Brasileiro recebe maior prêmio mundial de conservação por projeto com plantas raras e ameaçadas de extinção da Floresta com Araucária

A Floresta com Araucária é um dos ecossistemas mais degradados e ameaçados do mundo. Parte do bioma Mata Atlântica, hoje resta menos de 1% de seu território original, em áreas muito fragmentadas dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e em menores porções de São Paulo e Minas Gerais. Mas se depender da equipe da Sociedade Chauá, sua rica biodiversidade não irá desaparecer.

Há quase 25 anos o projeto que começou entre amigos que cursavam o curso de Engenharia Florestal em Curitiba deu muitos frutos, entre eles, o maior viveiro de plantas da Floresta de Araucária: 80% das 252 espécies conhecidas nesse ecossistema. E agora, duas décadas e meia depois, a Chauá ganha o Whitley Award, considerado o maior prêmio mundial da área ambiental.

Concedida anualmente pelo Whitley Fund for Nature (WFN), do Reino Unido, a premiação seleciona pesquisadores que se destacaram por seu trabalho científico para a conservação da biodiversidade em países do Hemisfério Sul. E na edição de 2022, o engenheiro florestal Pablo Hoffmann, sócio-fundador e diretor da Chauá foi um dos escolhidos para receber o reconhecimento em nome de toda a equipe.

O brasileiro participou da cerimônia em Londres, onde o projeto da Chauá, ao lado de outros seis premiados foram anunciados (veja lista completa aqui). O evento contou com a presença da princesa Anne, filha da rainha Elizabeth.

Conversamos por mensagem com Pablo, que ainda está no Reino Unido, para que ele nos contasse mais sobre os esforços da Chauá e a importância do reconhecimento para o projeto de conservação.

Como é exatamente o trabalho da Sociedade Chauá?
Nosso principal foco é tentar salvar da extinção espécies de plantas da Floresta com Araucária. Apesar de a árvore araucária ser o principal símbolo desse tipo de floresta, além dela há mais de 250 espécies de árvores que ocorrem ali e também estão ameaçadas, assim como mais de 700 espécies de plantas, como ervas, arbustos e outros tipos de vegetação.

E dá pra imaginar que dentro de qualquer floresta há espécies mais comuns e outras mais raras naturalmente. E estas últimas foram muito mais afetadas pela degradação e desmatamento desse ecossistema.

O que tentamos fazer, principalmente para aquelas espécies mais raras e em risco de extinção, é mapear esses indivíduos no campo, achar onde elas estão na floresta, e fazer um acompanhamento fenológico, que consiste em visitas frequentes para determinar se a espécie está produzindo flores, frutos, sementes, ou seja, acompanhar as fases dela durante o ano.

Após esse mapeamento inicial das espécies mais raras, o que é feito?
Depois do monitoramento fenológico conseguimos definir qual é a época mais propícia para a coleta de sementes. Elas são trazidas para o viveiro, onde é realizada a pesagem, beneficiamento e na sequência, o semeamento para a produção de mudas.

Parece um processo simples, mas há pouca informação sobre as espécies nativas do Brasil e consequentemente, da Floresta com Araucária. O que fazemos durante este processo é produzir informação também, descobrindo qual é a melhor maneira de germinar, tratamentos para quebrar a dormência, substratos para serem usado, temperatura para cultivo…

E com as mudas prontas, qual o próximo passo?
Fazemos a reintrodução das espécies no ambiente natural. Basicamente tranferí-las do viveiro e plantar em locais onde elas possam se adaptar e fazer o monitoramento dessas plantas. O objetivo é ter populações dessas espécies que possam se reproduzir, de maneira viável, a longo prazo.

Engenheiro florestal brasileiro recebe maior prêmio mundial de conservação por projeto com plantas raras e ameaçadas de extinção da Floresta com Araucária

Imagem aérea do viveiro no município de Campo Largo

A Chauá também faz um trabalho de educação ambiental na região?
Sim. Tentamos engajar proprietários rurais e outras pessoas que trabalham com viveiros, plantas ou restauração para que aumentem o número de espécies a serem utilizadas e assim ajudem a manter a diversidade genética da floresta e salvar essas espécies da extinção.

Qual a sensação de ser escolhido para receber o Whitley Awards?
É extremamente recompensador. Quem trabalha com conservação sabe o quão difícil é manter o esforço e a perseverança. Realmente é preciso fazer muita coisa por amor. Mas a causa é muito importante, pois a gente sabe que a extinção é para sempre. Então ter esse reconhecimento, é muito importante. Não tenho nem palavras para descrever. Dá mais esperança ainda para continuar o nosso trabalho.

Abaixo o vídeo, em inglês, produzido para apresentar o trabalho da Sociedade Chauá e que conta com a narração de, ninguém menos do que o naturalista britânico David Attenborough:

Cada vencedor do Whitley Award, também chamado de “Oscar verde”, recebe um valor de 40 mil libras (R$ 250 mil). Os escolhidos também passam por uma semana de atividades, que inclui um treinamento intensivo.

No ano passado, o trabalho de outro brasileiro também foi reconhecido pela premiação britânica: o biólogo gaúcho Pedro Fruet por seu projeto de proteção à uma espécie de botos, em risco de extinção. E em 2020, as pesquisadoras Patrícia Medici e Gabriela Cabral também foram escolhidas (leia mais aqui).

Fotos: arquivo pessoal (abertura) e divulgação Whitley Awards

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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