Imagine você ser convidado/a por uma instituição de prestígio para apresentar o seu trabalho num congresso internacional e, de repente, descobrir que foi eleito para receber o prêmio do melhor do mundo em uma de suas especialidades, como muitos profissionais que o/a inspiram. Impossível segurar tanta emoção. E foi exatamente isso que aconteceu com Cristian Dimitrius, diretor de documentários, fotógrafo e produtor brasileiro, na semana passada.
Ele participava do Festival de Cinema da 70th Ocean Expo, conferência organizada pelo Boston Sea Rovers – o mais antigo Clube Mergulho do mundo, do qual participaram pioneiros como Jacques Cousteau -, dedicada à conscientização do público sobre exploração, cinema, descobertas científicas e mergulho, na cidade de Boston, nos EUA.
Durante o festival deste ano – como já aconteceu em 2017 e 2023 -, Dimitrius apresentou suas mais recentes realizações em prol da conservação. “Quando estou fora do Brasil, sempre mostro as belezas do nosso país, mesmo trabalhando em muitos outros lugares do mundo” (na foto de destaque, ele está no Pantanal do Mato Grosso do Sul).
Para sua surpresa, ao final das celebrações do primeiro dia do evento (que aconteceu em 16 e 17 de março), ele foi agraciado com o ‘2024 Walter Feinberg Diver of the Year Award’ (Prêmio Walter Feinberg de Mergulhador do Ano 2024), oferecido anualmente pelo clube em reconhecimento ao profissional que se destacou “pelo impacto causado na vida das pessoas, por fazer a diferença”, explica ele. Uma espécie de ‘embaixador do mundo subaquático’.

Foto: arquivo pessoal
Vale destacar aqui que Walter Feinberg, que dá nome ao prêmio, foi um dos fundadores do clube e escreveu o livro History of the Sea Rovers, em 1968, onde deixou registrado: “A história dos Boston Sea Rovers é, em muitos aspectos, a história do mergulho”.
“Mais importante que o Emmy”
“Pra mim, é mais importante ganhar o Dive of The Year do que o Emmy Awards (em 2013, venceu o prêmio de Melhor Direção de Fotografia em documentários), que claro que é um reconhecimento relevante para o nosso trabalho, mas não trata do impacto que causamos nas pessoas”, declara o diretor, que fundou e dirige a produtora Cristian Dimitrius Wildlife Productions.
“O prêmio do Sea Rovers nos lembra que nossa maior missão é fazer a diferença”.
“Seu trabalho inspira, fazendo as pessoas se apaixonarem pelo mundo natural ao seu redor, ao mesmo tempo em que pede aos espectadores que se aprofundem em cada assunto que ele ilumina habilmente”, destacou o clube durante a apresentação do eleito (o texto completo você pode ler no final deste post).
O documentarista conta, ainda, que Nick Fazah, presidente do Sea Rovers – que foi quem lhe entregou o prêmio (foto de destaque) -, ressaltou que havia outros três mergulhadores concorrendo (que não foram revelados durante a cerimônia) e que Dimitrius foi escolhido por unanimidade. É o primeiro brasileiro eleito pelo Sea Rovers em quase 70 anos!
“É uma lista seleta de quem trabalha com filmagem, pesquisa científica, pessoas importantes para a indústria do mergulho, que inspiram as pessoas a cuidar do planeta”.
Com o prêmio também veio um convite especial: sua inclusão como membro do Boston Sea Rovers. O primeiro brasileiro neste quesito também.
Jacques Cousteau integrou o Sea Rovers – a partir de 1955 -, assim como a famosa oceanógrafa Sylvia Earle – “a dama dos oceanos” –, uma das poucas mulheres do clube.
“É uma honra muito grande!”, declara Dimitrius. “Eles escolhem as pessoas que compõem o clube, não se trata de pagar uma mensalidade. Elegem como aconteceu, por exemplo, com profissionais que me inspiraram como Brian Skerry, da National Geographic”. E acrescenta: “A história dele começou no Sea Rovers, com 16 anos, e ele está há mais de 40 anos inspirando gerações apaixonadas pelo mundo marinho, futuros conservacionistas”.
“Ser eleito Mergulhador do Ano do Sea Rovers me motiva bastante, me dá um gás para fazer ainda mais, criar mais filmes. É uma renovação na energia para poder causar impactos ainda mais fortes. O planeta e os oceanos estão precisando”, finaliza.

e apresentadores do festival no final do evento
Foto: divulgação
Dimitrius pelo Sea Rovers
Quem conhece e acompanha Cristian Dimitrius sabe por que ele merece este reconhecimento. Para quem não conhece sua trajetória, creio que não há nada melhor do que ler o texto apresentado pelo clube durante a cerimônia de entrega do prêmio, que justifica a escolha de forma intensa, e que reproduzo a seguir.
