A diversidade que nos fortalece

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Até pouco tempo atrás, o conceito de comunidade estava exclusivamente vinculado à ideia do território. Compreendia-se um grupo pertencente a uma mesma área geográfica como comunidade, nomeação válida também a grupos com heranças culturais e históricas comuns. Com os avanços da tecnologia e o processo de globalização, o conceito de comunidade ampliou-se, abarcando grupos com interesses ou objetivos comuns, independente do solo que habitam ou da história de vida que carregam.

Proponho, contudo, nos atermos ao interior da concepção de comunidade. Se recorrermos à sua etimologia, iremos nos deparar com a ideia de companheirismo e de algo comum, compartilhado; algo público. A vida comunitária sugere, portanto, uma interação entre os indivíduos, partindo do pressuposto que estes se apoiam e se cuidam, priorizando a partilha e a garantia do espaço público como um espaço de todos.

Este ‘todos’ – é fundamental frisar – não se refere a um todo homogêneo, já que cada ser humano é único em sua subjetividade e em sua história. Assim, a ideia do todo abarca, necessariamente, a diversidade. Mesmo que a comunidade esteja organizada sob a lógica de uma cultura ou de uma religião unificadora, ela é composta por indivíduos diversos.

No cerne da comunidade, vive, portanto, a diversidade. A imagem do comum ampara-se pelo diverso, num encontro que requer, sobretudo, empatia.

E por falar em empatia…

Estamos inseridos em contextos sociais dinâmicos e complexos, o que coloca nossa individualidade em constante embate com nossa dimensão social. Nossos atos individuais, necessariamente, terão implicações sociais. A compreensão consciente e comprometida desta lógica deveria nos tornar responsáveis por aquilo e aqueles que nos cercam, mas nem sempre este exercício de sair de si e ir de encontro ao outro é tarefa fácil.

Olhar para o outro a fim de compreender suas perspectivas e colocar-se à disposição para uma escuta ativa requer abertura e deslocamento; exige-nos fugir do lugar comum, ou do conforto de nossas convicções. Para escutar com atenção e verdade, é preciso despir-se de prejulgamentos, de preconceitos, de discursos prontos; é preciso romper com os estereótipos que, geralmente, usamos para facilitar a compreensão da realidade.

A tarefa é difícil e passa pela necessidade de assumirmos uma postura empática, que pode ser despertada ainda na infância.

O conceito de empatia vem sendo estudado e analisado por pesquisadores de diversas áreas, como a filosofia, a psicologia e também a neurociência. Esta última afirma que todo o ser humano está predisposto a ser empático, uma vez que a empatia é acionada, entre outros fatores, a partir de um hormônio que se chama ocitocina, que todos nós temos. A ativação desta capacidade, porém, é relativa aos cuidados que recebemos em nossos primeiros meses de vida. Bebês que são cuidados, aleitados, acarinhados e que recebem aconchego, possuem mais chances de desenvolver uma postura empática se comparados àqueles que foram renunciados por seus cuidadores (assista ao vídeo que incluí no final deste post). 

A empatia, portanto, é uma predisposição que vive em nós. Precisamos, contudo, dar as condições necessárias para aflorá-la. E essas condições passam tanto pelas relações e pelos exemplos de afeto e amor, como por algo que deve ser cultivado e trabalhado intencionalmente.

Aquele que está à nossa frente, seja ele quem for, tem um universo vibrante dentro de si, que precisa ser respeitado. Ao contrário do que se pensa, não precisamos necessariamente “vestir os sapatos” alheios para compreender a perspectiva do outro, mas nos abrir com generosidade para compreendê-lo a partir de sua trajetória.

É importante dizer, ainda, que a empatia vai além de ‘cuidar’ ou ‘ser solicito’ ao próximo. Ela exige um processo de abertura e reflexão bastante profundo e pessoal, em que nos colocamos disponíveis a ampliar nossa visão de mundo a partir do olhar do outro.

