Economia solidária reduz vulnerabilidades na pandemia

Em conjunto com a cooperativa AMATER, que trabalha com assessoria técnica, e com a Editora Coopacesso, a Unisol Brasil – Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários do Brasil reuniu, em uma publicação, casos de cooperativas e empreendimentos solidários de diversas regiões do país, destacando os caminhos encontrados para o enfrentamento da pandemia ao longo de 2020.

O ebook Respostas das cooperativas e da economia solidária frente à crise social, econômica e sanitária da Covid-19 no Brasil dá visibilidade a experiências que reafirmaram o compromisso de intercooperação e de interesse pela comunidade.

O isolamento social trazido pela covid-19 influenciou de modo absoluto a produção de grupos de saúde mental e economia solidária, bem como de agricultores e agricultoras familiares e cooperativas.

Além da impossibilidade do encontro em oficinas de equipamentos de saúde mental, também foram suspensos feiras e eventos onde os produtos da economia solidária são historicamente comercializados, o que levou os grupos produtivos e parceiros a desenharem outros modos de garantir o escoamento da produção, renda para as pessoas e sanidade.

Os casos retratados pela Unisol incluem cooperativas, grupos e arranjos nas áreas de agricultura, alimentação e produção artesanal, inspirando novas práticas sociais e econômicas.

Alimento solidário

A ação em redes possibilitou, ao longo de 2020, gerar renda para a agricultura familiar solidária e alimentar pessoas em situação de vulnerabilidade.

É o caso, por exemplo, da ANC – Associação de Agricultura Natural de Campinas e Região. Um arranjo envolvendo a cooperação entre produtores e organizações produtivas, comunidades e 13 organizações na periferia de cidades de São Paulo possibilitou levar comida saudável para quem mais precisava naquele momento.

Foram entregues 4 mil cestas, adquiridas de 56 cooperativas da agricultura familiar, de assentamentos de reforma agrária, associados da ANC e da Rede Unisol, totalizando mais de 90 toneladas de alimentos distribuídos.

A iniciativa foi possível graças a uma parceria entre a Fundação Banco do Brasil, a BB Seguros, o Banco BV e a Cooperforte (cooperativa de crédito).

Nessa linha também atuou a Cooperana – Cooperativa da Agricultura Camponesa da Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais.

Várias ações foram desenvolvidas ao longo de 2020, desde campanhas para o avanço da produção agroecológica, comercialização de cestas e doação de alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade nas cidades. Só no primeiro semestre do ano passado, foram doadas pelos associados da Cooperana mais de cinco toneladas de alimentos.

Ações concretas para reduzir vulnerabilidades

A Recoopsol – Rede de Cooperação Solidária de Mato Grosso realizou ações de comercialização em rede, viabilizou a produção de máscaras por empreendimentos solidários destinadas a populações indígenas e ações de comunicação para divulgar a realidades dos empreendimentos econômicos solidários e do papel dos Fóruns de Economia Solidária.

Composta por uma equipe multidisciplinar de professores, pesquisadores associados e acadêmicos da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), a Recoopsol apoia 71 empreendimentos solidários em parcerias com academia, ONGs e secretarias municipais e estaduais, em estratégia coletiva de cooperação.

A Rede atua em três regiões do estado do Mato Grosso, e como exemplo de solidariedade ativa e intercooperação destacam-se os empreendimentos de costureiras e artesãs Flores do Cerrado e Tecer Vidas, que em parceira com a Opan – Operação Amazônia Nativa confeccionaram cinco mil máscaras destinadas a comunidades indígenas.

Na área de produção agrícola familiar orgânica, agricultores tiveram a comercialização de produtos na Ecofeira interrompida por causa da pandemia, o que motivou a construção de estratégias que resultaram em soluções como o aplicativo Recoopsol e a criação de uma CSA – Comunidade que Sustenta a Agricultura – modalidade em que o consumidor se compromete com compras mensais gerando mais estabilidade para o produtor.

O Projeto Tear, equipamento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) localizado em Guarulhos e que funciona por meio de oficinas, promoveu novas formas de acolhimento aos participantes e reconversão produtiva. Tele atendimento, captação de cestas básicas para os casos de maior vulnerabilidade e novas formas produtivas.

A principal atividade foi a produção de máscaras de proteção, organizada de modo cooperado na criação, produção, divulgação e logística para entrega. Os desafios foram grandes, desde garantir condições de segurança, manuseio, até atendimento de grandes encomendas em prazo curto e manutenção das bolsas oficinas dos participantes.

Dois outros equipamentos de saúde mental, a GerAção POA, em Porto Alegre, e a Retrate – Reabilitação, Trabalho e Arte, em Pelotas, fizeram movimento semelhante.

A GerAção POA realizou encontros online com o Conselho Fiscal para garantir a continuidade da comercialização dos produtos confeccionados e a geração de renda. Os oficineiros continuaram a se reunir usando um aplicativo e cuidando da segurança sanitária.

A Retrate trabalhou com vídeos e confecção de máscaras com produção a partir das residências.

Novas formas de produzir e de fazer a economia girar

Ao longo de 2020, trouxe aqui no Conexão Planeta várias experiências na busca por novos modos de produzir, gerar renda e solidariedade durante a pandemia. Essa publicação da Unisol demonstra possibilidades palpáveis e executáveis nesse sentido. Com atuação em rede, em cooperação, em solidariedade.

Essa nova economia que insiste em girar tendo as pessoas em seu centro mostra-se cada vez mais necessária e resiliente.

Compartilharei, ao longo de 2021, mais experiências que nos revelam um outro mundo. Possível, desejável, solidário, onde o estar e o fazer geram impactos positivos para muita gente. E para cada um de nós.

Edição: Mônica Nunes

Foto: Anton NZHRSEI/Unsplash

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

Deixe uma resposta