Diversidade nas urnas: indígenas, negros, trans, mandatos coletivos e mais mulheres entre os eleitos de 2020

Ontem, 15/11, assim que as urnas começaram a ser apuradas, especialistas já destacavam – com base em pesquisas de boca de urna – o enfraquecimento de alguns apoiadores estratégicos do governo Bolsonaro (e declaradamente apoiados por ele) em todo o país.

Tanto que, logo que se confirmaram algumas derrotas ou a perda de eleitores, o presidente tratou de apagar posts em que pedia apoio a seus correligionários nas redes sociais, entre eles Celso Russomano, em São Paulo, por exemplo. Marcello Crivella, um de seus favoritos, é o único que continua na disputa do segundo turno, tentando se manter na prefeitura do Rio de Janeiro.

No cômputo geral, os números mostram que grande parte do poder de decisão se mantém nas mãos dos conservadores.

Também revela que quase metade dos brasileiros – em muitas cidades – ainda não compreende o valor do seu voto: em diversas cidades e estados, quase 50% se absteve ou votou nulo e em branco. Pode ser que a pandemia tenha influenciado, mas, no cenário obscuro em que vivemos, esta não é uma boa notícia.

Por outro lado, há transformações importantes que podem ajudar a tirar o Brasil do abismo em que começou a cair vertiginosamente com a eleição de Bolsonaro, em todos os aspectos: econômico, ambiental, social, cultural. Humano, principalmente.

Elas foram iniciadas nas candidaturas e nas campanhas e partiram de brasileiros que Bolsonaro insiste em chamar de minoria, ousaram “levantar a voz” para lutar por suas causas, como as mulheres, os negros, os indígenas, os LGBTQI+… E, em alguns casos, apostaram nas candidaturas coletivas porque juntos podem ser mais fortes, como revelaram experiências lançadas na última eleição.

A diversidade de gênero, raça e etnia (idade também) nas eleições de 2020 é notável e auspiciosa. Assim como a vitória de homens comprometidos com o bem comum. Tudo isso favorece um novo olhar para o cenário político do país a partir do ano que vem. Não só: militâncias pela educação, pelos direitos de pessoas com deficiência ou necessidades especiais, pela agroecologia também jogam uma nova luz nesse cenário.

Mais mulheres

Este ano, muitas mulheres disputaram cargos nas Câmaras Municipais e Prefeituras dos 5.568 municípios brasileiros. Elas representam 1/3 das candidaturas à vereança: quase 174.000 candidatas em todo país.

De acordo com reportagem da revista Exame, o aumento, em relação a 2000 (20 anos!!!), foi de 140%. Já as candidatas às prefeituras passaram de 8,2% em 2000 para 15,5%, este ano.

Ainda é muito pouco, mas é também um grande avanço, impulsionado certamente pelo obscurantismo que tem promovido tanto desrespeito e tanta violência contra as mulheres. Sob Bolsonaro, os casos de feminicídio aumentaram 7,3% em 2019, comparados a 2018, o que significa dizer que uma mulher foi morta a cada 7 horas (levantamento do G1, com base em dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal).

No caso das prefeituras, ainda teremos segundo turno em algumas cidades, mas já é possível celebrar algumas vitórias. O Brasil pode ter seis prefeitas eleitas; três já estão confirmadas: Elenice Delgado (PT), em Lima Duarte, Minas Gerais (a primeira prefeita da história da cidade!), Dona Nilda (PCdoB), em Poções, Bahia (recebeu 12.289 votos, que representam 47,27% do total) e Cinthia Ribeiro (PSDB), em Palmas, no Tocantins.

As demais disputam o segundo turno com homens, entre elas, a combativa Manuela D’Ávila (PCdoB), em Porto Alegre, candidata à vice-presidência do Brasil em 2018, ao lado de Fernando Haddad (PT).

Feminino, plural

Muitas foram as cidades que elegeram vereadoras negras. Algumas, pela primeira vez, como foi o caso de Curitiba, no Paraná, que se rendeu às propostas de Carol Dartora (PT), professora da rede pública estadual, feminista e militante do movimento negro.

São Paulo também elegeu a primeira vereadora trans negra da Câmara Municipal: Erika Hilton (PSOL), com mais de 50 mil votos!