Na prática

O debate sobre a importância da empatia para a construção de um mundo mais justo e sustentável está ganhando amplitude nos diferentes setores da sociedade. O sistema de ensino, por exemplo, vem demonstrando preocupação em trabalhar não apenas conteúdos acadêmicos, de forma isolada, mas atrelá-los ao desenvolvimento de competências que passam pelos sentidos e pelas emoções.

Temos bons exemplos no Brasil, que merecem ser destacados e apreciados a fundo. A EMEF Aclimea Nascimento é um deles. Localizada em Teresópolis (RJ), a escola desenvolve um trabalho bastante significativo olhando para as emoções das crianças. Durante as oficinas que acontecem no período vespertino, os alunos são acompanhados por um educador, que se atenta ao desenvolvimento intelectual e emocional de cada criança. Elas são convidadas a conversar sobre suas emoções e a estabelecer uma relação reflexiva com seus sentimentos. Desta forma, a escola incentiva os alunos a conhecerem a si e a seus colegas, sob uma perspectiva sensível, de escuta e acolhimento. Esse trabalho é fortalecido, ainda, pelo processo de inclusão que a escola realiza. Lá, todos acreditam que cada aluno é singular e vê a diversidade como essencial para a construção de um ambiente saudável e empático.

Luciana Pires, diretora da Aclimea, afirma: “Não pautamos nosso processo de inclusão em laudos ou comprovações médicas, mas sim na crença de que cada aluno é único. Trabalhamos a inclusão considerando as particularidades de cada um e nos adaptamos para atendê-las da melhor forma possível. Com isso, todos ganham”.

Outro bom exemplo em que a empatia é colocada em prática está no intenso envolvimento da Escola Luiza Mahin, de Salvador (BA), com a comunidade local. A escola acredita que educar é um ato coletivo e, assim, integra os saberes da comunidade às experiências de aprendizagem das crianças. A educadora Sonia Ribeiro, que atua na instituição há mais de 20 anos, destaca: “Nas atividades sempre chamamos alguma liderança comunitária para que as crianças entendam que a escola não é só o professor e o aluno, mas a comunidade inteira”. Neste processo, as crianças têm chance de conviver com pessoas de diferentes realidades, com diferentes saberes, e aprendem a valorizar diferentes vozes.

Se buscamos um mundo mais pacífico e amoroso, precisamos enxergar e respeitar cada ser humano em sua singularidade e, a partir das diferenças, construir uma comunidade capaz de dialogar e erguer caminhos inclusivos, que valorizem a diversidade como  constitutiva de nossa força enquanto humanidade. A escola, vale dizer, é um espaço privilegiado para o exercício da empatia.

Agora, assista ao diálogo entre o teólogo e escritor Leonardo Boff, o filósofo e educador colombiano Bernardo Toro e a presidente emérita da Ashoka Global, Ana Maria Schindler, realizado na conferência Rio+20, em 2012.

Foto: Cheryl Bolt/Pixabay

Carolina Prestes

Comunicóloga e especialista em Infância, Educação e Desenvolvimento Social. É mestranda em ciências da comunicação pela ESPM-SP - onde estuda processos de celebrização e consumo nos circuitos de festas infantis - editora do blog Além dos Muros da Escola e integrante da equipe de Educação e Cultura da Infância do Instituto Alana

2 comentários em “A diversidade que nos fortalece

  • 4 de novembro de 2016 em 1:55 AM
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    Parabéns pelo blog e pelo belíssimo texto sobre a necessidade de valorizarmos a diversidade e cultivarmos a empatia. Eu, como médico-psiquiatra, não posso deixar de valorizar a fala da diretora da Aclimea, Luciana Pires: “Não pautamos nosso processo de inclusão em laudos ou comprovações médicas, mas sim na crença de que cada aluno é único…”
    Sensacional. O que mais vejo no meu trabalho com crianças são escolas solicitando, através dos pais, laudos dos alunos com seus respectivos diagnósticos, para, na verdade, evitarem o reconhecimento de que o sistema educacional é que precisa atender às particularidades e singularidades de cada criança, independentemente se possuem um diagnóstico, um “rótulo”, ou não.
    A diversidade e a diferença só enriquecem as trocas sociais e a experiência humana…

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