Em carta aberta, veterinários recomendam que não se consuma pescado nas áreas afetadas pelas manchas de óleo

Em carta aberta, veterinários recomendam que não se consuma pescado nas áreas afetadas pelas manchas de óleo

No meio de tantas informações contraditórias, a população das áreas afetadas pela mancha de óleo, que contaminou mais de 400 praias do litoral nordestino, não sabe o que fazer: é seguro ou não consumir pescado e outros frutos do mar provenientes dessas localidades?

Recentemente, Jorge Seif Júnior, secretário de Aquicultura e Pesca, tentou tranquilizar a população sobre a ingestão desses alimentos e virou motivo de chacota nas redes sociais. Segundo ele, “Peixe é inteligente, quando vê mancha de óleo, foge” e garantiu que os brasileiros “podem consumir seu peixinho, lagosta ou camarão, sem problema nenhum”.

Todavia, no final de outubro, pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia encontraram óleo nos aparelhos digestivos e respiratórios de 100% dos peixes, moluscos e crustáceos. As amostras tinham sido coletadas em Praia do Forte, Itacimirim e Guarajuba.

“Pela cadeia alimentar, essas substâncias são transferidas para nós (seres humanos), o que é algo extremamente perigoso”, alertou, na época, Francisco Kelmo, professor responsável pela pesquisa e diretor do instituto, em entrevista ao jornal Estadão.

Na semana passada, novamente, especialistas fizeram um alerta publicamente. Em uma “Carta Aberta à População Brasileira”, um grupo de médicos veterinários que trabalham com a fauna marinha, recomendaram que “NÃO se consuma o pescado nas áreas afetadas pelas manchas de óleo (incluindo áreas próximas), até que novas análises laboratoriais atestem sua segurança no consumo”.

Para os profissionais, é essencial que as comunidades pesqueiras impactadas pelo desastre ambiental recebam todo o suporte e acompanhamento necessário. Os médicos veterinários ressaltam ainda que o Governo Federal deve rever seu discurso, “alinhando-o ao conhecimento científico”.

Em carta aberta, veterinários recomendam que não se consuma pescado nas áreas afetadas pelas manchas de óleo

Carta foi assinada por mais de 30 profissionais da área

Impacto da contaminação sobre o pescado

O Conexão Planeta entrevistou diversos biólogos ao longo das últimas semanas e todos foram unânimes em afirmar que a contaminação pelos compostos tóxicos encontrados no petróleo pode demorar muito tempo para se dissolver e por isso, é fundamental que pescados, crustáceos e similares sejam analisados agora e futuramente.

Abaixo seguem alguns trechos da carta publicada pelos médicos veterinários brasileiros:

É amplamente conhecido que os derramamentos de petróleo e seus derivados no ambiente marinho contaminam os organismos que compõem a base da cadeia alimentar. Organismos microscópicos (plâncton) são consumidos por outros maiores, que por sua vez são consumidos por peixes, que são consumidos por outros predadores (peixes maiores, aves, tartarugas e mamíferos marinhos).

O ser humano, como consumidor de topo da cadeia alimentar, consome recursos marinhos variados, podendo ter sua saúde prejudicada. O óleo que atinge a costa também se deposita na areia, rochas e manguezais, locais onde animais como mariscos, ostras, caranguejos e siris se alimentam e se reproduzem.

Quando esses animais filtram a água do mar, o óleo penetra no organismo, acumulando-se em seus tecidos. Pesquisadores da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Federal do Pernambuco demonstraram que já há presença de resíduos de óleo em plâncton e animais marinhos no litoral da Bahia e do Pernambuco…

Dado o potencial tóxico dos componentes do óleo, a ingestão do óleo ou de animais marinhos contaminados podem causar diversos efeitos agudos e crônicos no organismo. A intoxicação por resíduos do óleo pode causar úlceras gástricas, náuseas, vômito, enjoo, problemas respiratórios, arritmia cardíaca, dentre outros.

Além disso, é importante destacar que os componentes do óleo podem provocar efeitos de genotoxicidade (desenvolvimento de câncer), imunotoxicidade (dano ao sistema imune), desregulações no sistema endócrino (problemas hormonais e metabólicos) e efeitos neurotóxicos (danos ao sistema nervoso).

Algumas dessas alterações podem persistir no organismo por anos após a exposição. Portanto, a proteção da saúde humana deve ser um dos focos da resposta à emergência ambiental, sendo de extrema importância avaliar a saúde da população durante o incidente e nos anos seguintes.

Apesar destes riscos, o Ministério da Agricultura liberou a pesca de camarão e lagosta na região Nordeste, inclusive nas áreas afetadas. Em uma transmissão ao vivo no dia 31 de outubro de 2019, ao lado do Presidente da República, o secretário de Aquicultura e Pesca afirmou que não há impedimento à pesca e ao consumo de recursos pesqueiros na região Nordeste, afirmando que os peixes são “bichos inteligentes” e conseguem desviar das manchas de óleo.

