Érika Guimarães: “Bem-estar é oportunidade para engajar as pessoas em defesa das áreas protegidas”

A bióloga Érika Guimarães é daquelas mulheres que gostamos de ter por perto. Ativista que pratica o que prega com naturalidade, seja na sua relação com a natureza, a vida profissional ou a maternidade.

Sul-mato-grossense, sua atuação em defesa de áreas protegidas começou no Pantanal, quando ajudou a Conservação Internacional (CI) a criar corredores ecológicos e as primeiras brigadas de incêndio voluntárias naquele bioma e também no Cerrado.

Mais tarde, na SOS Mata Atlântica, mudou de bioma, mas não de foco, com um trabalho que incluiu o incentivo a criação de reservas particulares do patrimônio natural (RPPN) e o advocay em prol das áreas protegidas.

Seu ativismo, porém, também abarcou causas feministas, principalmente por meio de sua militância pelo parto humanizado, que desenvolveu a partir de sua própria experiência de ser mãe.

Na SOS Mata Atlântica, foi uma das organizadoras do primeiro encontro de Mulheres pela Conservação, durante a Semana da Mata Atlântica de 2018, para debater a presença e o papel femininos nas causas e organizações ambientalistas.

Esse tipo de inquietação a levou a desenvolver uma pesquisa sobre a presença da mulher nas ONGs do país, sobre a qual fala nesta conversa com o Mulheres Ativistas, do Conexão Planeta.

Do que trata a pesquisa que está desenvolvendo sobre a presença das mulheres nas organizações não governamentais?

Elaine Teixeira, amiga bióloga de Campo Grande, com quem trabalhei na Conservação Internacional, disse em um grupo de amigas do WhatsApp que gostaria de saber mais sobre a presença das mulheres nas ONGs. Começamos a conversar sobre o tema no privado e acabamos por estruturar uma pesquisa a partir de um questionário sobre o tema. Vivemos no terceiro setor, temos lugar de fala sobre ele.

Sabemos que as empresas estão olhando para gênero e equidade, mas como as ONGs, que defendem a agenda de direitos humanos, olham para isso? Há políticas específicas para, por exemplo, quando nos tornarmos mães, podermos ser inclusivas e produtivas? Como é a volta da licença maternidade?

Também perguntamos sobre a presença de mulheres negras, indígenas, trans, e na liderança e nos conselhos. Fizemos uma divulgação ampla, desde as grandes, chamadas king ONGs, até as pequenas e comunitárias.

Os resultados até agora corroboram o que intuíamos: mulheres são maioria, muitas exercem liderança, mas as organizações não têm política de gênero formalizada.

Os resultados preliminares devem ser divulgados ainda em março, em seminário do Instituto Semeia. O que percebemos é que muitas mulheres têm sua carreira e lideram ainda baseadas no patriarcado. Outras chegam à liderança a partir do consentimento de homens.

As ONGs têm papel fundamental nesse momento, mas precisam ampliar o olhar.

Quando iniciou sua atuação em entidades ambientalistas?

Nasci em Campo Grande, uma cidade pequena do interior que hoje é capital de Mato Grosso do Sul. Minha memória afetiva passa por pés de goiaba, árvores que eram meu espaço de diversão, reflexão e de curar tristezas.

Além disso, meu pai gostava de pescar e acampar, cresci em meio a barraca, fogareiro, banhos de rio, cobras etc. Até que, quando tinha nove anos, em uma aula de ciências na escola pública em que estudava, a professora nos mostrou um microscópio e pirei quando o vi. Na hora, tive certeza que queria trabalhar com aquilo.

A professora disse que eu poderia ser bióloga. Pedi e ganhei um microscópio dos meus pais e isso me acompanhou. Não tive dúvida sobre o que queria quando prestei vestibular.

Entrei na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e lá comecei a me engajar em causas ambientais, ainda de forma superficial. Quando terminei a faculdade, em 1999, trabalhava com polinização e ia todos os meses para o Pantanal. Tinha uma professora, a Edna Scremin, que fazia doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e incentivou a mim e uma amiga para ir para lá fazer mestrado.

Queria estudar taxonomia e me mudei para São Paulo para prestar e cursar mestrado. Mas quando terminei, em 2000, fiquei com a sensação de que queria fazer algo que ainda não sabia exatamente o que era, achava que era educação ambiental. Foi quando apareceu uma oportunidade de trabalho em Campo Grande na CI.

Foi trabalhar com áreas protegidas?

Era uma consultoria para a formação das primeiras brigadas voluntárias de incêndio no Pantanal. A CI começava um programa de implementação de corredores de biodiversidade no Cerrado e no Pantanal e fui contratada.

Além do componente de criar brigadas voluntárias de incêndio, tinha projeto de mapear áreas de biodiversidade, engajar atores, como universidades, Embrapa etc. Fiquei lá entre 2000 e final de 2004, os últimos dois anos como coordenadora.

Quando me casei com o Glauber (o cientista político Glauber Piva, hoje coordenador do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste), combinamos de morar em São Paulo, por isso deixei a CI.

Na época, eu estava estruturando um programa de reservas particulares do patrimônio natural (RPPN) e fizemos um edital baseado nos da SOS Mata Atlântica. Com isso, conheci as pessoas de lá e soube que havia uma vaga aberta para a Aliança pela Conservação da Mata Atlântica (formada pela SOS e pela CI).

Me candidatei e fui coordenar a Aliança e o Programa de RPPN da SOS. Saí do Pantanal e caí na Mata Atlântica.

Trabalhando com essas duas organizações, entendi que o que queria fazer era incidência política. Por que vivemos em um país tão maravilhoso e não conseguimos engajar as pessoas para a causa ambiental? Fiquei na SOS Mata Atlântica até engravidar do Theo, em 2009.

