Do papel velho ao novo em circuito fechado

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selo-economia-criativa-especial-XA reciclagem de papel não tem nenhuma novidade tecnológica. Mas a origem e a forma de organização faz toda a diferença na operação e na qualidade dos produtos da recicladora holandesa Paper for Paper. Especializada – é claro – em papel, a firma está situada em Purmerend, no norte da Holanda e atende 10 mil clientes em todo o país.

Durante 60 anos, a empresa era a De Graaf e a atividade principal foi a coleta de papeis para a destruição de arquivos confidenciais, informações bancárias e projetos industriais, com alto padrão de segurança. A coleta sempre foi feita com lixeiras de aço lacradas, dotadas de aberturas tipo boca de lobo. Dos escritórios, todos os papeis seguiam para um galpão de acesso restrito, onde máquinas cortadeiras eram alimentadas por pequenos guindastes e os segredos contidos nos papeis se transformavam em tirinhas, trituradas e ilegíveis.

Então, veio a ideia de aproveitar todo esse papel cortado para alimentar uma fábrica de papel reciclado, em lugar de incinerar tudo. A qualidade dos papeis de escritório – limpos e sem misturas com papelões ou materiais menos nobres – facilitaria a produção de reciclados bem cotados no mercado. E a revenda do papel novo para os próprios clientes fecharia o sistema circular de reciclagem com uma logística inteligente, sem desperdícios no transporte e sem intermediários, muito eficiente.

Nasceu então, em 2012, a Paper for Paper, uma recicladora de circuito fechado, que devolve papel novo, 100% feito de fibras recicladas e com certificação FSC (Forest Stewardship Council ou Conselho de Manejo Florestal), para as mesmas empresas das quais coleta papeis destinados à destruição.

Segundo a Paper for Paper, cada um de seus usuários economiza, em média, por ano, 74 árvores de produção de papel virgem, 18 mil KWH de energia e 117 mil litros de água, além de reduzir 3,7 toneladas de carbono em suas emissões. Sem contar que não precisam se preocupar com coletas, vendas ou compras: a recicladora se encarrega de coletar os papeis usados nas tais lixeiras lacradas com boca de lobo e levam de volta, direto aos escritórios, os papeis reciclados da marca Pure, em folhas tamanho A4 ou blocos de papel para impressão, todos prontinhos para usar. A recicladora também produz papel higiênico e toalhas de papel das marcas Tork e Papyrus Balance, garantindo a mesma entrega direta aos clientes.

Aos poucos, a Paper for Paper expandiu a coleta nos escritórios, passando a receber também papeis não confidenciais em lixeiras não lacradas (atualmente entre 10% e 20% do total reciclado). Mais recentemente, criou ainda um circuito fechado para copos descartáveis feitos de papel, que são transformados em novos copos.

Um serviço de comunicação foi acrescentado ao pacote, permitindo aos clientes associados usar informativos, slogans e dados sobre a sustentabilidade do processo, tanto com seus funcionários, internamente, como em sua comunicação com o público externo. E a recicladora fechou um acordo com uma organização não governamental, comprometendo-se a plantar uma árvore para cada tonelada de papel recolhido. Um bom acordo para o meio ambiente, já que são coletadas cerca de 50 toneladas por dia!

A ONG é a Trees for All (Árvores para Todos), uma parceria de base comunitária que envolve outras ONGs, cidades, produtores rurais e voluntários no plantio de árvores para a proteção das bacias hidrográficas.

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Boca de lobo na lixeira lacrada garante a confidencialidade dos arquivos destinados à reciclagem

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Operadores de guindastes jogam os papeis na máquina trituradora, antes da reciclagem

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Fardos de papel picado esperam para ser transformados em polpa

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Os reciclados são devolvidos aos clientes em folhas A4 ou papel para impressão

Fotos: Liana John

Economia Criativa

Este texto faz parte do Especial que apresenta uma série de 10 reportagens sobre reciclagem de resíduos na Holanda, realizada a convite do Ministério das Relações Exteriores daquele país. Lá, visitei empresas recicladoras holandesas que podem nos servir de exemplo e inspiração para o desenvolvimento de uma Economia Circular brasileira.

Saiba mais no primeiro post que escrevi – É hora de apostar na Economia Circular – e acompanhe os temas que fazem parte deste especial:

1. Reaproveitamento de couro de sofás
2. Novas funções para velhas estruturas de aço
3. Colchões de espuma para isolamento térmico
4. A difícil arte de separar fibras têxteis
5. Os 3Rs no universo das filmagens
6. Lixeiras com eficiência máxima
7. Carga pesada no desmonte de navios
8. Reciclagem de eletrodomésticos
9. Do papel ao papel (este post)
10. Almere, uma cidade com meta Zero Resíduos

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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