É importante enfatizar que esta informação não procede, uma vez que está incorreta (é sim possível que os peixes se contaminem diretamente) e também não leva em conta o fato de que a principal via de contaminação dos peixes e outros tipos de pescado está relacionado à via indireta, pela cadeia alimentar. Assim, é indiscutível que os recursos alimentares provenientes do litoral nordestino correm grande risco de estarem contaminados (e possivelmente de outras regiões do país, à medida que a área impactada continua a aumentar), como já foi demonstrado na Bahia.

O volume elevado de óleo derramado no litoral do Nordeste brasileiro deveria ser mais que suficiente para que o consumo de pescado (incluindo peixes, camarões, lagostas, entre outros) fosse avaliado com cautela pelas entidades governamentais, pois liberar ou recomendar o consumo do pescado pela população é arriscar a saúde de milhões de pessoas.

Desastres ambientais anteriores envolvendo derramamento de petróleo (como por exemplo, o acidente do petroleiro Prestige, na Espanha, em 2002, e da plataforma Deepwater Horizon, no Golfo do México, em 2010), a comercialização de frutos do mar e pesca nas áreas afetadas foi prontamente proibida pelos governos responsáveis de forma preventiva para garantir a saúde da população.

A Organização Mundial da Saúde reconhece amplamente a atuação dos médicos veterinários nas equipes de Saúde Pública e Ambiental, enfatizando que os conhecimentos de biologia e epidemiologia das doenças que estes profissionais possuem são de vital importância para o planejamento, execução e avaliação de qualquer programa de prevenção, controle ou erradicação que venha a ser adotado.

Devido ao nosso compromisso com a saúde pública, e como médicos veterinários especializados no trabalho com a fauna marinha, recomendamos que o Governo Federal reveja seu discurso, alinhando-o ao conhecimento científico. Do contrário, esta atitude invalidará todos os esforços empreendidos pela Marinha do Brasil, IBAMA, ICMBio, MAPA e tantos outros órgãos e cidadãos envolvidos com o controle desses danos e com a recuperação da saúde dos brasileiros…

Atenciosamente,

Alessandra Rocha – Rio de Janeiro/RJ
Allan Poltronieri Santos – Vila Velha/ES
Ana Carolina Ewbank – São Paulo/SP
Andrea Soffiatti Grael – Niterói/RJ
Andrei Manoel Brum Febronio – Pontal do Paraná/PR
Bartolomeu André Paoli Vago – São Mateus/ES
Carlos Sacristán Yagüe – São Paulo/SP
Claudia Carvalho do Nascimento – Praia Grande/SP
Daniela Magalhães Drummond de Mello – Manaus/AM
Daphne Wrobel Goldberg – Rio de Janeiro/RJ Denyié
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Elias Oliveira- Balbina/AM
Elitieri Santos Neto – Rio de Janeiro/RJ
Fabio Henrique Amâncio – Aracaju/SE
Fábio Henrique de Lima – Pontal do Paraná/PR
Fabiola da Silva Santana – São Sebastião/SP
Franscinne Narita – São Paulo/SP
Hernani Gomes da Cunha Ramos – São Paulo/SP
Isabela Moreira Neto – Santos/SP
Joana Midori Penalva Ikeda – Rio de Janeiro/RJ
Juliana Yuri Saviolli – São Sebastião/SP
Larissa Pavanelli – Salvador/BA
Laura Reisfeld – São Paulo/SP
Leandro Egert – Vila Velha/ES
Letícia Koproski – Curitiba/PR
Lívia Eichenberg Surita – Porto Alegre/RS
Luis Felipe Silva Pereira Mayorga – Vila Velha/ES
Luisa Mutzenbecher – São Sebastião/SP
Melissa Marcon – Guarujá/SP
Pedro Luís Bruno Filho – Ubatuba/SP
Priscilla Carla dos Santos Costa – Cananeia/SP
Raissa Barbosa de Oliveira – Rio de Janeiro/RJ
Ralph Vanstreels – Vila Velha/ES
Raquel Beneton Ferioli – Ubatuba/SP
Renata Hurtado – Vila Velha/ES
Rodrigo Pinho Gomez Lopez – Maraú/BA
Samira Costa da Silva – Vitória/ES
Thaís Larissa Lourenço Castanheira – Salinas/MG

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De acordo com o levantamento mais recente divulgado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama), em 10/11, já são 466 localidades (praias) atingidas pelo petróleo, em nove estados do litoral nordestino, e também, agora, no Espírito Santo.

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Foto: domínio público/pixabay

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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