Em busca da diversidade, Academia de Hollywood inclui 819 novos membros, de 68 países: entre eles, seis brasileiros

Para responder às críticas que vem colecionando há anos, devido à falta de representatividade – principalmente de mulheres e negros – entre os membros, os indicados e os vencedores do Oscar, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou, esta semana, a inclusão de novos membros.

São 819 profissionais de 68 nacionalidades que, agora, também compõem o júri da entidade. Entre eles, 49% não são americanos, 36% são oriundos de “comunidades étnicas, pouco representadas na Academia até agora” e 45% são mulheres.

Agora, o júri é composto por 10 mil jurados, sendo 33% mulheres, 19% homens e mulheres de outras etnias e 20% de fora dos Estados Unidos. Ainda precisa melhor muito, mas que bom que a Academia se movimentou em busca da mais diversidade. E tomara que isso se reflita nas próximas indicações e vencedores.

Entre os convidados para integrar a entidade, estão seis brasileiros: o animador Otto Guerra (Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll), os produtores Mariana Oliva e Tiago Pavan (Democracia em Vertigem, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano), a montadora Cristina Amaral (de óculos, na foto acima, que soma mais de 60 montagens em seu currículo, entre elas, Um Filme de Verão e Person) e os documentaristas Julia Bacha (que trabalha nos Estados Unidos; diretora de Naila and the Uprising e Budrus; ) e Vincent Carelli (antropólogo e indigenista, diretor de Corumbiara e Martírio e criador do projeto Vídeo nas Aldeias).

Neste ano, em que a luta pela proteção dos povos indígenas brasileiros tem se fortalecido, principalmente devido às invasões de garimpeiros e ao consequente avanço da Covid-19 em suas terras, a presença de Carelli pode ter um significado especial.

Os seis agora se juntam a outros brasileiros que também integram a Academia, como Petra Costa (membro desde 2018; diretora de O Olmo, Democracia em Vertigem), Fernanda Montenegro, Sônia Braga, Alice Braga (atrizes), Rodrigo Santoro (ator), Cacá Diegues, Kleber Mendonça Filho (Bacurau), Carlinhos Brown (músico), Walter Carvalho (Central do Brasil), Maria Augusta Ramos (Juízo, O Processo), Felipe Lacerda (Central do Brasil), Heloísa Passos (Lixo extraordinário), Maurício Osaki (curta-metragem), Vânia Catani (produtora), Karim Aïnouz (Madame Satã) e Walter Salles.

Do filme sul-coreano Parasita, grande vencedor de 2020, toda a equipe agora integra a Academia, além da atriz chinesa Awkwafina e a atriz nigeriana Cynthia Erivo (abaixo).

Entre boicotes e discursos emocionados: assim caminha o Oscar

Desde 2016, pelo menos, a Academia de Hollywood tem sido alvo de críticas devido à falta de representatividade. A campanha Oscar So White (divulgada nas redes sociais com as hashtags #OscarSoWhite e #OscarStillSoWhite, indicando Oscar Muito Branco e Oscar Ainda Muito Branco, respectivamente) sinalizou a continuidade de uma nova seleção de brancos para disputar a estatueta dourada: foi assim em 2015 também.

Spike Lee boicotou a cerimônia desse ano e a presidente da Academia, Cheryl Boone – na posição desde 2013 – confessou que se sentia envergonhada com o fato e que, apesar do empenho em transformar esse cenário, “a mudança não chega tão rápido quanto desejamos”. E acrescentou: “Devemos fazer mais, melhor e mais rápido”.

Em 2017, o prêmio foi marcado pela denúncia contra o produtor Harvey Weinstein, que teria estuprado ou assediado sexualmente mais de 50 mulheres – depois disso, ainda surgiram acusações contra outros diretores e atores – e pela formação do movimento #MeToo.

A partir daí, mulheres do mundo todo se sentiram encorajadas a quebrar o silêncio também e contar como foram assediadas. No ano seguinte, Frances McDormand (abaixo), que ganhou o prêmio de Melhor Atriz, destacou, em seu discurso, a expressão “cláusula de inclusão”, que integra um movimento que pede que artistas estabeleçam, em contrato, que suas produções tenham diversidade de gênero e de raça.

Esse foi o ano em que o filme Uma Mulher Fantástica, de Sebastian Lelio, sobre a história de uma mulher transgênero, ganhou o Oscar, e suas atriz que interpretou o papel, Daniela Vega, tornou-se a primeira transsexual a apresentar a cerimônia.

Em 2020, foi a vez de Joaquim Phoenix Melhor Ator por Coringa, com o qual já havia conquistado o Bafta e o Globo de Ouro – roubar a cena com um discurso engajado e inesquecível, dando “voz para aqueles que não a têm”. Ele criticou a exploração dos recursos naturais do planeta e falou de desigualdade de gênero, de racismo, dos direitos queer, dos povos indígenas e dos direitos dos animais.

Mais uma vez, a academia deixou diretoras talentosíssimas de fora e esqueceu da representatividade dos negros, compensada pela vitória da animação Hair Love, que mostra uma menina que queria domar seu cabelo afro devido a uma ocasião especial, que só conhecemos no final do filme. A brasileira Petra Costa concorreu ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro com Democracia em Vertigem, não ganhou o prêmio, mas expôs a causa indígena no tapete vermelho por meio de cartazes e da presença da liderança Sonia Guajajara.

Fotos: Divulgação e IMDB

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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