
Foto: Luciano Candisani
“As fotografias impressas nas páginas deste livro nasceram em uma jornada criativa de 25 dias, no inverno de 2025, ao longo da parte da costa Norte do Brasil marcada pelo encontro das águas da bacia hidrográfica do Amazonas com o Oceano Atlântico”, conta o fotógrafo Luciano Candisani sobre seu último trabalho, apresentado no livro Amazônia Atlântica, que acaba de ser lançado por Andrea Jakobsson Estúdio Editorial.

Parece uma árvore, mas é o encontro da vegetação, com o mangue, a areia e o mar
“Uma região de limites tão fluidos quanto dinâmicos, onde o mais caudaloso rio do mundo avança para muito além de suas margens, tempera as propriedades físico-químicas do mar e sustenta ecossistemas e comunidades humanas peculiares”, completa ele sobre esta região da costa brasileira, tão pouco documentada e, agora, em risco devido à possível exploração de petróleo (no momento, com licença do Ibama, a Petrobras perfura poço na Bacia da Foz do Amazonas para avaliar o potencial de petróleo e gás na região).
O objetivo de Candisani, com a nova obra, não era cobrir toda essa área, de forma didática, mas registrar símbolos que pudessem contribuir para a formação de sua identidade visual.
Na verdade, quando ele recebeu o convite para produzir uma interpretação visual sobre essa região, há muito tempo ele já se sentia provocado por ela devido à sua curiosidade comocontador de histórias da natureza “Habitava meu imaginário sob um nome que me pareceu adequado para descrevê-la: Amazônia Atlântica”, destaca .
Percurso
Candisani iniciou a viagem na remota Ilha de Maracá, que integra o município homônino Amapá, e apresenta marés gigantes de até 7 metros de amplitude.
Em seguida, cruzou de barco o colossal estuário do Amazonas, de Macapá a Belém, pela porção sul da
Ilha do Marajó, seguindo para leste, por terra, para encontrarcomunidades costeiras que, esparsamente distribuídas, vivem na maior faixa contínua de manguezais do mundo.

Fotos: Luciano Candisani (acima e abaixo)




Foto: Luciano Candisani
Em seguida, cruzou de barco o colossal estuário do Amazonas, de Macapá a Belém, pela porção sul da Ilha do Marajó, seguindo para leste, por terra, para encontrar comunidades costeiras que, esparsamente distribuídas, vivem na maior faixa contínua de manguezais do mundo.
Ali, o fotógrafo explorou rios, praias e mangues a bordo de “embarcações tradicionais conduzidas pela sabedoria ancestral de homens e mulheres ainda conectados com elementos da natureza”. Na última etapa da viagem, voltou a Marajó para desbravar o norte da maior ilha costeira do Brasil.

está sendo substituída por motores baratos tipo rabeta em todo o litoral brasileiro
Fotos: Luciano Candisani (acima e abaixo)


Foto: Luciano Candisani
As belíssimas imagens que Candisani trouxe na bagagem são um precioso ensaio fotográfico de “uma costa em muito ainda original e protegida em unidades de conservação livres da ocupação desordenada que descaracterizou boa parte dos mais de oito mil quilômetros do litoral brasileiro”.
E ele finaliza: “A Amazônia Atlântica não está livre de ameaças ao equilíbrio da vida, mas ainda abriga a
esperança da consolidação de um modelo de desenvolvimento baseado em saúde ambiental e bem-estar humano”.

