Documentos de importação revelam que girafas trazidas pelo Bioparque foram retiradas da vida selvagem e adquiridas de empresa na África que comercializa animais

Documentos de importação revelam que girafas trazidas pelo Bioparque foram retiradas da vida selvagem e adquiridas de empresa na África que comercializa animais

Novas informações obtidas pela investigação que está sendo feita sobre a morte e a importação de girafas da África do Sul compradas pelo Bioparque do Rio de Janeiro revela que elas foram retiradas da vida selvagem. Documentos analisados pelo Ministério Público Federal com os detalhes da aquisição e a permissão dada pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostram a letra “W”, de wild, selvagem, em inglês. O código, criado por convenção internacional, significa que o animal em questão vivia na natureza.

Todavia, segundo normas do próprio Ibama, animais capturados na vida selvagem não podem ser trazidos ao Brasil. Num parecer feito na semana passada por um fiscal do órgão que visitou o local onde as girafas estão, no Resort Safari Portobello, em Manguaratiba, no sul do estado, ele afirma que “a autorização da importação dos animais foi negligente, incompetente ou ingênua. E o analista ambiental que concedeu a licença desconsiderou a legislação vigente, inclusive a da própria instituição”.

No domingo, uma reportagem exibida pelo programa Fantástico, da Rede Globo, também denunciou que a empresa que vendeu as girafas pode não ser “um local para manejo sustentável e desenvolvimento comunitário com essas espécies na África do Sul”, como alega a assessoria de imprensa do Grupo Cataratas, que é proprietário do Bioparque. Um jornalista que esteve no local, mas não teve acesso à fazenda, somente conversou com o filho do proprietário, descobriu que animais de várias espécies são comercializados ali. E que as girafas só ficaram lá um ano e sua procedência anterior é desconhecida.

No momento, as 15 girafas restantes continuam em Mangaratiba – no total foram importadas 18, mas três morreram após uma fuga enquanto tomavam sol.

Em nota, a Associação de Aquários e Zoológicos do Brasil ressaltou que não foi informada previamente sobre a importação dos animais, assim como já havia dito que não existe nenhum Plano Nacional de Conservação da Espécie e por isso, as girafas não deveriam ter sido trazidas ao país.

Agora, organizações de proteção ambiental tentam trabalhar juntas para buscar uma alternativa viável e que não cause mais sofrimento ainda aos animais.

“Idealmente, pensando em conservação, o certo seria retornar as girafas [para a África]. Mas sabemos que o trâmite para a volta deles não seria fácil. Elas precisariam se recuperar, há o custo e o mais importante, não faz sentindo nenhum mandar estes animais de volta para o lugar de onde eles vieram, um centro de comércio para todo tipo de fim”, diz  Maurício Forlani, gerente de pesquisas da organização Ampara Silvestre, que ao lado do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e da ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais, entrou com uma ação na justiça do Rio solicitando maiores esclarecimentos sobre o caso.

Forlani acredita que a primeira opção é realmente devolver estes animais para seu ambiente natural, mas que não deve se descartar, como mencionado acima, a inviabilidade desse processo. “Frente a isso não vamos poupar esforços para que estes animais sejam destinados a um santuário no Brasil, para que eles tenham as melhores condições possíveis dentro do cativeiro e impedindo que sejam explorados comercialmente”.

As girafas (Giraffa Camelopardalis) são os mamíferos terrestres mais altos da Terra. Os machos podem ter até 5 metros de altura. Infelizmente, desde 2016 elas foram incluídas na Lista Vermelha de animais ameaçados de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). Entre 1985 e 2015, sua população foi reduzida em cerca de 40%, passando de 163.452 mil indivíduos para 97.562 mil.

Nativas de cerca de 15 países africanos, as girafas são caçadas por sua pele e carne. No passado, era comum observar grupos de 20 a 30 animais na natureza, mas agora, eles são bem menores, com aproximadamente seis indivíduos.

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Foto:  MARIOLA GROBELSKA on Unsplash

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.