Catanduva, interior de São Paulo, se juntou aos curitibanos e também escolheu a primeira mulher negra para ser sua representante na Câmara Municipal: Taíse Braz (PT). E Natividade, no interior do Rio de Janeiro, também elegeu a primeira negra trans da cidade: Kará (PDT).

Outras cidades, ainda, apostaram na reeleição, como em Niterói, no Rio de Janeiro. E, assim, Verônica Lima (PT) continua fortalecendo as estatísticas das mulheres negras e LGBTQI+ na política, ao lado de Bia Caminha (PT), a mais jovem vereadora da história de Belém, no Pará.

Duda Salabert (PSB) é trans, lésbica e a vereadora mais votada em Belo Horizonte, Minas Gerais. Em Florianópolis, Santa Catarina, a mais votada é Carla Ayres (PT), mulher lésbica defensora dos direitos humanos. Em Niterói, é a travesti negra Benny Briolly (PSOL).

Já em Pontal, em São Paulo, a maioria dos votos foi para a travesti Lorim da Valéria (PDT). No interior paulista, Araraquara, elegeu Filipa Brunelli (PT) e Batatais elegeu Anabella Pavão (PSOL), ambas trans e feministas.

Em Macaé, no Rio de Janeiro, a jovem negra Iza Vicente (PRTB) foi a vereadora mais votada. Em Natal, Rio Grande do Norte, a que recebeu mais votos para ocupar um cargo na Câmara Municipal foi Divaneide Basilio (PT).

Monica Benício (PSOL), viúva de Marielle Franco, é eleita no Rio de Janeiro: “Agradeço imensamente às mais de 22 mil pessoas que votaram por um futuro mandato feminista e antifascista na Câmara Municipal do Rio! Vamos transformar essa cidades juntas!”.

Porto Alegre também deu voz à periferia: para a jovem mãe Bruna Rodrigues (PCdoB) e para a jornalista, feminista e militante popular, Laura Sito (PT). Em Vitória, Espírito Santo, foi a vez da ecossocialista Camila Valadão (PSOL) garantir uma vaga na Câmara.

Uberlândia, em Minas Gerais, elegeu Amanda Gondim (PDT), militante em defesa dos direitos das pessoas com deficiência e LGBTQI+, mas a vereadora mais votada foi a pedagoga negra Dandara Tonantzin (PT).

A professora de libras, Isabelle Dias (PSB), é surda e a mais nova vereadora de Paranaguá, no Paraná. Ser uma pessoa com deficiência (PCD) não a impede de atuar como representante do povo na Câmara Municipal e lutar por igualdade, diz.

Contagem, no mesmo estado, colocou Moara Saboia (PT), feminista negra e militante desde os 13 anos, na Câmara Municipal.

Masculino, singular

O autor do projeto da Renda Básica de Cidadania nunca sai de cena. Ele perdeu a reeleição no Senado – ficou em terceiro lugar, a partir de uma manobra que elegeu os outros dois candidatos -, aos 79 anos, Eduardo Suplicy se reelege vereador em São Paulo.

A força dos mandatos coletivos

Ainda em Minas Gerais, Sonia Lansky (PT) lidera o primeiro mandato coletivo da capital mineira (o Coletiva, com nove covereadores), que defende a causa da saúde pública e o SUS. Também integrante de um mandato coletivo – Quilombo – a negra e periférica Gilsa Santos (PT) foi eleita em Governador Valadares.

Em Salvador, o coletivo Pretas por Salvador (PSOL) foi eleito e levanta as bandeiras da negritude, do feminismo e LGBTQI+, com Laina Crisostomo (lésbica), Cleide Coutinho e Gleide Davis.

Fortaleza e São Luís do Maranhão elegeram seus primeiros mandatos coletivos. O primeiro, Nossa Cara Mandata, com Louise, Lila e Adriana (PSOL), é feminista e negro. O segundo (PT) é o Nós.

A harmonia com a natureza é a bandeira do Mandato Coletivo Permacultural (Rede), em Alto Paraíso, Goiás!

São Paulo já tem experiências bem sucedidas de mandatos coletivos, como o da Bancada Ativista. Este ano, o Quilombo Periférico se destacou e ganhou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Liderado por Elaine Mineiro, reúne mais cinco jovens – Debora Dias, Samara Sosthenes (mulher trans), Julio Cezar de Andrade, Erick Oliveira e Alex Barcellos -com especialidades e interesses que percorrem educação, cultura, trabalho e renda, entre outros temas.