Foto: Luciano Candisani

“Autor singular”
Em Amazônia Atlântica, o talento de Candisani é complementado por textos de Alexander Turra, titular da referida cátedra, de Eder Chiodetto, crítico de fotografia, e de Valdenira Ferreira dos Santos, geofísica. Destaco, aqui, um trecho da reflexão de Chiodetto a cerca da produção do fotógrafo, realizada nas últimas três décadas:
“Estudioso dedicado a áreas como a oceanografia e a biologia” [ele se formou em Oceanografia Biológica], “seus ensaios fotográficos sobre as questões que tangenciam ecossistemas, que ele investiga mundo afora, aliam técnica refinada com uma ética calcada em dados científicos obtidos por meio de parcerias com pesquisadores de diversas instituições.
Esse fato faz de Candisani um autor singular entre seus pares, pois suas imagens podem figurar ao mesmo tempo em exposições de fotografia documental e artística em museus e galerias, servir de documento probatório em relatórios científicos e ilustrar livros didáticos, além de constar em importantes coleções de arte e ciência particulares e públicas.
Olhando em retrospectiva sua coerente produção, que tem o marco inicial numa expedição científica à Antártica em 1996 — onde permaneceu por seis meses fotografando a vida marinha sob o gelo —, sua obra revela claramente a postura de um abnegado ativista ambiental, ligado principalmente aos ecossistemas de ambiente aquático”.
Nesta obra, Candisani e os demais colaboradores “nos orientam nos meandros da Amazônia Atlântica, colocando a questão: é possível pensar um futuro em que a floresta esteja em pé e o oceano saudável e produtivo, ampliando o potencial da biodiversidade para prover benefícios para as pessoas? Um futuro em que os rios e o mar sejam utilizados de forma racional e se transformem em aliados para gerar e compartilhar prosperidade?”, dizem os editores. E sentenciam: “A resposta é sim”.
Cultura oceânica
Amazônia Atlântica é o nono volume da Coleção Década do Oceano, idealizada e produzida em parceria com a Cátedra Unesco do Instituto Oceanográfico da USP.
O objetivo desta coleção é ampliar a visão dos cidadãos em relação à riqueza dos oceanos, contribuindo com a “promoção de um oceano inspirador e envolvente”, conforme preconizado pela Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, que vai até 2030.
Os editores também visam ajudar a promover a Cultura Oceânica “para a qual os diferentes tons do oceano devem convergir em uma mensagem uníssona em prol de sua sustentabilidade”.
A trajetória do artista
A obra de Luciano Candisani é considerada como uma das mais importantes da fotografia brasileira contemporânea. Seus trabalhos tratam sobre natureza, conservação de ecossistemas e espécies ao redor do mundo: trabalhou em 40 países e nas regiões geladas do Ártico e Antártica. Suas fotografias aparecem em livros autorais, revistas como National Geographic e, também, em mostras de galerias de arte.
O trabalho de documentação da cultura das Haenyeo, realizado por ele na ilha de Jeju, na Coréia do Sul, foi tema do longa metragem Haenyeo, a força do mar, exibido pelo National Geographic Chanel, em 2018, e ainda se desdobrou na exposição individual Haenyeo, mulheres do mar (fotos abaixo), que ocupou o segundo andar do MIS -Museu da Imagem do Som, em São Paulo, em setembro de 2019.


Autor de nove livros fotográficos, faz parte do no coletivo The Photo Society, grupo exclusivo de fotógrafos com reportagens completas publicadas na edição principal de National Geographic, como por exemplo, The comeback Croc.
Também integra a International League of Conservation Photographers (ILCP, da sigla em inglês), que tem como missão promover a proteção de ambientes e populações ameaçadas por meio da fotografia e do cinema. Em 2019 ingressou no coletivo Sea Legacy para a conservação marinha.
Por duas vezes, integrou o corpo de jurados do World Press Photo, em Amsterdã, na Holanda. E, em 2013, compôs a banca do Wildlife Photographer of The Year, do Museu de História Natural de Londres.
Terra d’água Pantanal (foto da capa, abaixo) é um dos projetos mais festejados de sua carreira. Nele, o autor desvenda, pela primeira vez, um ambiente desconhecido: o universo subaquático das águas formadoras da maior planície úmida da Terra. O trabalho é fruto de dez anos de expedições em paragens remotas do bioma Pantanal e suas nascentes, nos planaltos ao redor. “De longe ou de perto, as fotografias desse ensaio jamais prescindem do fio condutor líquido: a água está presente em todas as imagens, assim como em tudo o que tem vida”.

e eu éramos os únicos seres humanos imersos num aguaceiro a perder de vista. Traz uma sensação
muito boa estar diante desses grandes espaços naturais intocados, a cumprir seu papel natural
de manutenção dos ciclos da vida” / Corixão, Pantanal dos Paiaguás, Mato Grosso do Sul
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