Em um ano, a premiada rede Origens Brasil, da Amazônia, cresce 69% e movimenta mais de R$ 2,3 milhões em produtos da floresta

Em um ano, a premiada rede Origens Brasil, da Amazônia, cresce 69% e movimenta mais de R$ 2,3 milhões em produtos da floresta

Manter a floresta em pé é e sempre será um bom negócio. Quando a pandemia do novo coronavirus chegou, impondo distâncias e retraindo o consumo, tornou ainda mais vulneráveis as comunidades tradicionais e os povos indígenas, que vivem na floresta e dependem dela para sobrevier.

Mas, ao contrário do que se poderia prever, o interesse pela produção desses populações, no âmbito da rede Origens Brasil, que atua na Amazônia desde 2016, cresceu de maneira considerável.

É o que indica o relatório 2020 lançado em junho por essa rede, que registrou o aumento de 69% em relação à adesão de empresas-membro – de 16 para 28 -, que compram de 1882 produtores, com potencial de beneficiar 12.774 representantes de 43 povos indígenas e populações tradicionais

Em um ano, foram comercializados R$ 2.374.480,18 milhões em produtos da floresta, revelando que estes são negócios resilientes e sustentáveis, capazes de superar turbulências econômicas

Em um ano, a premiada rede Origens Brasil, da Amazônia, cresce 69% e movimenta mais de R$ 2,3 milhões em produtos da floresta
Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), no Território Solimões / Foto: Origens Brasil

Entre os novos membros estão a Cervejaria Colorado, a marca Osklen, a Feira Rosenbaum, Bemglô, Cocar & Co,  Wickbold, Mercur, Bossapack, Manioca e Pão de Açúcar.

“Os tempos que vivemos mostram a urgência de aumentar a resiliência dos territórios e dos seres humanos que neles vivem”, diz Isabel Garcia, conselheira da Origens Brasil e gerente do Imaflora. “O sentido maior de uma rede que articula as pessoas que vivem na floresta e da floresta em pé é precisamente fortalecer as relações e promover conexões que levem à prosperidade, à verdadeira prosperidade. A Rede Origens Brasil tem proporcionado o ambiente para que este objetivo seja atingido”.

Desde o início de sua criação, em 2016,  a rede já apoiou a venda de mais de R$ 10 milhões de reais em produtos que representam mais de mil toneladas e contribuem para a proteção de 52 milhões de hectares de floresta em pé – o equivalente ao tamanho da Espanha. 

A proteína do pirarucu, a castanha-do-brasil, a borracha, o cumaru (a baunilha da Amazônia), o babaçu, a cerveja amazônica e a granola de tapioca são os principais produtos comercializados. E são os produtos relacionados à alimentação que representam a principal pauta de comércio ético e transparente da Origens Brasil

Produtos que impulsionaram os negócios em 2020

Proteína de pirarucu

Em um ano, a premiada rede Origens Brasil, da Amazônia, cresce 69% e movimenta mais de R$ 2,3 milhões em produtos da floresta
Manejo de Pirarucu Amanã, no rio Amazonas / Foto: Bernardo Oliveira, Instituto Mamirauá

O pirarucu é o maior peixe de escamas de água doce do mundopode chegar a pesar 200 quilos e medir até 4 metros de comprimento – e, graças à rede Origens Brasil sua presença em rios e lagos do Território Solimões aumentou cerca de 400% e sua proteína foi um produtos que mais impulsionaram os negócios em 2020. 

A rede apoia iniciativas de manejo sustentável desta espécie símbolo da Amazônia, contribuindo para a conservação da diversidade socioambiental e a valorização das comunidades tradicionais. E tem o Instituto Mamirauá como parceiro desse programa de manejo participativo.

Em um ano, a premiada rede Origens Brasil, da Amazônia, cresce 69% e movimenta mais de R$ 2,3 milhões em produtos da floresta
Manejo de Pirarucu Amanã, no rio Amazonas / Foto: Bernardo Oliveira, Instituto Mamirauá

A produção de proteína do pirarucu é realizada pelas populações ribeirinhas das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Amanã e Mamirauá, no Solimões. A comercialização, agora, está a cargo da Cocar & Co, que, em 2020, comprou 11.315,2 kg de pirarucu manejado.

É esta relação comercial direta e ética que contribui para garantir a manutenção de mais de 5,5 milhões de hectares de floresta em pé.  

Baunilha da Amazônia

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Produção de Cumaru, a Baunilha da Amazônia / Foto: Aloyana_Lemos/Origens Brasil

A produção de cumaru é realizada por 14 instituições que apoiam dez áreas protegidas quilombolas e extrativistas no Território Calha Norte da rede Origens Brasil, no Pará.

Suas sementes têm perfume muito semelhante ao da baunilha, da amêndoa, do cravo e da canela, por isso, é muito utilizado na produção de aromas e fragrâncias.