Estas eleições ainda trouxeram mais uma experiência coletiva bacana: o Mandato Coletivo Jaraguá é Guarani, composto por três lideranças femininas – Sônia Barbosa, Tamikuã Txihi e Patrícia Jaxuka -, das aldeias Ytu, Itakupe e Pyau, do povo Guarani Mbya, que vive na região do Jaraguá, periferia de São Paulo.

O histórico de ameaças contra essa etnia é grande, o que os levou a participar de muitas mobilizações em 2019. Uma de suas lideranças mais aguerridas, Davi Guarani, participou, em abril de 2019, de um festival de rock para falar de demarcação de terras e genocídio.

Mais recentemente, o povo Guarani tem sido alvo da prefeitura – gestão Bruno Covas – e da Construtora Tenda, que quer construir um complexo de 11 torres ao lado de sua terra. Eles resistem, como conta outro jovem líder: Thiago Henrique Karai Jekupe, de 25 anos. E o caso está na Justiça.

Paulistanos que abraçam a causa – incluindo advogados – estão empenhados em ajudá-los. Com a pandemia e a quarentena, os indígenas ficaram impedidos de proteger suas terras. A construtora – que já havia derrubado mais de 500 árvores sem autorização -, tentou entrar novamente no terreno e, por isso, a Justiça interferiu. Mas, em seguida, a os Guarani ainda sofreram com um grande incêndio, que pode ter sido provocado por balões. Tiveram que apagá-lo sozinhos.

Mas esta não é a primeira, nem a segunda vez que os Guarani são ameaçados. Por isso, este ano decidiram criar o Mandato Coletivo Jaraguá é Guarani, que conquistou 10.550 votos e ficou em 100º lugar. Mas a Câmara Municipal tem apenas 54 assentos, portanto, não foi desta vez. De qualquer forma, para uma primeira campanha, realizada em tão pouco tempo, representa muito!

Que as mulheres indígenas tenham cada vez mais voz. E que esses povos conquistem a demarcação de seus territórios no país. Que sua medicina de cura seja valorizada!

Importante jamais esquecer que não existem indígenas apenas na Amazônia ou no Xingu. Eles estão nos grandes centros urbanos também, e tal como seus parentes longínquos, são constantemente ameaçados pelo desenvolvimento.

O Mandato Coletivo Jaraguá é Guarani foi uma semente. E da importância que tem cada semente eles entendem, muito.

Primeiro prefeito quilombola

As eleições deste ano tiveram mais de 19,3 mil candidatos à prefeituras. Entre eles, apenas dois quilombolas: Vilmar Costa (PSB), mais conhecido como Vilmar Kalunga, de Cavalcante, em Goiás, e Oriel Rodrigues (PT), do quilombo de Ivaporunduva, em Eldorado, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo.

Cavalcante concentra o maior território quilombola do país e elegeu o primeiro prefeito Kalunga da história. Ele nasceu no Vão do Moleque, é pós-graduado em Ciências da Natureza e Matemática, tem Licenciatura em Educação no Campo e é ex-presidente da Associação Quilombo Kalunga (AQK). Muito bacana, seu currículo.

Já Oriel tentou se eleger em Eldorado, cidade com pouco mais de 15 mil habitantes (11.635 eleitores), que abriga 12 quilombos com cerca de 600 famílias (1.500 eleitores) e fica na região mais pobre do estado de São Paulo. Bolsonaro foi criado lá, por isso sempre a chama de terra natal.

Quem acompanhou algumas dos episódios mais grotescos de sua campanha presidencial deve lembrar de sua fala racista proferida em palestra para empresários, na qual se referiu aos quilombolas: “Eu fui em um quilombo em Eldorado. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não servem pra nada!”.

Pena que Oriel não foi eleito. O candidato fez discurso de paz e de conciliação: recebeu apenas 9,36% dos votos e ficou em último lugar.

Por mais indígenas na política!

Desde que Bolsonaro assumiu a presidência, tem cumprido o que prometeu: não demarcar terras indígenas e fazer de tudo para reduzir seus territórios e incentivar invasões. Em seus discursos, legitimou a violência.

