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Entidades repudiam afundamento pela Marinha de porta-aviões com mais de 9 toneladas de amianto

Entidades alertam sobre possível impacto ambiental de afundamento de porta-aviões com mais de 9 toneladas de amianto

Na última sexta-feira (03/02) a Marinha do Brasil informou que afundou o porta-aviões São Paulo, em alto mar, a 350 km da costa brasileira, com profundidade aproximada de 5 mil metros. O navio estava há meses parado e envolvido em uma enorme polêmica.

Em 2021, o casco do navio aposentado foi vendido pela Marinha brasileira à empresa turca, SÖK Denizcilik (SÖK) por R$ 10,6 milhões. A intenção é que ele seria rebocado até um estaleiro naquele país, onde seria feita a chamada reciclagem verde e a venda como sucata por cerca de R$100 milhões. Todavia, o governo da Turquia não autorizou a entrada em suas águas já que a embarcação possuía 9,6 toneladas de amianto, substância com potencial cancerígeno (seu uso já é proibido em mais de 50 países, entre eles, o Brasil), além de outras substâncias tóxicas.

O porta-aviões retornou então ao Brasil e ficou abandonado perto do litoral de Pernambuco. A SÖK Denizcilik informou então à Marinha que não iria mais levar o navio para a Turquia. Enquanto isso, por causa dos possíveis danos ambientais, nenhum porto brasileiro permitiu que o São Paulo atracasse.

Foi quando a Marinha divulgou que a melhor solução seria afundar o porta-aviões, na operação que denomina de alijamento, “por meio do afundamento planejado e controlado”. O casco estaria em péssimas condições e movimentar o navio seria mais perigoso, alegava.

Entretanto, várias organizações alertaram sobre os possíveis danos ambientais que a medida acarretaria. Na quinta-feira (02/02), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) solicitou à Marinha do Brasil maiores informações sobre a operação.

“Além de solicitar estudos do Centro de Hidrografia da Marinha, mapeamento de fundo da área selecionada para o alijamento do casco e informações sobre o método pretendido para provocar o afundamento, o Ibama recomendou a elaboração de Plano de Monitoramento da Água”, declarou o instituto em nota.

Segundo especialistas do Ibama, “a liberação de materiais poluentes contidos na estrutura poderia causar distúrbio na capacidade filtrante e dificuldade de crescimento em organismos aquáticos; o impacto físico sobre o fundo do oceano provocaria a morte de espécies e deterioração de ecossistemas”.

Os servidores do órgão ressaltaram ainda que um volume enorme de microplásticos e metais pesados presentes na tinta do navio iriam contaminar a água e afetar a vida marinha presente ali.

O Ministério Público Federal também havia pedido que a Justiça Federal proibisse o afundamento da embarcação, mas a solicitação foi negada.

Com o uso de explosivos, o navio que pesava 31 mil toneladas e tinha 266 metros de comprimento e mais de 50 metros de largura foi ao fundo do mar.

“O procedimento foi conduzido com as necessárias competência técnica e segurança pela Marinha do Brasil, a fim de evitar prejuízos de ordem logística, operacional, ambiental e econômica ao Estado brasileiro. A área para a destinação final do casco, situada em Águas Jurisdicionais Brasileiras (AJB), foi selecionada com base em estudos conduzidos pelo Centro de Hidrografia da Marinha e Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira. As análises consideraram aspectos relativos à segurança da navegação e ao meio ambiente, com especial atenção para a mitigação de impactos à saúde pública, atividades de pesca e ecossistemas”, diz o comunicado divulgado pela Marinha.

O Greenpeace Brasil e a Sea Shepherd Brasil usaram suas redes sociais para protestar contra o naufrágio do porta-aviões.

“Mais uma vez a importância de proteger os oceanos foi NEGLIGENCIADA.. Nós, do Greenpeace Brasil, a Sea Shepherd e a Basel Action Network, destacamos o enorme impacto que o afundamento do navio causará à vida marinha e às comunidades que dependem de um oceano estável para seu modo de vida”, afirmaram as ONGs.

“Havia medidas concretas e ambientalmente responsáveis que poderiam ter sido adotadas mas, mais uma vez, a importância de proteger os oceanos, que são vitais para a vida no planeta, foi negligenciada”, lamentou Leandro Ramos, diretor de programas do Greenpeace Brasil.

A Sea Shepherd Brasil também repudiu a ação da Marinha. “Após meses, a história do porta-aviões brasileiro NAe São Paulo (A12) chega a um trágico fim. Contradizendo liminar do MPF e posicionamento do IBAMA, recusando propostas possíveis de alternativas, a Marinha seguiu procedimento no qual toneladas de amianto chumbo, mercúrio e potencialmente PCBs se espalham em explosões na atmosfera, e agora contaminam águas abissais e sua essencial vida marinha por anos a fio”.

Para Nathalie Gil, presidente da organização, os prejuízos ambientais só foram considerados em fala, não em ação. “O afundamento deste navio é mais um exemplo de que as prioridades econômicas, legais e políticas ainda seguem em primeiro plano – e o ambiental segue com a corda mais fraca – quando se trata da preservação ambiental do oceano”, escreveu. “A escolha da Marinha e os erros de diversos atores nestes últimos meses deixa como exemplo para o mundo de que em pleno 2023 – mesmo com responsabilidade, recursos e ferramentas necessárias para conter um desastre ambiental – é ainda aceitável se livrar de uma grande massa de elementos tóxicos em um ecossistema que já está sobrecarregado pela ação predatória humana. O Brasil continua virado de costas para o oceano, e o trata ainda exclusivamente como seu quintal. Quem paga novamente o preço são criaturas inocentes e ecossistemas fundamentais para a nossa sobrevivência na Terra”.

O porta-aviões antes de ser aposentado: embarcação foi construída na França há 75 anos e fez parte da frota brasileira desde 2000
(Foto: Reprodução/Flickr/Marinha do Brasil)


*Com informações da Agência Brasil, Correio Braziliense, UOL Notícias e a Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto

Foto de abertura: divulgação Greenpeace Brasil/Planet Labs PBC

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