem? Em que etapa da cadeia alimentícia?
O ideal é que os distribuidores de hortifruti sejam os responsáveis pela aplicação, pois normalmente são eles que fazem o beneficiamento (lavagem) do fruto, após adquirí-lo com o agricultor. Por isso o ideal é que o produto seja aplicado após a lavagem. Importante salientar que o produto não sai com lavagem. Mas isso não impede que supermercados e feirantes também possam escolher realizar essas etapas, possuimos embalagens em spray que podem ser borrifadas.

O bioplastico é líquido, mas ele seca após a aplicação?
Ele seca após alguns segunos de aplicação.

Deixa alguma textura diferente?
Até o momento não, a película formada é ultrafina e imperceptível ao olho humano.

Estudante do Pará concorre em competição mundial com bioplástico comestível, que prolonga a vida de frutas e verduras

Jonas, o terceiro da esquerda para direita, ao lado da equipe que desenvolveu o bioplástico comestível

Além do primeiro lugar, este ano o segundo colocado brasileiro também estará entre os 100 finalistas. Mariana Moraes, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), tem um projeto sobre enzimas, que poderiam substituir substâncias químicas altamente tóxicas aplicadas no meio ambiente.

*Atualizado às 12h57

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Fotos: arquivo pessoal/divulgação

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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