Em um ano, 8.712 km2 foram desmatados na Amazônia: este é o segundo pior registro desde 2016, segundo o Inpe

Em um ano, 8.712 km2 foram desmatados na Amazônia: este é o segundo pior registro desde 2016, segundo o Inpe

Ainda falta calcular os alertas do dia 31 de julho para que o Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais possa fechar o ciclo medido do primeiro dia de agosto de um ano até o último dia de julho do ano seguinte, pelo sistema Deter. Mas esse dado certamente mudará muito pouco a realidade do acumulado de alertas nesse período. Sendo assim, já dá pra afirmar que, em um ano, o desmatamento na Amazônia atingiu uma área de 8.712 km².

Isso significa que esta é a segunda pior temporada de devastação em cinco anos, que só perde para outro recorde registrado no governo Bolsonaro, no ano passado. Na verdade, os três recordes da série de registros sobre desmatamento na Amazônia foram batidos neste governo, e os alertas são 69,8% maiores que a média dos anos anteriores.

Esse número representa queda de 5,4% na área de alertas em relação a 2020, mas nem o vice-presidente, general Hamilton Mourão – que dirige o Conselho da Amazônia – conseguiu celebrar o recuo pífio. E declarou que não cumprirá a meta declarada semanas antes: ele havia prometido à imprensa que o desmatamento cairia 10%. Pior: no ano passado, declarou a embaixadores estrangeiros que a queda seria de 15%.

Na verdade, esse declínio apenas reflete a dinâmica do crime ambiental, como observou o Observatório do Clima, “enquanto o governo que enterrou plano de combate vende ação do Exército como cloroquina”.

Destruição garantida

Em um ano, 8.712 km2 foram desmatados na Amazônia: este é o segundo pior registro desde 2016, segundo o Inpe
Área recém desmatada e queimada em Porto Velho, Rondônia / Foto: Christian Braga, Greenpeace Brasil (julho 2021)

Temos um governo sem credibilidade, que, desde janeiro de 2019, se empenha em desmontar a governança ambiental e estimular o crime. Abandonou o plano de controle do desmatamento criado em 2004, aniquilou a estrutura dos órgãos de fiscalização – Ibama e ICMBio -, paralisou o Fundo Amazônia, travou a cobrança de multas ambientais e apoiou invasores, só para contar um pouco.

“O destino da floresta está nas mãos de quadrilhas de grileiros, madeireiros ilegais e garimpeiros“, destaca Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. “Hoje, são eles que determinam qual será o dado oficial de desmatamento. Na Amazônia, o crime ambiental atua livremente, e conta com a parceria do atual governo”.

E parece que tudo continuará dessa forma ou vai piorar. Em 23 de junho, Joaquim Leite, assumiu o Ministério do Meio Ambiente no lugar de Ricardo Sallesacusado de montar um escritório do crime no ministério para favorecer madeireiros – e, até agora, não tomou nenhuma medida contrária ás políticas de seu antecessor.

Em um ano, 8.712 km2 foram desmatados na Amazônia: este é o segundo pior registro desde 2016, segundo o Inpe
Queimada em área degradada no Parque Nacional Mapinguari, em Lábrea, Amazonas
Foto: Christian Braga, Greenpeace Brasil (julho 2021)

Além disso, com o deputado federal Arthur Liraque lidera o chamado ‘Centrão’ (bloco de deputados conservadores, desenvolvimentistas e corruptos) – na presidência da Câmara dos Deputados, a destruição está garantida. Em poucas semanas, ele aprovou dois projetos de lei criminosos: pelo fim do licenciamento ambiental (PL 3729) e que anistia a grilagem de terras (PL 2633), que é a principal causa do desmatamento na Amazônia.

“A expectativa de anistia com a aprovação do PL da Grilagem é um estímulo para os desmatadores e tende a tornar muito mais difícil o controle da destruição”, explica Astrini. “Os altos índices de desmatamento e o desmonte da legislação ambiental têm repercussão mundial e prejudicam imensamente a imagem do país. É neste cenário que o Brasil chegará, daqui a alguns meses, na conferência do clima da ONU”.

