Em busca dos raros e ameaçados flamingos no Lago Bonome, no extremo norte do Brasil

Em busca dos raros e ameaçados flamingos no Lago Bonome, no extremo norte do Brasil

Na expedição pela Costa Brasileira, o Parque Nacional do Cabo Orange, na divisa com a Guiana Francesa, era um ponto de difícil acesso. Mas nada seria empecilho para conseguirmos ver de perto, seus mais ilustres habitantes, os flamingos.

Sem estrada, a maior dificuldade para chegar ao parque seria atravessar para o Amapá embarcados com a Toyoca, preparativos que iniciamos antes da partida, por Whatsapp, em conversas sem muitas respostas com o agente portuário em Belém.

Como sempre há desvios e surpresas nas expedições, deixamos para resolver essa travessia mais de perto e iniciamos a viagem, como planejado, no dia primeiro de setembro de 2019, sem saber ao certo como e quando atingiríamos o extremo norte do Brasil.

Em busca dos raros e ameaçados flamingos no Lago Bonome, no extremo norte do Brasil

Primeiros 160km da única estrada que liga o Oiapoque com o resto do Brasil

Durante o Cine.Ema, Festival de Cinema no Espírito Santo, conhecemos Buda, produtor cultural que nos abrigou em Olinda e nos deu o rumo da casa de seu amigo Douglas, em Belém. Estava feita a ponte que nos levaria ao Amapá.

Após muitas negociações, embarcamos com a Toyoca. Foram 28 horas navegando pela deslumbrante baía do Guajará, formada pelo encontro da foz dos rios Guamá e Acará. Na sede do ICMBio, em Macapá, nos esperavam Paulo Silvestro e Ricardo Pires.

Ricardo, chefe do Parque Nacional estava com problemas no motor da embarcação; assim, sem previsão para concluir o conserto, tivemos que abortar a ida ao Cabo Orange. No entanto, Paulo já havia programado uma Roda de Passarinho na cidade de Amapá, de onde embarcaríamos para a famosa Ilha das Onças.

Dormimos no estacionamento do ICMBio embalados pela expectativa da aventura traçada ali mesmo: conhecer a Estação Ecológica Maracá-Jipióca, chefiada por Iranildo Coutinho, também conhecida por Ilha das Onças por ser abrigo de um grande número desse felino.

José Luiz Barata, o Seu Zé, nos levou até a Ilha numa voadeira que faz o trajeto toda semana com mantimentos, diesel, água, pesquisadores e convidados. Durante uma hora e meia voamos – literalmente! – com nossas tralhas embaladas em sacos estanques cobertos por uma lona muito bem amarrada.

A habilidade do Seu Zé ao desviar ou pegar as ondas só nos preocupou quando nos contou que os solavancos já racharam a voadeira algumas vezes, “Mas tudo bem”, dizia, “Só vai molhar mais um pouco…”, e ria!

Aportamos molhados até o último osso, num trapiche reconstruído há alguns dias, após ter sido carregado por uma das marés altas que acontecem pelo menos uma vez por mês naqueles 2º de Latitude Norte.

A Ilha das Onças tem 40 km de extensão e é toda cercada por profundidades que atingem 5 metros de pura lama trazidas pelo rio Amazonas.

A amplitude das marés é inacreditável, chega a 10 metros, com direito a pororocas que não deixam dúvidas quanto ao nome do Igarapé “do Inferno”; – que separa a ilha em duas – acossada por erosões constantes, tanto pela variação, quanto pela correnteza.

“A força é tanta que arrasta navio, quebra âncora e cava barranco sem parar”, contou Seu Zé.

Macacos, papagaios, tucanos, gaviões, pica-paus, veados e onças passeiam tranquilos em volta da base do ICMBio porque ali ninguém incomoda a bicharada.

Bonome: o lago encantado

Após uma noite bem dormida carregamos a voadeira com água, gasolina, equipamentos e um motor extra para chegar ao lago onde poderíamos encontrar os tão aguardados flamingos.

Pegamos um canal errado na entrada do lago, encalhamos e tivemos que dar duro remando à ré e contra o vento, até girar a voadeira 180º graus e embicar na direção certa. Novamente, graças à habilidade do Seu Zé e muito esforço, conseguimos saltar da voadeira para uma canoa, encaixar o motor extra e, aí sim, alcançar a palafita onde estacionamos a embarcação.

Estávamos, finalmente, muito próximos dos flamingos.

Nosso abrigo durante a parada no Lago Bonome, utilizado por pescadores

Fim de tarde com banho de lata, armamos redes, mosquiteiros e ganhamos uma chuva… de estrelas. O paraíso! Dormimos embalados pela brisa suave e o burburinho dos tralhotos chupando lama embaixo da nossa incrível pousada, a menos de uma hora da Ilha das Onças.

Em busca dos raros e ameaçados flamingos no Lago Bonome, no extremo norte do Brasil

O tralhoto, espécie amazônica também chamada de “peixe-de-quatro-olhos”

O encontro tão esperado

Amanhecemos eufóricos para ver o bicho mais aguardado da expedição.

Com mais de um metro de comprimento e 90 cm de altura, o flamingo vive ao norte do continente americano e Antilhas até a Flórida e só se reproduz no Amapá. A espécie etá ameaçada de extinção pela expansão das lavoura de arroz, pelas salinas e pelo aumento da caça em locais onde há acesso por estradas. Todavia, no Lago Bonome está protegido.

Aguardamos a maré encher o suficiente para embarcar, duvidando que conseguiríamos desatolar a canoa. Habilmente o Seu Zé manejava uma vara e devagar o barquinho deslizava em dois dedos de água, depois quatro, cinco… O ambiente perfeito para a passarada se alimentar de moluscos, larvas e algas, ricos em carotenóides responsáveis pelo vermelho intenso de colhereiros e guarás. Estávamos cercados por um gigantesco piquenique alado!

Em busca dos raros e ameaçados flamingos no Lago Bonome, no extremo norte do Brasil

Na época em que Seu Zé morou com os pais naquelas bandas, eles nos disse que “Muitos lugares eram habitados, mas tudo muda o tempo todo por aqui. Onde era terra firme, agora é lâmina d’água; onde tinha plantação, virou pastagem e areia. Tinha até um cemitério e algumas casas, que acabaram virando pesqueiros. Onde nasci era terra firme e agora é só água.”

Lá longe, quase invisível, num extremo da lagoa, Seu Zé aponta.

“Tá lá, ó! Um bando de flamingos.”

Vontade de pular na água e sair correndo. Um absurdo, atolaríamos na lama até o pescoço. Assim, segurando a respiração, avançando a um por hora, motor desligado, fomos encostando meio de banda para não espantar os ariscos flamingos e… dá-lhe foto!

Enfim, o registro dos flamingos

O tempo parou de vez até Seu Zé dar o alerta. “Melhor a gente voltar se não a maré pega de jeito e a gente encalha de vez”.

Com vento a favor retornamos à base para mais alguns dias entre marés, guarás, tucanos e pica-paus.

Fotos: Renato Rizzaro

Gabriela Giovanka e Renato Rizzaro

Gabriela Giovanka é administradora de empresas, especializada em Naturologia Aplicada. Renato Rizzaro é designer gráfico e fotógrafo. Juntos criaram a Roda de Passarinho, e com suas viagens de norte a sul do país, buscam aproximar as pessoas da natureza, através de fotografias e do canto das aves, sementes, instrumentos musicais, relatos de vivências e exercícios que inspirem a vida comunitária.

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