Dia da Terra: indígenas escrevem ‘Carta à Mãe Terra’ em nome de todos os povos tradicionais

A impossibilidade de estarem juntos, ao vivo, por mais um ano devido à pandemia, não impediu os povos indígenas de realizarem, por meio de suas entidades, mais uma edição do Acampamento Terra Livre, a maior mobilização indígena do Brasil, que marca o mês de abril desde 2004.

Assim, como em 2019, debates, rituais e manifestos estão sendo promovidos virtualmente.

Como parte de suas atividades, hoje, Dia da Terra, às 16h, o acampamento realizou um grande atotransmitido ao vivo e gravado – para “reafirmar nosso compromisso de luta, respeito e gratidão à Mãe Terra”, que foi complementado por uma linda carta endereçada à ela.

A carta-manifesto foi escrita pelos indígenas em nome de todos os povos tradicionais: indígenas, ribeirinhos, quilombolas, assentados e dos brasileiros nascidos e criados nessas comunidades.

Nela, eles lembram que “a luta pela Mãe Terra é a mãe de todas as lutas“.

É uma oração, um apelo, um pedido de desculpas e de perdão, uma declaração de confiança e de amor pela Terra e pelo futuro. Vale muito a leitura!

Leia o texto a seguir, na íntegra. Abaixo, o cartaz belíssimo desse encontro.

Carta à Mãe Terra

Querida Pacha Mama, generosa Mãe Terra, 

Estamos aqui reunidos neste ato para mais uma vez reafirmar nosso compromisso e disposição de defender-te até o último dos nossos suspiros.

Neste Dia da Terra, celebrado todo 22 de abril, lembramos de quão generosa tu és, quanta abundância tu fornece e quantos presentes tu oferece aos teus filhos e filhas.

Falamos em nome daqueles que te entendem como um ecossistema integrado, em que as dimensões física, biológica, espiritual e energética de nossas existências dançam de maneira harmoniosa, possibilitando que uma infinidade de seres usufrua da tua obra.

Falamos em nome daqueles que possuem contigo uma conexão mais íntima – os indígenas, os ribeirinhos, os quilombolas, os assentados, os nascidos e criados em populações tradicionais – e que estão habituados aos ciclos da semeadura e da colheita, que exige de nós compromisso, trabalho árduo, respeito à natureza e sabedoria.

Estamos atualmente sob um grande desafio – uma pandemia de proporções globais, causada pela maneira descuidada e pretensiosa com a qual lidamos com a criação.

Esta pandemia está levando nossos entes queridos, mas não só: ela está mudando nossa economia, nossa política e o funcionamento da sociedade que optamos ser alguns séculos atrás.

Já entendemos que o capitalismo não traz as respostas que queremos, e as soluções que precisamos – e por isso precisa ser substituído por outro modo de vislumbrar a existência

Cavamos em busca de ouro e minérios, destruindo tudo o que existe ao redor como se não houvesse amanhã – e sempre há.

Queimamos raízes, galhos e troncos, deixando cinzas e restos carbonizados onde antes havia cor e vida.

Deixamos que nossos santuários naturais sejam invadidos e vandalizados, causando feridas profundas em tua pele.

Poluímos as águas, desrespeitando os rios, lagos, mares e oceanos, assim como todos os seres que dependem delas.

Exterminamos os polinizadores e lançamos ao ar gases que condenam toda a vida.

Os sinais de nossa má atitude são evidentes: o clima mudou. Falta água para muitos; respirar é difícil em vários lugares; as frutas escasseiam; e muitos dos nossos são forçados ao deslocamento em busca de provisões e de melhores condições de vida.

Mas te pedimos, Generosa Mãe que cura – não desista de nós!

Perdoa aqueles que ainda não entenderam a força do sagrado feminino, a energia das mulheres e das contribuições que elas trazem às nossas lutas e vidas.

Perdoa aqueles que ainda advogam pela supremacia do homem sobre todas as outras formas de vida, sem entender que cada animal, cada planta, cada rio ou cachoeira, cada vale ou montanha, cada floresta ou cada savana, têm sua razão de ser.

Perdoa os teus filhos que ainda não entenderam que somos todos um só e que tudo está relacionado.

Perdoa teus filhos que ainda não entenderam que a vida se dá em ciclos – não há boa fortuna que não cobre seu preço, e não há tempo de fartura sem período de escassez. Por isso, o equilíbrio é fundamental.

Neste momento, com esta carta, prometemos a ti – com a força dos nossos maracá, jenipapo e urucum – lutarmos integralmente pela vida, fazendo dos nossos corpos árvores e, de nossos chãos, as últimas fronteiras na luta pela vida. 

Amada Mãe,

Acolhe os pedidos desses teus filhos que sabem que sem ti nada brota e nada cresce.

Ajuda-nos a conceber um pensamento decolonial coletivo, mais próximo das tuas demandas, mais horizontal em suas visões, que valorize devidamente todas as tuas manifestações. 

Apenas tu sabes do futuro que estamos fazendo por merecer. E confiamos no teu amor e na tua generosidade para nos guiar rumo a uma transformação restauradora, que alivie os sofrimentos e cure as feridas. 

Pedimos a tua compaixão e um pouco mais de paciência.

Estamos aqui, estamos por ti e somos todos um só!

Foto: Apib/Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta