Economia Solidária e Saúde Mental: uma relação que transforma

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Desde que comecei a escrever este blog – em abril deste ano -, tenho buscado mostrar diferentes formas e arranjos que compõem a economia solidária. Dentro desse espectro, que é bastante amplo, muitas relações são possíveis e necessárias.

Hoje trago, aqui, uma ligação bem peculiar e fraterna entre a economia solidária e a luta antimanicomial.

Esse link é forte, e tive meu primeiro contato prático com ele por meio de uma das Feiras de Saúde Mental e Economia Solidária realizadas no Parque Mário Covas, em plena Avenida Paulista. Ali, uma vez por mês, dezenas de empreendimentos solidários da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária expõem e comercializam seus produtos, que incluem itens de alimentação, bolsas, camisetas, brinquedos, artesanato, papelaria e bijuterias.

Na última sexta feira, 12 de agosto, acompanhei o lançamento da nova marca dessa Rede, elaborada por meio de uma parceria entre a Design Possível e a CEB + D e apresentada durante a feira do mês de agosto ali na Paulista. O processo de criação foi totalmente participativo, e para entender o que significa isso é preciso compreender o contexto em que se dá a criação dessa Rede e suas ramificações, as chamadas Redinhas.

O Brasil conquistou uma mudança de paradigma em relação à assistência em saúde mental nas últimas décadas, devido à atuação pela reforma psiquiátrica e à luta antimanicomial. Passamos progressivamente de um modelo manicomial, baseado na exclusão social, para um modelo de tratamento aberto territorial-comunitário.

A lei 10.216/2001 instituiu a substituição do atendimento em hospitais psiquiátricos por serviços abertos e de base comunitária. A instituição da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de drogas no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS (portaria 3.033/2011), foi um passo adiante no novo modelo. Entre os componentes da RAPS estão estratégias de reabilitação psicossocial: iniciativas de geração de trabalho e renda por meio de empreendimentos solidários e cooperativas sociais.

Esse novo modelo traz consigo o resgate das pessoas enquanto cidadãos e a promoção da inclusão. E o campo do trabalho é um dos eixos fundamentais desse processo, resgatando a cidadania e ampliando o poder das trocas sociais. Algumas formas de geração de trabalho e renda vem sendo experimentadas nesse processo, como oficinas de artesanato e projetos de prestação de serviços. Essas alternativas são implantadas, em sua maioria, dentro de serviços públicos de saúde mental, como Centros de Atenção Psicossociais (Caps) e Centros de Convivência (Ceccos).

A escolha pela economia solidária como forma de trabalho foi um processo natural em toda essa construção. O modelo cooperativista, fundamento dos projetos de economia solidária, propõe uma organização de trabalho que busca incluir e acolher diferenças, permitido uma produção a partir da solidariedade e cooperação, princípios pouco valorizados no modo de produção capitalista.

Inclusão

A Rede surgiu na primeira década deste século, composta por serviços de saúde mental, profissionais de saúde, trabalhadores dos serviços de saúde mental e empreendimentos de economia solidária. A aproximação de projetos e empreendimentos de saúde mental com o Fórum Paulista de Economia Solidária foi fundamental para essa ligação.

Hoje, ela é formada por 160 empreendimentos, envolve mais de mil pessoas. E constitui-se por 12 “Redinhas”, com o objetivo de potencializar ações em diferentes territórios, localizadas nas cidades de São Paulo, Guarulhos, São Bernardo do Campo, Mauá, Santo André, Diadema, Barueri, Osasco, Embu, Itapevi, Ferraz de Vasconcelos, Mogi das Cruzes, Campinas, Piracicaba, Rio Claro e Botucatu. São realizadas reuniões mensais, das quais participam empreendimentos econômicos solidários.

“A Rede entende o trabalho como um dos instrumentos organizadores da vida, buscando inserir de fato as pessoas, resignificar suas vidas, dar caminhos para que elas se reestruturarem, muito mais do que apenas gerar renda. Nasce nesse contexto, inspirada pelo modelo italiano”, define Isadora Candian, diretora da Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários (Unisol Brasil).

Isadora se refere à chamada Lei Basaglia, de 1978, que estabeleceu a abolição dos hospitais psiquiátricos (manicômios) na Itália e está vigente até o presente momento. O cuidado, a participação e a solidariedade passaram a compor o campo das ações nas políticas públicas italianas de saúde mental. Uma série de serviços e de práticas foi criada para dar conta desse novo olhar: centros de saúde mental, cooperativas de trabalho, residência, ações culturais, enfim, um conjunto de ações que atendem as necessidades dessas pessoas em sua vida cotidiana.

Feiras

Entre os objetivos da Rede estão a captação de recursos para comercialização e divulgação; suporte para a profissionalização dos projetos; fortalecimento dos projetos por meio de rede de apoio; contribuir para ampliar o conhecimento sobre a saúde mental na sociedade; e pressionar o poder público para a criação de políticas públicas de financiamento para as iniciativas de geração de trabalho e renda.

A realização de feiras de economia solidária, onde a produção desses empreendimentos pode ser comercializada, tem como objetivo não só promover a geração de renda, mas garantir a inclusão social. “As feiras acontecem desde quando a Rede existe: no início pequenas, uma ou duas vezes por ano, em universidades e outros espaços. Depois começamos a fazer essas feiras em parques, sempre apoiados por outros parceiros, universidades, sindicatos. E houve um boom a partir do Projeto Redes, desenvolvido pelo Instituto Integra em parceria com a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária”, afirma Isadora.

O projeto, desenvolvido de 2014 a 2017, buscou fortalecer a Rede, ampliando sua presença por meio do desenvolvimento de ações integradas de formação, assessoria técnica, consultorias, comercialização em rede e incentivo à construção de políticas públicas.

Na cidade de São Paulo, a Rede realiza feiras de economia solidária nos parques Mário Covas e Severo Gomes. As cidades de Campinas e Rio Claro têm realizado encontros também. E essas feiras se multiplicam a partir das demandas dos empreendimentos de cada região.

economia-solidaria-e-saude-mental-uma-relacao-que-transforma-xEntendido todo esse processo, volto aqui ao início deste texto, pra explicar o processo de criação da nova marca da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária. Ela é pulsante, como você pode ver na imagem ao lado, e reflete bem todo esse movimento.

“Esse projeto foi muito desafiador. Construir colaborativamente uma marca com tanta gente envolvida é um processo muito rico e complexo. São muitas visões pra alinhar, diferentes percepções, um desafio bastante grande. O objetivo era dar protagonismo e voz às pessoas desse movimento, da união dessas duas coisas – a economia solidária e a rede de saúde mental. A um bom resultado a gente sempre chega, mas o processo é o que realmente importa”, avalia Mariane Broc, da CEB + D, responsável pela criação da marca.

Agora, quando você vir esse coração pulsante com tantas linhas e cores que refletem a amplitude dessa Rede, já sabe o que está por trás dele: ideais que conectam e ações solidárias que transformam.

Para mostrar um pouco mais sobre a luta antimanicomial, finalizo este texto com o teaser do filme Luz, Câmera, Inclusão… Um Filme sobre a Luta Antimanicomial, que acaba de ser finalizado por meio de crowdfunding pelo Dino Menezes, e que em breve começará a ser exibido:

 

 

Fotos: Divulgação 

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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