“Cristian Dimitrius é um célebre diretor de fotografia e fotógrafo de história natural, cujo trabalho destaca continuamente a majestade e a complexidade do mundo natural.
Com um prêmio Emmy que exemplifica sua criatividade e experiência, Cristian é um dos cinegrafistas mais versáteis do mundo.
Um talentoso cinegrafista subaquático e de superfície, renomado piloto de drone e magistral contador de histórias, seu trabalho agraciou telas IMAX e de televisão e esteve em produções para a BBC, National Geographic, Discovery Channel, Netflix, AppleTV+, Animal Planet, Smithsonian, LoveNature, PBS e muitos outras empresas.
Amplamente conhecido por seu trabalho em regiões como Amazônia, Pantanal e Patagônia, Cristian traz um talento e uma abordagem únicos para sua narrativa, não apenas colocando o espectador diretamente a par do assunto, mas também fazendo com que se preocupe profundamente com ele.
Sejam piranhas, jacarés, preguiças ou botos cor de rosa, cada tema é filmado com o mesmo respeito e admiração. Alguns de seus trabalhos mais conhecidos concentram-se nas sucuris (na foto de destaque deste post ele está ao lado de uma espécie gigante).
Christian destemidamente se coloca na água ficando cara a cara com sujeitos tão intimidadores, dissipando estigmas através das lentes de sua câmera, mostrando seu comportamento, história de vida e o mundo invisível.
Embora seja conhecido por seu trabalho na América do Sul e Central, Cristian também trabalhou com outros temas e locais, como as orcas na Noruega aos ambientes selvagens da Nova Zelândia.
Qualquer que seja o tema que Cristian fotografe, seus filmes e imagens estão impregnados da urgência de conservar e proteger o mundo natural.
O trabalho de Cristian é o de um virtuoso, combinando todas as suas habilidades ao produzir peças cinematográficas impressionantes em tempo recorde.
Ferozmente dedicado ao seu ofício e à busca pela conservação, o trabalho de Cristian vai além da tradicional narrativa de história natural para trazer sua própria visão e voz para o primeiro plano da vida das pessoas.
Seu trabalho inspira, fazendo as pessoas se apaixonarem pelo mundo natural ao seu redor, ao mesmo tempo em que pede aos espectadores que se aprofundem em cada assunto que ele ilumina habilmente.
Cristian Dimitrius é um mestre diretor de fotografia, fotógrafo e produtor de televisão subaquático que se dedica a aumentar a conscientização e o respeito pela natureza, e o mundo ficará melhor depois de compartilhar seu trabalho.
Em nome de todos os Rovers, do passado, do presente e do futuro, temos orgulho em reconhecer suas contribuições para aumentar a consciência global sobre a importância de proteger os nossos ambientes naturais e todas as criaturas que vivem acima e abaixo da água.
Os Boston Sea Rovers têm a honra de lhe entregar o nosso maior prêmio: a inscrição na tigela de prata Paul Revere”.
Batismo inusitado
Sobre a tigela, uma curiosidade: “Como parte da tradição que tem mais de 60 anos, o Mergulhador do Ano é batizado na tigela contendo vodka e suco de laranja”, conta Dimitrius.
“Confesso que, de todos os mergulhos que fiz na vida, esse foi um dos mais importantes. Ser o primeiro brasileiro a entrar pra essa lista tão seleta é, pra mim, uma grande conquista”.
A seguir, assista ao batismo no vídeo publicado por Dimitrius em seu Instagram e, depois, saiba quem foram alguns dos mergulhadores do ano desde a fundação da instituição.
Mergulhadores do Ano desde 1956
Há quase 70 anos (desde 1956, com Edward Pansewitz) o Boston Sea Rovers elege mergulhadores do ano, “talentos variados do mundo subaquático”, destaca o clube, que os apresenta, aqui, de forma bastante resumida.
“Desde os incríveis talentos fotográficos como Brian Skerry (citado por Dimitrius), Chuck Davis, Joe Romiero, Berkeley White a cineastas influentes como Stan Waterman, Howard e Michelle Hall e Rick Rosenthal.
O famoso autor de Jaws (que deu origem ao filme Tubarão), Peter Benchley, era conhecido por seus livros e filmes, bem como por seu trabalho de conservação para salvar tubarões.
Cientistas e exploradores notáveis como os biólogos, especialistas em tubarões, Greg Skomal e Eugenie Clark, ícones subaquáticos como a oceanógrafa Sylvia Earle (eleita em 1979) e os exploradores Robert Ballard e o mergulhador especialista de icebergs e cavernas Jil Heinerth.
Os primeiros pioneiros do mundo subaquático também foram homenageados: Harold Edgerton e Wes Skiles, entre outros”.
Para saber os nomes de todos os mergulhadores reconhecidos pela Sea Rovers até 2022, clique aqui.
Foto (destaque): arquivo pessoal





