Doença hemorrágica provocada por vírus ameaça população de coelhos selvagens nos Estados Unidos

Doença hemorrágica provocada por vírus ameaça população de coelhos selvagens nos Estados Unidos

Em abril deste ano, o Centro Nacional de Saúde Animal dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) divulgou um alerta que seis coelhos selvagens (Oryctolagus cuniculus) tinham sido encontrados mortos vítimas de uma doença hemorrágica, provocada pelo vírus RHDV2. Em 2018, já havia sido registrado o contágio no Hemisfério Norte, mas apenas em animais domésticos, Agora em 2020, a doença foi detectada, pela primeira vez, em espécies na natureza.

Já há casos confirmados de óbitos em sete estados americanos, entre eles, Novo México, Arizona, Utah, Texas e Califórnia.

Foi na década de 80 que cientistas observaram inicialmente o RHDV2 em ação. Na época, o vírus causou a morte de coelhos domesticados em territórios chinês e europeu, e mais tarde, na Austrália. Só na China, a estimativa é que aproximadamente 140 milhões de animais morreram.

A doença, que é bastante contagiosa, tem uma taxa de mortalidade altíssima, que beira os 70%. O vírus avança rapidamente, provocando febre, letargia e hemorragia interna. Em geral, com a falência do fígado, em duas semanas o coelho morre.

A principal preocupação dos biólogos é que outras espécies da mesma família dos coelhos selvagens, a Order Lagomorpha, também são vulneráveis ao vírus, como por exemplo, o pika, na imagem abaixo.

“O RHDV2 sobrevive no ambiente a até 15 semanas em condições secas e pode resistir ao congelamento. O vírus pode se espalhar através do contato com coelhos infectados ou ainda, sua carne ou pelo. Além disso, insetos e outros predadores podem espalhar o RHDV2, se em contato com material contaminado”, alerta o Centro de Saúde Animal dos Estados Unidos.

Doença hemorrágica provocada por vírus ameaça população de coelhos selvagens nos Estados Unidos

“Este é um desafio muito grande do ponto de vista da gestão da vida selvagem”, afirmou Bryan Richards, coordenador de Doenças Emergentes do USGS, em entrevista ao jornal The Guardian. “O vírus está em uma área bastante vasta e não temos nenhuma ferramenta para mitigar a propagação ou impedi-la, uma vez que está presente em populações livres”.

Uma das suspeitas de pesquisadores é que a proliferação do vírus do ambiente doméstico para o selvagem possa se dar a partir de coelhos presenteados na Páscoa. Como os donos desses bichos não costumam os levar a veterinários, a doença pode passar despercebida das autoridades sanitárias locais e, quando enterrado, o corpo do coelho infectado com o RHDV2 possa ser o vetor para novas transmissões.

De acordo com os cientistas, as carcaças podem continuar a disseminar o vírus por até 20 dias.

Os especialistas ressaltam que o vírus RHDV2 não é transmitido para humanos e outros animais domesticados, mas quem possui coelhos em casa deve ficar alerta.

Biólogos confessam que, atualmente, só podem estudar e monitorar a trajetória do vírus porque não há nada mais a ser feito. A esperança é que a partir de algum momento, os coelhos se tornem resistentes ao RHDV2.

Em Portugal, onde já houve um surto desse vírus, pesquisadores tentam desenvolver uma vacina, que poderia ser injetada em iscas.

*Com informações do jornal The Guardian e da revista Science

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Fotos: Henri Quatre/Creative Commons/Flickr (abertura) e pixabay/domínio público

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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