Educação em tempos de coronavírus

Um dos maiores impactos da pandemia do coronavírus, que causa a COVID-19, é a disrupção dos sistemas formais de ensino em muitos países. A grande maioria das escolas e universidades públicas e privadas, aparenta estar despreparada para converter os sistemas de ensino presenciais para virtuais.

O que se tem visto, no geral, é uma certa improvisação para garantir que os alunos tenham acesso ao currículo esperado para o ano com o menor prejuízo possível. Neste contexto, as famílias são duplamente desafiadas.

Primeiro, para ter os recursos necessários (computador, internet, espaço adequado em casa etc.) para que seus filhos consigam acompanhar as aulas virtuais. Segundo, e principalmente, mães, pais ou responsáveis se viram repentinamente na condição de acompanhantes ativos ou tutores do ensino virtual de seus filhos. Isto aumenta consideravelmente a pressão sobre as famílias, especialmente as mães.

Sobre elas acaba caindo muito da responsabilidade por acompanhar o estudo dos filhos. Sem mencionar, claro, o fato de que as mulheres lideram crescentemente os lares no Brasil, chegando a 45% deles, em 2018

Não sou especialista em educação, e posso falar apenas a partir da minha experiência como pai. Tenho dois filhos afetados de forma diferente pela disrupção do ano letivo devido ao coronavírus. Meu filho mais velho estava começando a curtir a experiência de entrar no mundo universitário, como calouro da USP. Já o meu mais novo iniciou este ano o sexto ano do Ensino Fundamental em uma escola privada de Florianópolis. 

Nenhum dos dois ambientes escolares, da universidade e do colégio, estavam preparados para se converter em ambientes de ensino virtual e a reação a este imperativo tem sido, também, bastante distinta.

A USP parece não ter encontrado, ainda, uma fórmula clara que garanta aos alunos acompanharem e concluírem o primeiro período de forma satisfatória. Pelo que ouço, não existe unanimidade interna sobre como implantar algum tipo de EAD (Ensino À Distância) ou quando e como as aulas presenciais serão retomadas. Alia-se a isto o fato de que muitos alunos não têm acesso a computadores ou internet que lhes permita acompanhar as aulas à distância

O resultado é que alunos, como o meu filho, estão se sentindo perdidos e com a percepção de que este ano de ensino dificilmente será recuperado de forma plena. Inevitavelmente, a USP e outras universidades terão de encontrar formas de conciliar estudos presenciais com virtuais para seus processo acadêmicos, na medida em que o coronavírus parece que estará circulando entre nós ainda por muito tempo. Ao mesmo tempo, pensamos em que tipo de educação complementar ele poderia estar tendo, para aproveitar o tempo livre forçado gerado pela quarentena

O filho mais novo se deparou com uma abordagem diferente por parte do seu colégio, que muito rapidamente se organizou para prover algum tipo de ensino à distância. Desde o início, houve muita transparência no trato das dificuldades inerentes à implantação de uma nova forma de ensino literalmente de uma hora para outra. Mas, ao mesmo tempo, não houve perda de tempo em buscar uma solução, ainda que provisória, para o desafio de prover o currículo do ano, ainda que parcialmente. Acredito, também, que no âmbito do ensino fundamental nada será como antes e que será necessário que escolas e colégios implementes processos mistos de ensino virtual e presencial

Sem dúvida é uma situação de privilégio estar matriculado em uma escola privada, o que significa que muito provavelmente as famílias, neste contexto, têm melhores condições de se adaptar ao ensino virtual, em termos de equipamentos e acesso à internet. Mas até o ano passado ele estudava em escola pública e seguimos acompanhando como a situação se complica muito para as famílias que têm seus usuárias do sistema de educação pública e que não têm condições de prover condições mínimas para que acompanhem aulas virtuais. 

Acredito que veremos um acirramento ainda maior da desigualdade no Brasil, catapultada pela dificuldade de escolas públicas se adaptarem a este novo contexto de educação virtual associado à educação presencial.

Grande desafio para as famílias

Com a mudança repentina e necessária na forma de prestar serviços educativos, as famílias tiveram de se articular e se aproximar, mais do que nunca, umas das outras para trocar experiência e se apoiar mutuamente. Fomos lançados de uma situação em que, em geral, meramente acompanhávamos a evolução escolar de nossos filhos para, agora, literalmente termos de nos sentar ao lado deles de forma a acompanhá-los e apoiá-los, diariamente, na apreensão do conteúdo online. Isto traz um desafio adicional à evolução do ensino para incorporar elementos digitais/virtuais.

Tenho acompanhado a rotina de aulas virtuais do meu filho mais novo e sinto na pele a dificuldade que é prestar um acompanhamento que seja significativo para ele.  Minha experiência é que o mesmo acontece na maioria das famílias, despreparadas e pouco equipadas para esta nova carga de responsabilidade. Muitos de nós, mães e pais, estamos já há muito tempo distante dos bancos escolares e, portanto, temos muita dificuldade de acompanhar a aplicação do currículo, às vezes quase em tempo real via aulas virtuais. 

Mais do que isso, não temos a preparação pedagógica adequada, que um professor tem, para sermos quase tutores de nossos filhos. Estamos nos desdobrando para cumprir esta nova função, ao mesmo tempo em que lidamos como nossas difíceis dinâmicas familiares, pontuadas por desemprego e/ou diminuição forçada de ingressos e os outros impactos inevitáveis da pandemia.

Isso me leva a pensar que será necessário também desenvolver e implementar um sistema de apoio específico e continuado para as famílias, a fim de prepará-las para serem cada vez mais participantes ativos do processo educacional, a partir da combinação dos elementos presencial e virtual. As escolas precisam incluir esta realidade em seu planejamento pedagógico e encararem, mais do que nunca, mães e pais, como braços ativos do processo educativo, em complemento ao trabalho feito pro professores. 

Acredito, mais do que tudo, que veremos uma ressignificação e valorização do espaço educativo presencial e uma revalorização do papel do professor, para quem o desafio fundamental será o de agregar habilidades digitais às suas capacidades, quando a própria formação é ainda muito deficiente, especialmente no ensino público. 

Sem dúvida, a interação física entre os alunos no ambiente escolar é um elemento fundamental do processo educativo. E isto ficou ainda mais evidente com o afastamento físico forçado pela pandemia.  Por outro lado, o componente tecnológico que permite a interação virtual sai também fortalecido e mostra que é possível existir interação efetiva mesmo que à distância. Este é um debate fundamental, que já vem sendo realizado por profissionais e pesquisadores da educação.  

As crianças e os jovens nascem e crescem em um ambiente conectado e para eles a diferença entre interagir presencialmente ou virtualmente será cada vez menor. A educação no mundo pós-COVID-19, portanto, verá a derrubada dos muros que separam o físico do virtual de formas que mal podemos conceber neste momento.

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil. Atualmente, é Assessor Sênior do Social Good Brasil e VP de Engajamento da Together, agência focada em processos de mobilização para causas de impacto

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