Espécies brasileiras abraçam instrumentos de percussão

tambores

Opções para reformar ou construir o corpo de seus tambores, o luthier José Luiz Benedito tem. E são várias: bambu, alumínio, PVC, coco, madeira. Mas, quando pode, ele lança mão de folhas de compensado de sumaúma (Ceiba pentandra) ou de curupixá (Micropholis venulosa), duas árvores amazônicas de madeira branca, ou seja, madeira maleável, boa de tornear e cortar em folhas para depois moldar no formato de atabaques, bongôs, caixas, cuícas ou outros instrumentos de percussão.

“Vou pessoalmente à madeireira e escolho as folhas uma por uma”, conta Zé Benedito, como é mais conhecido. “Não pode ter nó ou rachadura, senão o instrumento quebra bem ali. Tenho que examinar bem toda a extensão da chapa, ver se está bem aparelhada”. Depois de cortar, o luthier guarda os retalhos para instrumentos menores, como o pandeiro, que leva só uma estreita faixa de madeira na lateral. O aproveitamento deve ser o melhor possível para evitar desperdícios.

Os retalhos também servem para a reforma de instrumentos antigos ou danificados, que foi por onde Zé Benedito começou, há 15 anos. “Pergunto sempre porque a pessoa quer consertar o instrumento. Às vezes não compensa: se é só para tocar ou aprender a tocar, melhor comprar um instrumento novo. Mas se existe algum sentimento pelo instrumento, é diferente. Aí minha satisfação é ver que a pessoa achou o que procurava, então tento manter as características do instrumento, tento preservar ao máximo como era o original”.

Novos ou reformados, os instrumentos de percussão de Zé Benedito também têm outros elementos da flora nativa, além da madeira amazônica que envolve os tambores. Os afoxés e xequerês, por exemplo, levam sementes de açaí (Euterpe oleracea) provenientes do Pará. Zé Benedito ainda usa sementes de seringueira (Hevea brasiliensis) e de chapéu-de-Napoleão (Thevetia peruviana) e ouriço de castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa).

As duas lojas do luthier, no bairro Pinheiros de São Paulo, vez por outra recebem encomendas e visitas de percussionistas brasileiros famosos, como Robertinho Silva, Paulinho da Costa, Gustavo da Lua, Marco Lobo. Mesmo sem saber, essas mãos que “quebram tudo” nos shows por aí afora, também levam um pouquinho do som da biodiversidade nativa para ouvintes e fãs.

Fotos: Divulgação Zé Benedito

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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