Duas em cada cinco plantas do planeta correm risco de extinção: 723 delas são usadas como medicamentos

Duas em cada cinco plantas do planeta correm risco de extinção: 723 delas são usadas como medicamentos

Em 2019, pesquisadores do mundo inteiro deram nomes científicos, pela primeira vez, a 1.942 novas plantas e 1.866 novos fungos identificados pela ciência. Esse número gigantesco, quase 4 mil, representa descobertas feitas em apenas um ano. Dá pra se imaginar então o quanto ainda existe na natureza e que ainda é desconhecido pelo ser humano. Uma diversidade sem fim de plantas, que podem servir como alimento, medicamento ou fonte de energia (biocombustíveis) para os habitantes do planeta.

Infelizmente, apesar de termos em mão essa imensa riqueza natural, as atividades humanas têm feito com que milhares de espécies de plantas e fungos estejam frente a um abismo, a poucos passos de desaparecer.

O relatório “State of the World’s Plants and Fungi 2020”, divulgado ontem (30/09), pelo Royal Botanic Gardens, Kew, da Inglaterra, aponta que duas em cada cinco plantas estão em risco de extinção.

O levantamento, que contou com a colaboração de 210 pesquisadores, de 97 instituições, em 42 países, alerta que milhares de espécies podem ser extintas antes mesmo de serem descobertas pela ciência.

“Nunca antes a biosfera, a fina camada de vida que chamamos de casa, esteve sob uma ameaça tão intensa e urgente. As taxas de desmatamento dispararam à medida que limpamos terras para alimentar cada vez mais pessoas, as emissões globais estão perturbando o sistema climático, novos patógenos ameaçam nossas safras e nossa saúde, o comércio ilegal erradicou populações inteiras de plantas e espécies não nativas estão exterminando as floras locais. A biodiversidade está sendo perdida – local, regional e globalmente”, diz o brasileiro Alexandre Antonelli, diretor de Ciências do Royal Botanic Gardens, Kew.

Duas em cada cinco plantas do planeta correm risco de extinção: 723 delas são usadas como medicamentos

A agricultura aparece como a principal ameaça às plantas do planeta

As plantas são base para milhares de medicamentos

Mais do que nunca, quando a humanidade enfrenta a maior pandemia de sua história recente – o novo coronavírus já matou 1 milhão de pessoas no mundo e contaminou quase 35 milhões -, e ainda não há nenhum tratamento eficaz ou vacina pronta para combater a COVID-19, sabemos da nossa dependência na medicina e em medicamentos para manter nossa existência.

Das 5.411 plantas medicinais, avaliadas pelo estudo internacional, quanto ao seu estado de conservação (de um total de 25.791 documentadas, 723 (13%) foram classificadas como ameaçadas.

Entre elas está, por exemplo, a Brugmansia sanguinea, na imagem abaixo, uma planta medicinal usada tradicionalmente para distúrbios circulatórios, que foi listada como “extinta na natureza” pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).

Outras plantas utilizadas como remédio e que estão em risco de extinção incluem a Nepenthes khasiana para doenças da pele e a casca da árvore da pimenta-do-reino (Warburgia salutaris), um medicamento para tosses e resfriados.

“Plantas e fungos forneceram ou inspiraram alguns de nossos medicamentos mais importantes. Temos que agradecer a natureza pela vincristina e o etoposídeo, que combatem o câncer, os analgésicos morfina e aspirina, a digoxina e a varfarina para as doenças cardíacas e diversos antibióticos. Contudo, a busca por novos medicamentos está longe de terminar, porque as doenças não transmissíveis, incluindo câncer e cardiopatias, permanecem responsáveis por quase 70% das mortes em todo o mundo, e transmissíveis, como malária e tuberculose, também afetam bilhões de pessoas”, menciona o estudo.

A Brugmansia sanguinea é nativa da América Latina

Globalmente, estima-se que 4 bilhões de pessoas sejam usuárias da fitoterapia, que adota ervas e plantas para fins medicinais. Só na China, ela representa 40% dos medicamentos prescritos. Outro paíse onde a população acredita no poder curativo das plantas é a África do Sul, que conta com 27 milhões de pessoas adeptas desses tipos de tratamento.

“Os avanços científicos estão oferecendo oportunidades para formas mais sustentáveis de revelar novos medicamentos da natureza, para harmonizar o uso terapêutico da biodiversidade com sua conservação proativa por meio de soluções baseadas na natureza”, diz Melanie-Jayne Howes, química do RBG Kew e autora principal do capítulo sobre medicamentos. “Essas estratégias fornecem esperança de salvaguardar o fornecimento de medicamentos valiosos no futuro, ao mesmo tempo em que demonstram o valor das plantas e fungos como um incentivo adicional para a conservação da biodiversidade”.

Duas em cada cinco plantas do planeta correm risco de extinção: 723 delas são usadas como medicamentos

A Taxus brevifolia é a base de um remédio que combate o câncer

Brasil: número um no ranking de descobertas

Entre 1990 e 2018, três nações figuraram entre aquelas que registraram o maior número de novas espécies de plantas: Brasil, China e Austrália. Há quase duas décadas, nosso país sempre aparece em primeiro lugar nesse ranking, algo em torno de 10% da biodiversidade do planeta. Só no ano passado, foram descritas 216 novas espécies encontradas em solo brasileiro.

Em 2019, por exemplo, nossos pesquisadores relataram a descoberta de dois parentes selvagens da mandioca (Manihot esculenta).

Enquanto a população mundial continua dependendo de alimentos seculares, como trigo, soja e arroz, os especialistas ressaltam que há uma diversidade gigantesca de plantas comestíveis ainda pouco exploradas.

No ano passado, seis novas espécies de Allium, o gênero ao qual pertencem o alho, a cebola, o alho-poró e a cebolinha, foram encontradas pela primeira vez por cientistas na Turquia, Albânia, Grécia e China.

Duas em cada cinco plantas do planeta correm risco de extinção: 723 delas são usadas como medicamentos

Mapa mostra que 34% das plantas nomeadas no ano passado estavam na América do Sul

Como evitar futuras extinções

Os autores do recém-divulgado relatório sugerem que a melhor estratégia para evitar o desaparecimento da flora terrestre é “acelerar as avaliações de risco para que as áreas-chave possam ser protegidas e as espécies possam ser conservadas sem demora”. Eles afirmam que o uso de inteligência artificial (AI, na sigla em inglês) pode ajudar a identificar áreas prioritárias para projetos de conservação.

Eles destacam que esta nova tecnologia pode detectar se uma área contém várias espécies que não foram avaliadas, mas são mais propensas a estarem ameaçadas, o que ajudará a agilizar as avaliações para áreas com necessidades mais urgentes.

“Precisamos ter uma ideia aproximada do estado de conservação de todas as espécies – e agora temos maneiras de conseguir isso com abordagens de AI que são 90% precisas. As técnicas são boas o suficiente para dizer, ‘esta área tem muitas espécies que não foram avaliadas, mas quase certamente estão ameaçadas’. E saber disso nos permitirá identificar as áreas mais importantes a conservá-las no futuro imediato”, afirma Eimear Nic Lughadha, cientista do RBG Kew e um dos autores líderes do capítulo sobre extinção.

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Fotos: reprodução State of the World’s Plants and Fungi 2020″

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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