Por que resolveu sair?

A gravidez me atravessou e queria parar e entender aquele momento. Comecei a perguntar porque todo mundo à minha volta não pariu naturalmente. Resolvemos que nosso filho nasceria em casa, uma escolha que, na época, era cercada de preconceitos.

Estudei muito a gestação inteira e acabamos por escolher esse caminho sem contar para ninguém. O nascimento do Theo foi incrível, com 41 semanas e cinco dias.

Logo o Glauber foi convidado para dirigir a Ancine no Rio de Janeiro e nos mudamos para lá. Só voltei a trabalhar, com consultorias, quando meu filho estava com nove meses.

Por que se engajou na causa do parto humanizado?

Frequentava grupos de mulheres durante a gravidez e vi que casos de violência obstétrica são brutais. Ainda bem que temos ciência para casos especiais, mas não pode haver 90% de mulheres que não podem parir, todo bicho é programado para isso acontecer.

Não tinha essa referência, minha mãe teve quatro filhos e quatro cesáreas. Mas vi que muitas mulheres não têm nem direito a acompanhante durante o parto, mesmo que isso esteja previsto em lei.

Além disso, fazem o corte no períneo no parto normal sem pedir consentimento, o que não existe no resto do mundo, com um impacto grande na vida das mulheres, inclusive sexual.

No Brasil, tudo é feito para ser rápido, não há espaço na estrutura do hospital para oito horas de trabalho de parto. As mulheres são pressionadas para a cesárea, para o corte etc. Queria fugir desse lugar. A maternidade é a experiência humana mais profunda para quem escolhe isso.

Comecei a me engajar em fóruns sobre a maternidade. Fui a debates na Assembleia Legislativa para aprovar a Lei de Doulas, no Rio. Tenho foto grávida da Nina, minha segunda filha, na marcha pelo parto humanizado no Rio de Janeiro.

Na época, o Conselho Federal de Medicina condenava a presença da doula e o parto em casa. Nina nasceu em 2013, também em casa. Quando tinha quatro meses, nos mudamos para Sorocaba.

Minha cunhada, que mora em Sorocaba, é doula (acompanhou meus dois partos) e participava do então iniciante Movimento Parto de Gente. Eu e Glauber entramos no movimento, ajudamos na articulação com vereadores e conseguimos uma lei municipal que garante acompanhante e doula no parto.

Além disso, conheci o casal Luciana Benatti e Marcelo Min (ela era jornalista e ele, fotógrafo, que faleceu em 2015), quando estavam grávidos e também se perguntando por que o parto humanizado é tão difícil no Brasil. Eles produziram o livro Parto com Amor, a partir da própria experiência e mais oito histórias de parto – a do Theo está lá.

Mas a atuação pelas áreas protegidas continuou?

Sim. Em Sorocaba, no primeiro ano da Nina, voltei a trabalhar como consultora e escrevi um livro com a Angela Pellin (Instituto de Pesquisas Ecológicas- IPÊ) sobre a gestão de áreas protegidas urbanas.

Em 2015, voltei para a SOS Mata Atlântica e passei mais quatro anos como gerente de Áreas Protegidas, um trabalho focado em advocacy, para mostrar o quão essenciais são essas áreas. Nessa fase, fui aprendendo a fazer incidência política e o quão necessário é convencer todos os setores da importância da área ambiental. A SOS faz isso de forma contundente.

Como é possível engajar as pessoas nessa causa?

Tenho me aprofundado na relação entre saúde e áreas protegidas desde que me mudei para a Bahia no início de 2020 – hoje, moro em Lauro de Freitas na região metropolitana de Salvador – e comecei a reorganizar minha vida profissional ao mesmo tempo em que se iniciou a pandemia.

Isabela Curado, grande amiga que mora em Sorocaba, me convidou para ser sua sócia e criamos a Aretê Socioambiental, parceria que tem procurado dar vazão à nossa militância com projetos voltados a ajudar a reconectar as pessoas com a natureza.

Tenho trabalhado com organizações como o WWF-Brasil e a Coalizão Pró-UC para mostrar que as áreas protegidas deveriam estar à disposição da população para promoção de bem-estar.

Há sete meses, ajudo a consolidar o que deverá ser a Rede Brasileira de Bem-Estar na Natureza, que engloba profissionais das áreas de saúde e meio ambiente, além de participar de três fóruns sobre o tema. No pós-pandemia, as pessoas necessitarão ficar ao ar livre e será uma grande oportunidade para emplacar esse tema. Bem-estar é caminho para engajar pelo lado bacana.

Fui, ainda, selecionada para fazer parte do Comitê de Especialistas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) para implementar a Lista Verde no Brasil. É uma agenda positiva que apontará o que faz uma área protegida ser super exitosa e inspirar outras áreas. Estamos estudando indicadores para referendar áreas protegidas nos próximos anos.

Como vê a situação atual das áreas protegidas no Brasil?

Vejo o momento com preocupação e acredito que levaremos tempo para reconstruir os retrocessos que vivemos hoje na agenda das áreas protegidas.

Propostas como a fusão do Ibama com o ICMBio e os cortes de recursos para a área sinalizam um desmonte da área ambiental.

A agenda de saúde e bem-estar é a maneira que espero ser um argumento que engaje as pessoas para entender que não se pode tirar recursos ou abrir mão do ICMBio para cuidar dessas áreas.

O momento é de fazer redes e nos prepararmos. Sonhar com o mundo que queremos construir daqui a pouco, quando essa onda mudar, seja pelo impeachment ou nas próximas eleições. Há coisas boas acontecendo em alguns estados, nos coletivos, nas comunidades, o que é uma maneira de nutrir otimismo.

Edição: Mônica Nunes

Foto: arquivo pessoal

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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