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Eric Clapton causa polêmica com música contra lockdown e distanciamento social no Reino Unido

A gravação mais recente de Eric Clapton acaba de chegar às plataformas de streaming. E não há nada a celebrar. Não no meu entendimento. Trata-se da música Stand and Deliver, composta por Van Morrison e interpretada por Clapton como uma forma de protesto contra as políticas do governo de Boris Johnson para conter a pandemia da covid-19 no Reino Unido.

A letra nega a ciência, clamando por liberdade, comparando quem segue os protocolos de saúde a escravos: “Você quer ser um homem ou um escravo?” diz a canção.

Sim, o mesmo músico que encantou multidões nos anos 90 com a emotiva Tears in Heaven, de seu álbum Unplugged – escrita em homenagem ao filho que morreu de forma trágica aos quatro anos – é contra qualquer estratégia de isolamento social para evitar a disseminação do coronavírus. E faz questão de propagar essa ideia. Agora, cantando.

A música provocou reações negativas e as críticas viralizaram nas redes sociais. Até mesmo fãs de Clapton se manifestaram contra a dupla e aproveitaram a oportunidade para resgatar episódios nada simpáticos protagonizados por ele nos anos 70.

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Discurso racista

A atriz Jameela Jamil, conhecida pela comédia The Good Place (Netflix) e por seu ativismo em prol de causas sociais (ela é descendente de paquistaneses e indianos), não esperou o lançamento da música para se manifestar.

No final de novembro, assim que foi anunciada a parceria entre Morrison e Clapton, ela resgatou um discurso racista de Clapton num show de 1976, em seu perfil no Twitter: “Este é o homem que quer que vocês saiam às ruas enquanto ele se senta em segurança em sua mansão com os melhores médicos à disposição”.

Antes de começar a apresentação, o músico teria pedido para que os “estrangeiros” presentes levantassem as mãos. Em seguida, gritando, “convidou-os” a se retirar, mas não apenas do recinto em que se encontravam, e, sim, do país:

“Vamos impedir o Reino Unido de virar uma colônia negra. Expulsem os estrangeiros, mantenham a Inglaterra branca. Os negros, árabes e jamaicanos não pertencem a este país e nós não os queremos aqui. Precisamos deixar claro que eles não são bem-vindos. A Inglaterra é um país para brancos, o que está acontecendo conosco?”.

A declaração de Clapton incendiou o cenário musical na Inglaterra e foi mais uma gota no oceano de protestos contra o supremacismo branco entre artistas, que resultou no movimento Rock Against Racism, lançado no mesmo ano. A campanha foi uma resposta de artistas de várias vertentes – pop, rock, punk e reggae – às tensões raciais e ao crescimento de grupos de supremacia branca, que influenciavam os jovens.

Fundo em prol dos músicos impactados pela pandemia

Foto: Andy Paradise/Facebook

Em entrevista à revista Variety sobre Stand and Deliver, Clapton declarou estar “profundamente aborrecido” com o cancelamento de seus shows devido à pandemia, que está na segunda onda na Europa. E elogiou a campanha do amigo e parceiro:

“Muitos de nós apoiam Van (Morrison) e seu esforço para salvar a música. Ele é uma inspiração. Precisamos nos posicionar e sermos notados para encontrarmos uma saída dessa bagunça”.

Esta é a quarta composição de Morrison contra as medidas restritivas do governo britânico e todo o lucro obtido com sua comercialização é destinado a um fundoMorrison’s Lockdown Financial Hardship Fund – criado por pelo compositor para ajudar músicos impactados financeiramente desde que a pandemia começou.

Em setembro e outubro, ele lançou as faixas Born To Be Free, As I Walked Out e No More Lockdown. Nesta última, o compositor chama o governo de fascista devido às políticas de isolamento social, que, para ele, limitam a liberdade da população.

De que liberdade Morrison fala? A de contaminar os outros? De espalhar o vírus? Em momento algum, ele leva em conta o perigo do contágio sem controle.

Sobre a gravação de Clapton para seu último protesto musical, declarou à Variety: “É fantástica e irá claramente ressoar entre muitos que compartilham nossas frustrações. É de partir o coração ver tantos músicos talentosos sem qualquer apoio significativo do governo, mas queremos tranquilizá-los de que estamos trabalhando duro todos os dias para fazer um protesto pelo retorno da música ao vivo e para salvar nossa indústria”.

E assim caminha a humanidade…

Claro que a situação dos músicos – como a de outros profissionais, não só da área da cultura – é delicada. Os governos precisam criar políticas emergenciais de apoio para que sobrevivam à pandemia.

Por isso, o discurso de Morrison e Clapton poderia ser feito em outra direção: cobrar pela implantação de estratégias dessa magnitude e não incitar a população contra o governo e exigir que os shows ao vivo e as aglomerações voltem, custando vidas.

No que depender da performance do vírus na Europa, Morrison e Clapton podem continuar protestando, mas o lockdown, adotado em novembro no Reino Unido, vai continuar vigente.

De acordo com relatório divulgado na semana passada pelo Imperial College, de Londres, os resultados dessa medida são visíveis: houve redução de cerca de 30% nos casos de infeção.

Vale lembrar que, antes de ser contaminado com a doença, Boris Johnson negava seu perigo e esbravejava contra a ciência.

Eric Clapton segue divulgando a programação de shows em 2021 em suas redes sociais. Em 3 de dezembro, no Facebook, comunicou “o quarto e último concerto no Royal Albert Hall”, em 15 de maio, para atender à alta procura por ingressos.

E assim caminha a humanidade.

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Fontes: Rolling Stones, Variety, Veja

Foto: George Chil/Reprodução Facebook

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