Direito à delicadeza, à contemplação e à poesia

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Em conversas com pais e educadores, é muito comum sermos solicitadas a dar pistas, a orientar sobre como começar, sobre o que fazer para que eles possam oferecer às suas crianças uma infância saudável e feliz. Se a natureza é essencial para isso, como retomar esse contato com simplicidade?

Há várias formas de responder a essa questão e, para iniciar, nos inspiramos em um texto que o escritor e educador Rubem Alves divulgou há alguns anos na internet. Ele o conheceu durante congresso de educação, na Itália. Nele, são apresentados os dez direitos naturais das crianças, que reproduzimos abaixo, acompanhados de nossas reflexões:

1. DIREITO AO ÓCIO
Toda criança tem o direito de viver momentos de tempo não programado pelos adultos.

Perguntamos: Sua criança tem tempo livre para brincar todos os dias? 

2. DIREITO A SUJAR-SE
Toda criança tem o direito de brincar com a terra, a areia, a água, a lama, as pedras.

Com que frequência isso acontece na rotina de sua criança? Como você se sente e como reage quando ela se suja e se molha?

3. DIREITO AOS SENTIDOS
Toda criança tem o direito de sentir os gostos e os perfumes oferecidos pela natureza.

Como sua criança se abre para explorar os sentidos? Ela é livre para isso? Ela tem acolhimento quando expressa suas percepções sensoriais?

4. DIREITO AO DIÁLOGO
Toda criança tem o direito de falar sem ser interrompida, de ser levada a sério nas suas ideias, de ter explicações para suas dúvidas e de escutar uma fala mansa, sem gritos.

Como a sua criança é ouvida por você? Com tempo, foco e atenção? E por outros adultos, também próximos?

5. DIREITO AO USO DAS MÃOS
Toda criança tem o direito de pregar pregos, de cortar e raspar madeira, de lixar, colar, modelar o barro, amarrar barbantes e cordas, de acender o fogo…

Sua criança tem desfrutado desse direito? Como você reage a esse tipo de desafio? Ela é livre para explorar essas habilidades? Tem espaço e orientação seguros?

6. DIREITO A UM BOM INÍCIO
Toda criança tem o direito de comer alimentos sãos desde o nascimento, de beber água limpa e de respirar ar puro.

Como você lida com a qualidade do alimento que é oferecido às crianças? E quanto ao ar puro, o que é possível lhe oferecer desde o início?

o-direito-a-delicadeza-contemplacao-poesia2-foto-renata-stort7. DIREITO À RUA
Toda criança tem o direito de brincar na rua e na praça e de andar livremente pelos caminhos, sem medo de ser atropelada por motoristas que pensam que as vias lhes pertencem.

Como você participa da construção de uma cidade propícia para as crianças? Em seu bairro, há iniciativas de ocupação das praças com atividades para os pequenos?

8. DIREITO À NATUREZA SELVAGEM
Toda criança tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e árvores nas quais subir.

O que você entende por natureza selvagem? Onde existe natureza selvagem em sua região? Com que frequência você leva sua criança para conhecê-la e explorá-la? Deixa-a livre para usufruir desse espaço?

9. DIREITO AO SILÊNCIO
Toda criança tem o direito de escutar o rumor do vento, o canto dos pássaros, o murmúrio das águas.

Você já observou sua criança desfrutando desse silêncio interior para poder ouvir sons delicados e sutis?

10. DIREITO À POESIA
Toda criança tem o direito de ver o sol nascer e se por e de ver as estrelas e a lua.

E a contemplação? O sol, as estrelas, a lua estão à nossa disposição para os reverenciarmos todos os dias. Que tal “tirarmos as cortinas” das atividades cotidianas e abrirmos o cenário do mundo para que as crianças o contemplem e dele tirem suas percepções e conhecimentos, diretamente?

Que interessante! Estas sugestões são tão simples, tão simples, que até parecem inacessíveis. O bom é que, uma vez que tomamos consciência delas, fica fácil colocá-las em prática, você não acha?

Muito mais do que direitos da infância, estas dicas trazem elementos para a construção do ser humano pleno, com efeitos duradouros para toda a vida. E isso é o que realmente importa.

Fotos: Renata Stort

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Um comentário em “Direito à delicadeza, à contemplação e à poesia

  • 5 de novembro de 2017 em 11:14 AM
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    A vida é tão bela para que a criança venha descobrir o que tem dentro dela ,este momento de brincadeiras ao ar livre é necessário para que ocorra esta situação do descobrimento e de poder entender o porquê de muitas coisas.?

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