Primeiro cogumelo nativo

Outra novidade da rede é o cogumelo do povo Yanomami – o primeiro nativo da floresta amazônica a ser comercializado no mercado brasileiro. Fruto de parcerias com os povos indígenas da bacia do Rio Negro, era pouco conhecido de grande parte do país, até ser integrado a rede por intermédio do ISA.

“Essas parcerias comerciais e institucionais têm sido importantes para darmos visibilidade ao nosso conhecimento, a nossa maneira de ser, a nossa forma de pensar”, salienta André Baniwa, da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), que também produz o cogumelo. 

Gênero e cultura

Outro destaque do relatório da rede Origens Brasil é a promoção da paridade de gênero nas relações comerciais com os povos da floresta. Ou seja, a igualdade.

Mais de metade (55%) das iniciativas de comércio da rede, no último ano, se deve às mulheres do Território Xingu. No Rio Negro, elas também dominam as iniciativas: 54%.X 46% dos homens.

Tais atividades também contribuem para a conservação da Amazônia e de seu patrimônio cultural

“É da nossa cultura cuidar da floresta. Isso vem dos nossos antepassados que já sabiam que a floresta é nosso bem mais precioso. Ela é nossa farmácia, nosso mercado, o nosso sustento. O extrativismo dos produtos da floresta é parte da cultura do meu povo quilombola”, diz Maria Daiana, moradora do Último Quilombo,  em Oriximiná, Pará.

Em prol da floresta em pé

Cachoeira do Bem Fica no Território Calha Norte / Foto: Aloyana Lemos/Origens Brasil

A Origens Brasil surgiu da iniciativa de produtores da floresta e do Imaflora – Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola e do ISA – Instituto Socioambiental com o objetivo de mobilizar organizações que atuam em territórios amazônicos, comunidades e empresas para viabilizar negócios em prol da floresta em pé com garantia de origem, rastreabilidade, transparência e promovendo comércio ético.

A rede conecta empresas a cadeias produtivas sustentáveis em áreas prioritárias de conservação na Amazônia, gerando valor para os povos indígenas e populações tradicionais que vivem da floresta – “os verdadeiros guardiões do nosso patrimônio socioambiental“, destaca a rede em seu site.

“Esse é um caminho para promover a segurança da origem socioambiental dos produtos. Nesse momento, somos um ato de resistência para permitir a existência”, destaca Luiz Brasi, coordenador da Origens Brasil/Imaflora.

Em 2019, a rede recebeu o Prêmio Internacional de Inovação para a Alimentação e Agricultura Sustentáveis da Organização das Nações Unidas (ONU), como contamos aqui, no Conexão Planeta (foto abaixo).

Na cerimônia de entrega do prêmio, em junho de 2019, a Origens Brasil foi representada por Patrícia Cota Gomes, coordenadora da iniciativa administrada pelo Imaflora, e também pelo indígena Kayapó Bepnhoti Atydjare, coordenador da Associação Floresta Protegida, que, na foto acima, aparecem ao lado de José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO e Adriano Jerozolimski, também da organização / Foto: Giuseppe Carotenuto/FAO

Conexões

Para o enfrentamento do novo coronavirus na região, foi imprescindível contar com a conexão entre os povos da floresta e as empresas, que resultou em iniciativas importantes de apoio.

Um exemplo foi a captação para a ação emergencial contra a covid-19, que beneficiou mais de 2 mil famílias na região da Terra do Meio (Xingu) e Oriximiná, (Calha Norte), ambos no Pará. 

Com a pandemia, as formas de engajamento da rede foram adaptadas. O encontro anual, de 2020, por exemplo, foi realizado em formato virtual, durante dois dias. Cerca de 150 pessoas debateram e fizeram reflexões sobre o contexto da Amazônia e seu impacto para os povos e negócios da floresta, a comunicação em rede, o mercado ético. Também foram definidas as ações prioritárias para este ano como a expansão de atuação da rede para o quinto território.

“É muito bom poder integrar um grupo de mais de cem pessoas que comungam com a visão da importância das florestas e das comunidades tradicionais nesse manejo”, declarou Adriana Ramos,  assessora do ISA, durante o encontro.

Para Patricia Gomes, gestora da Origens Brasil e secretária executiva adjunta do Imaflora, “2020 foi um ano que impôs distâncias físicas em função de uma crise sanitária global – e que expôs povos indígenas e populações tradicionais a condições de vulnerabilidade ainda maiores. Fomos desafiados a buscar novas formas para continuarmos próximos e atuar pela conservação da Amazônia e pela valorização de seus povos”.

Para acompanhar o trabalho da rede Origens Brasil siga seus perfis no Instagram e no Facebook.

Extração de látex / Foto: Rafael Salazar 

Foto (destaque): Amanda Lellis (manejo de Pirarucu, Amazonas)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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