Edna e a flecha sagrada

Um cerrado pleno, forte, cresce margeando o rio Buriti, no norte do Mato Grosso. Não é apenas um rio. É uma correnteza límpida que corta o lado mais verde do Brasil.

Rumo à maior floresta tropical do mundo, o Buriti se une aos rios Papagaio, Sacre, Verde e a tantos outros para formar o Juruena, que segue caudaloso para encontrar o Teles Pires em direção ao rio Tapajós, banhando a Amazônia.

Ali, onde o Buriti desaba na cachoeira Utiariti, está a Terra Indígena Tirecatinga, demarcada pelo governo federal em 1983. Lar dos Nambiquara, Paresi, Rikbatksá, Terena e Manoki.

São quase 200 pessoas. Gente unida com a terra, que conhece as espécies nativas. Tem os animais ao redor e a religiosidade interiorizada, graças a Edna Zoloizokemaero.

Foi ela quem recebeu do deus Enore a incumbência de proteger a flecha sagrada. “Através dela, Enore fala com a gente, para uma reza, um benzimento, uma cura, por exemplo. Ela é bem respeitada”, conta Edna.

A flecha é tão importante que uma casa inteira foi construída só para protegê-la. E não uma casa qualquer. Um Hati, eternamente fresco, mesmo nesse rincão quente do Brasil.

Coberto com a palha do buriti, erguida à mão durante dois meses pelos povos de Tirecatinga. Suas portas estão sempre abertas para quem chega.

Se a pajé precisa sair da aldeia, para uma festa tradicional, um ritual em outra terra indígena, a flecha vai com ela. “É por ela que vem uma proteção para a gente”, resume.

Semana após semana, desde que recebeu o chamado para ser pajé, em retribuição, dona Edna prepara a oferenda: a receita ancestral da chicha, bebida fermentada de banana, fielmente depositada nas cabaças que adornam a flecha.

As tradições perpetuadas por ela ajudam a manter viva a cultura dos povos tradicionais. Atam a ligação de cada indígena com o sagrado: a terra, as matas e o rio Buriti (na foto abaixo).

“A nossa vida é essa água, a natureza, o solo que é coberto de árvores verdes. Você planta e ele dá bonito. Quando está verdinho você fica alegre. A natureza é sagrada para nós”.

Fotos: Adriano Gambarini

Laís Duarte e Adriano Gambarini

Laís Duarte é jornalista especializada em meio ambiente, repórter da TV Cultura, mineira, leitora voraz, curiosa e viajante. É autora de vários livros sobre o tema, muitos deles ao lado de Adriano Gambarini, geólogo de formação, espeleólogo, fotógrafo, documentarista. Um contador de histórias por imagens, e palavras; ganhador do Prêmio Comunique-se

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