Em sinagoga de SP, rabino entoa canto indígena eternizado por Bruno Pereira na floresta amazônica

Quando Bruno Pereira e Dom Phillips ainda estavam desaparecidos, um vídeo no qual o indigenista aparece entoando um canto Kanamari – etnia do Vale do Javari – viralizou nas redes sociais.

Singelo e comovente, é o registro de um momento especial de uma das expedições que Bruno realizou em 2019 com os indígenas da UNIVAJA (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari)

Era uma expedição longa e os integrantes da equipe estavam muito cansados, com saudades da família. Ele, então, resolveu cantar pra brincar e animá-los: a ideia virou diversão e rendeu o sorriso delicioso do amigo que os indígenas tanto amavam. 

A bela canção tradicional de cerimônias de Ayahuasca tornou-se um mantra, uma oração, um hino para todos, que aguardavam notícias mais precisas do desaparecimento – em qualquer credo, língua, lugar. 

Tocado pela música e pela história trágica dos dois, o músico André Abujamra remixou o canto eternizado por Bruno e o amigo Mauro Nascimento produziu um vídeo para acompanhar a obra, que mistura cenas singelas e dramáticas na floresta amazônica, como contei aqui

No último sábado, 18 de junho, foi a vez do rabino Uri Lam, da Congregação Israelita Templo Beth-El, em São Paulo, homenagear os dois amigos e espalhar ainda mais amor. 

Ele realizou uma cerimônia linda de shabat (que começa com o pôr do sol da sexta-feira e termina ao anoitecer do sábado) para “elevar a memória por Bruno e Dom”, que foi gravada e, também, se espalhou pelas redes. 

“A beleza disso é indescritível”, escreveu Beatriz Matos, esposa de Bruno, em seu Twitter. O monitor socioambiental Sinal de Fumaça descreveu assim: “Bonito de arrepiar”. Sim, muito tocante.

‘Kadish’ de Bruno

Na tradição judaica, há uma prece pelos entes queridos mortos chamada de Kadish, que homenageia os que se foram como uma espécie de santificação da vida. Não lamenta a morte, mas santifica o que a pessoa fez na Terra (a explicação é do professor de sociologia Michel Gherman).    

Assim, depois de sua tefilah (reza, prece, oração) – que não aparece no vídeo -, Uri Lam declarou que daria continuidade à celebração com um canto que uniria duas orações, uma delas, a “Kadish” de Bruno:

“A primeira parte é uma passagem do Livro de Deuteronômio (que contém as últimas palavras de Moisés aos filhos de Israel antes de entrarem na terra de Canaã, com Josué como líder), capítulo 20, versículo 19 (Deut 20:19), que diz: ‘não destrua suas árvores manejando o machado contra elas. Você pode comer delas, mas não derrubá-las, pois são as árvores do campo, humanas, para que consigam se retirar quando você sitiar a cidade?’. Isso é parte do nosso canto”. 

E continuou: “A outra parte a gente vai ter que entender com o coração o significado porque está numa língua indígena, que eu não conheço. Consigo cantar e com o coração”. 

Mas ele não só entoou o canto Kanamari na companhia de duas pessoas que estão sempre presentes nessas celebrações, como adicionou o trecho do texto judaico (que acabara de ler) entre suas estrofes. Emocionante demais!

Prepare o seu coração e assista ao vídeo da celebração judaica, reproduzido pelo Instituto Brasil-Israel em seu Twitter. A seguir, reveja Bruno cantando na floresta e a homenagem de André Abujamra: 

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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