Durante fuga de espaço onde estavam em quarentena, morrem três de 18 girafas importadas da África do Sul pelo Bioparque do Rio de Janeiro

Durante fuga de espaço onde estavam em quarentena, morrem três de 18 girafas importadas da África do Sul pelo Bioparque do Rio de Janeiro

Uma tragédia acabou na morte de três girafas importadas da África do Sul pelo Bioparque do Rio de Janeiro e só agora veio a público, provocando protestos de organizações de proteção animal. Em novembro, chegaram ao Brasil 18 girafas compradas pelo zoológico. Como acontece com outras espécies, elas precisavam ser mantidas em quarentena para que houvesse certeza que estavam bem de saúde e não ofereciam risco de contaminação de doenças zoonóticas para outros bichos.

As girafas foram levadas para o Resort Safari Portobello, em Manguaratiba, no sul do estado, para permanecer lá em isolamento. De acordo com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que vistoriou o local antes dos animais chegaram, havia boas condições nas baias, que tinham cerca de 40 m2 cada. Todavia, no dia 14 de dezembro, seis girafas fugiram do espaço onde estavam tomando sol, quebrando cercas da propriedade. Durante a noite, elas foram recapturadas, mas três morreram.

Segundo declaração enviada pela assessoria de imprensa do Grupo Cataratas, que faz a gestão do Bioparque, localizado na Quinta da Boa Vista, no Rio, “projetos de manejo de espécies são operações extremamente complexas e envolvem riscos que precisam ser enfrentados em prol da possibilidade de garantir sua restauração e conservação. Transformar esse propósito em realidade é uma condição desafiadora e sujeita a intercorrências”.

Todavia, no texto, o Grupo Cataratas não dá maiores detalhes sobre a morte das girafas. Afirma apenas que “O BioParque do Rio informa que não há maus tratos. As girafas estão em processo de adaptação, em um ambiente preparado para suas necessidades e licenciado pelos órgãos competentes, garantindo o bem-estar animal”.

Em entrevista ao portal de notícias do G1, o responsável técnico do Bioparque disse que as três girafas não sofreram ferimentos durante a recaptura e que “é possível que um pico de atividade física tenha feito os animais desenvolverem doenças relacionadas ao tecido muscular esquelético, o que pode ter as levado à morte”. Ainda segundo o profissional, um laudo sobre os óbitos teria sido enviado ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Para a imprensa, o órgão disse que “vai apurar eventuais irregularidades cometidas pela empresa que importou os mamíferos”. Além disso, vai analisar o resultado da necropsia. E acrescentou que a autorização para importar as 18 girafas foi emitida após avaliações feitas no zoológico do resort Portobello.

A organização Ampara Silvestre, que repercutiu o assunto em suas redes sociais, ressalta que uma instrução normativa do Ibama estabelece que em zoológicos, para duas girafas são necessários 600m2, além de enriquecimento ambiental, como vegetação abrigo. “Por mais que os animais estivessem em quarentena, o que justifica manter animais por mais de 2 meses em míseros 6,6% do preconizado na lei? Ou a total ausência de enriquecimento ambiental?”, questiona a ONG.

Além do recinto muito pequeno, ambientalistas questionam a procedência desses animais. “Precisamos ter acesso ao parecer técnico que permitiu essa importação absurda, pois de acordo com as leis 5197 art.4 e 9605 art. 31 além das licenças cabíveis, é necessário um parecer que justifique a importação de animais selvagens. Quais foram as justificativas para retirar 18 indivíduos que estavam em vida livre, aptos a viver e exercer suas funções ecológicas na natureza, para serem transportados, confinados e mortos no Brasil? Qual a lógica conservacionista? Ou seria apenas uma lógica mercadológica?”, critica a Ampara Silvestre.

O Conexão Planeta entrou em contato com a assessoria de imprensa do Grupo Cataratas e perguntou se as girafas foram compradas de criadores ou retiradas da vida selvagem na África; qual seria o período total da quarentena e quando elas serão “desconfinadas” e ainda, quantas delas irão para o Bioparque. Até este momento, não tivemos um retorno.

Infelizmente episódios como este e o silêncio e falta de transparência da administração do Bioparque colocam em jogo o trabalho importante que outros zoológicos do Brasil fazem, tanto no estudo de animais, provenientes de apreensões realizadas pela polícia ou então, que por algum outro motivo não podem mais ser soltos na vida selvagem, mas também, na reprodução em cativeiro de espécies ameaçadas de extinção.

As girafas (Giraffa Camelopardalis) são os mamíferos terrestres mais altos da Terra. Os machos podem ter até 5 metros de altura. Infelizmente, desde 2016 elas foram incluídas na Lista Vermelha de animais ameaçados de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). Entre 1985 e 2015, sua população foi reduzida em cerca de 40%, passando de 163.452 mil indivíduos para 97.562 mil.

Nativas de cerca de 15 países africanos, as girafas são caçadas por sua pele e carne. No passado, era comum observar grupos de 20 a 30 animais na natureza, mas agora, eles são bem menores, com aproximadamente seis indivíduos.

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Foto: Rawpixel/Wikimedia Commons/domínio público

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Durante fuga de espaço onde estavam em quarentena, morrem três de 18 girafas importadas da África do Sul pelo Bioparque do Rio de Janeiro

  • 21 de janeiro de 2022 em 9:26 AM
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    Humanos comprando animais que jamais deveriam ter sido roubados de seu Habitat, na contra mão da ética e do ecologicamente correto, porque vidas não se compram para o manuseio delas, porque não são petecas. Lamentável pelas mortes das pobres mártires. Já chega de Zoos, essa blasfêmia contra a liberdade.

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