Aliás, a discussão do PL 2633, na Câmara, aconteceu no momento em que o presidente da COP26 (próxima conferência climática da ONU), Alok Sharma, se reunia com membros da sociedade civil em Brasília para tratar justamente do aumento da ambição das metas de corte de emissões de gases de efeito estufa do Brasil.

Fracasso anunciado e previsão sombria

Ações do Exército no combate ao desmatamento foram anunciadas por Mourão com euforia – também para governos estrangeiros preocupados com o impacto do desmatamento sobre a meta do Acordo de Paris -, mas só têm registrado fracassos.

A única coisa que a Operação Verde Brasil fez foi gastar dinheiro como nunca! O custo de dois meses dessa operação foi quase o dobro do orçamento anual do Ibama para ações de fiscalização.

A cerca de um mês, a Verde Brasil foi substituída por outra operação, batizada de Samaúma em homenagem à maior árvore da Amazônia, mas os satélites mostram que a nova ação também está falhando em sua missão.

No fim do ano, serão divulgados os dados oficiais de desmatamento do sistema Prodes, do Inpe. Mas os alertas do Deter já ajudam a projetar o tamanho da destruição. Para o Observatorio do Clima, pela terceira vez, o desmatamento anual deverá ficar próximo de 10 mil km2.

Greenpeace flagra avanço do fogo

Em um ano, 8.712 km2 foram desmatados na Amazônia: este é o segundo pior registro desde 2016, segundo o Inpe
Área desmatada e queimada já recebe gado em Porto Velho, Rondônia
Foto: Christian Braga, Greenpeace Brasil (julho 2021)

Entre os dias 29 e 31 de julho, o Greenpeace Brasil sobrevoou a Amazônia em missão de monitoramento e registrou o avanço do fogo em regiões de Porto Velho, em Rondônia, e no Parque Nacional Mapinguari, em Lábrea, Amazonas. Neste post estão algumas das imagens divulgadas pela organização.

Ao divulgar as imagens em seu site, destacou que as queimadas são ilegais porque acontecem após o Decreto nº 10.735, vigente desde 28 de junho, que proíbe o uso do fogo no Brasil. De acordo com dados do Inpe Queimadas, o mês de julho registrou 4.977 focos de calor na Amazônia.

Na mesma data, o governo federal também autorizou o uso das tropas militares para combater queimadas. “É a terceira vez que o governo Bolsonaro utiliza o dispositivo da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) no combate ao crime ambiental”, salientou a organização.

“É importante analisar os focos de calor considerando também o desmatamento ocorrido recentemente na Amazônia. Muitas áreas foram derrubadas e degradadas e devem ser queimadas ilegalmente nos próximos meses, quando a vegetação remanescente fica mais seca e suscetível ao fogo”, alerta Cristiane Mazzetti, da campanha Amazônia do Greenpeace.

E ela diz que o pior ainda está por vir, porque temos órgãos de fiscalização completamente enfraquecidos e os próximos meses serão os mais secos no bioma. E destaca a atuação do Legislativo nessa escalada de destruição. “Além disso, o Congresso Nacional tem como uma de suas prioridades aprovar alterações na lei que incentivam ainda mais destruição ambiental e invasão de terras públicas”.

As imagens e os dados do Inpe são a prova da ineficiência das ações do governo – com suas Forças Armadas e a GLO – e de que a Amazônia continua sob intensa ameaça da ilegalidade, que devasta grandes áreas de vegetação sem nenhum pudor ou receio.

Para saber mais, leia a reportagem do Greenpeace.

Com informações do Inpe, Observatório do Clima e Greenpeace Brasil

Foto (destaque): Christian Braga/Greenpeace Brasil (queimada sobre área desmatada sobre floresta pública não destinada, em Porto Velho/Rondônia)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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