Na pandemia, ele não se pronunciou a respeito da grande vulnerabilidade histórica desses povos que, em muitos casos, assumiram sua própria proteção: criaram barreiras sanitárias para isolar suas aldeias e impedir que a entrada de invasores. Nas aldeias Yanomami, são os maiores responsáveis pela contaminação.

Foram muitos os que morreram, entre eles, diversas lideranças como o cacique Aritana Yawalapiti e o Paulinho Paiakã dos Kayapó, entre outros.

Por tudo isso, os indígenas se organizaram este ano para conquistar mais espaço no cenário político. Sabemos o quanto é importante sua presença na política, que, em 2018, registrava ínfimos 0,34% do total de parlamentares no país, de acordo com o TSE.

Lembremos de Ailton Krenak, em discurso durante a Constituinte, quando ele pintou a cara de jenipapo para reclamar os direitos indígenas.

Lembremos do cacique xavante Juruna, em 19 de abril de 1983, quando subiu ao plenário da Câmara Federal para um discurso histórico em homenagem ao Dia do Índio. “Eu não vim aqui fuxicar com ninguém, eu vim aqui para trabalhar, para defender o povo, eu vim aqui para lutar. Eu quero que gente trate índio brasileiro o mais possível dentro do melhor. Cada um de nós tem consciência e cada um de nós tem capacidade. Ninguém tem menos capacidade”.

Lembremos de Joênia Wapichana, advogada e a primeira deputada federal indígena, eleita em 2018, que lidera a frente parlamentar indígena no Congresso Nacional.

Ninguém pode defendê-los melhor do que eles mesmos, sem dúvida. E, com certeza, podem ser de grande ajuda no suporte dos parlamentares que lutam pelas causas indígenas.

Este ano, foram mais de duas mil candidaturas a prefeituras e à vereança que fortaleceram o movimento indígena. Aqui, relato apenas algumas vitórias que selecionei.

Senti uma felicidade gigante ao saber que a cidade de Marechal Thaumaturgo, no Acre (fronteira com o Peru), reelegeu o primeiro prefeito indígena de sua história e da história do Brasil: o professor Isaac Piyãko do povo Ashaninka.

O Cacique Marquinhos Xukuru é o novo prefeito do município de Pesqueira, em Pernambuco. Os advogados da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil “ainda estão trabalhando para derrubar a medida que o deixou inelegível”, mas o povo o quer na liderança da cidade, como se pode ver pelo vídeo publicado pelo DJ indígena Eric Marky, em seu Instagram. É emocionante! No final, trecho de um show, no início deste ano, em que Caetano dedicou Um Índio para o cacique.

Em Roraima, as cidades de Normandia e Uiramutã, ganharam prefeitos indígenas: são Dr. Raposo e Tuxaua Benísio (Rede), respectivamente. Benísio recebeu 2.066 votos, o que representa 42,49% do total.

Entre os vereadores eleitos no país, estão:
Indiara Pataxó (PROS), em Santa Cruz de Cabrália, Bahia;
Geovani Krenak (PSD), em Resplendor, Minas Gerais;
Lilia Karipuna (Republicanos) e Noel Henrique (PDT), no Oiapoque, Amapá;
Claudio Magalhaes (PCdoB), primeiro vereador indígena em Ilhéus, Bahia;
Rafael Indio (PSDB), do povo Guarani Nhandewa, em Santa Amélia, Paraná;
Weibe Tapeba (PT), reeleito vereador em Caucaia, interior do Ceará;
Lennon Corezomae (Pode), mestre e professor, do povo Balatiponé, em Barra dos Bugres, Mato Grosso;
Leonardo Xavante (PV), eleito em Santo Antonio do Leste, Mato Grosso.

O perfil da Mídia Ninja está publicando diariamente mais vereadores eleitos neste domingo.

Jovens e idosos, juntos?

Foto: montagem com imagens de perfis no Instagram

Fonte: Mídia Ninja, Apib, Instagram (Campanha de Mulher, Vereadores que Queremos, Pretas Pretos Poder)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “Diversidade nas urnas: indígenas, negros, trans, mandatos coletivos e mais mulheres entre os eleitos de 2020

  • 21 de novembro de 2020 em 3:38 PM
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    Em Santo Antônio do Pinhal-SP também elegemos o mandato coletivo Mutirão, o primeiro da cidade e talvez de toda a Mantiqueira.

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