‘Dia da Consciência Negra’ é marcado por mais uma morte brutal e leva brasileiros às ruas

Texto atualizado em 22/11/2020 para incluir informações sobre o histórico de casos de violência racial na rede de supermercados Carrefour, além de dois outros episódios registrados em 2017 e este ano.
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Toda vez que vejo campanhas contra o racismo e antirracistas, sinto vergonha: não deveria mais ser necessário explicar porque esse tipo de visão não cabe mais neste mundo. A sociedade ainda mede capacidade, merecimento e respeito pela cor da pele e, assim, o racismo é naturalizado. Como acontece com a desigualdade de gênero.

Mas o resultado surpreendente das eleições municipais de 2020 já parece uma boa resposta. Como noticiei aqui, no site: mais negros, mulheres, trans e mandatos coletivos foram eleitos. Também mais indígenas e quilombolas. Alguns reeleitos. Com mais um detalhe: candidatas negras e trans estão entre as mais votadas para a Câmara Municipal de algumas capitais como São Paulo e Belo Horizonte.

Demorou, mas 2021 terá mais representatividade! E muito trabalho. As reações negativas à presença de negros na política já começaram, como conto no final deste post.

A julgar pelo crescimento da violência e pela insistência em se negar o racismo, todo movimento é pouco e enfatiza a importância do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. E o de hoje, infelizmente, ficou marcado por uma notícia hedionda.

Ontem, um homem negro, de 40 anos, foi espancado e asfixiado até a morte por dois seguranças brancos – um deles, da Polícia Militar – no estacionamento do supermercado Carrefour, na zona norte de Porto Alegre – estabelecimento reincidente em atos racistas. Uma funcionária do estabelecimento parecia apoiar a ação, que registrava com seu celular. E outras pessoas filmaram a violência, friamente, o que poderá servir como prova e ajudar a condenar os seguranças.

Se faltava um grande motivo para mobilização, esta morte brutal na véspera deste dia especial – criado em 2003 pra promover a reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira e combater o racismo sistêmico e estruturalo Dia da Consciência Negra– foi o estopim.

E o dia ainda foi marcado pela declaração infeliz do vice-presidente, Hamilton Mourão. Questionado por um repórter sobre o episódio, ele disse que lamentava a morte de João Alberto Silveira Freitas, mas acrescentou: “Pra mim, não existe racismo! É uma coisa que querem importar aqui no Brasil”.

São declarações como esta que perpetuam o racismo, general!

Mobilização e justiça

Foto: Reprodução

João Alberto – conhecido como Beto – morreu porque não conseguia respirar como o americano George Floyd, em maio deste ano, em Minneapolis, Estados Unidos (atacado por um policial branco), e o carioca Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga, de 19 anos, em fevereiro do ano passado, no supermercado Extra, do Grupo Pão de Açúcar, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro (morto por seguranças, na presença da mãe). 

Logo após o homicídio, o Carrefour teve que fechar as portas sob gritos inflamados de “assassinos” e “racistas”. Protestos virtuais se espalharam pelas redes sociais acompanhados das hashtags #CarrefourRacista #VidasNegrasImportam #justiçaporbeto #DiaDaConsciênciaNegra e continuam firmes.

Movimentos sociais convidaram cidadãos de algumas capitais para se unirem e irem às ruas. Logo muita gente se mobilizou e aderiu aos protestos pelas ruas e em unidades da rede de supermercados. Não só em Porto Alegre, como também em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, entre outras cidades. E não só negros, o que é muito importante para o fortalecimento do movimento antirracista.

Manifestação em Porto Alegre / Foto: Oliven Rai
Manifestação em Porto Alegre / Foto: Oliven Rai
Manifestação em Porto Alegre / Foto: Oliven Rai
Protesto em Brasília / Foto: Rodrigo Pilha/Mídia Ninja
Protesto no Carrefour, no Rio de Janeiro / Foto: Mídia Ninja
Manifestação em frente ao Carrefour de Porto Alegre / Foto: Reprodução de Vídeo
Protesto em Carrefour de Curitiba / Foto: Guilherme Bittar/Mídia Ninja

Personalidade e celebridades se manifestaram em suas redes sociais. Logo que acordou e tomou conhecimento do assassinato de Beto, Monja Cohen gravou depoimento e divulgou em suas redes sociais.

A Coalizão Negra por Direitos convidou a população a boicotar o Carrefour em todo o país. É uma das formas mais eficazes de protesto contra empresas e marcas. Essa organização reúne diversas entidades e movimentos de luta pelos negros, negras e indígenas, e tem uma campanha muito bacana: Alvos do Genocídio.

Outros movimento também aderiram ao boicote e a hashtag #boicotenacionalaocarrefour logo ganhou espaço nas redes sociais.

O Ministério Publico Estadual divulgou nota à imprensa afirmando que “todas as medidas necessárias para o esclarecimento das circunstâncias serão tomadas na tarefa de prontamente levar o caso à Justiça para a responsabilização dos agressores”.

A Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul se pronunciou por meio de uma nota de repúdio: “Morreu. Morreu porque era negro”. E acrescentou: “É inadmissível que um brutal homicídio nas condições visualizáveis, com nítidos contornos racistas, seja tolerado em um Estado Democrático de Direito. Os fatos exigem da sociedade gaúcha explícitas e públicas manifestações de indignação, frente ao nítido crime de ódio perpetrado por dois homens brancos”.

A candidata à prefeitura Manuela D’Ávila lamentou a morte de Beto em suas redes sociais: “No dia da consciência negra, um grito por justiça. Não é possível calar frente ao racismo que mata milhares de pessoas negras diariamente”. E lembrou dos negros eleitos vereadores: “A bancada negra, que ocupará a Câmara, está no Carrefour cobrando responsabilização e prestando solidariedade à família da vítima”.

No final da tarde, manifestantes ocuparam a entrada da unidade do Carrefour onde o homicídio aconteceu e obrigaram o gerente a se comprometer com seu fechamento.

Querem Justiça e que a empresa tome providências mais drásticas: a demissão do CEO. Disseram, também, que não sairiam de lá até que o último funcionário fosse embora. E que o lucro com as vendas realizadas hoje será destinado para organizações e movimentos negros (assisti a uma transmissão ao vivo feita pela Mídia Ninja diretamente do supermercado; me lembrou um pouco os protestos contra a morte de Floyd, nos EUA).

Ao sair do supermercado, a manifestação pacífica seguiu em caminhada até o Estádio Passo D’Areia São José – conhecido como Estádio do Zequinha, que era “o clube de coração do Beto”. Mas uma parte do grupo se manteve no local e ateou fogo à grade de proteção na entrada principal do estabelecimento, que estava cercado pela polícia. Também pelo Batalhão de Choque. O confronto foi inevitável.

(assista ao vídeo da Mídia Ninja).

Reincidência

De acordo com a organização Geledés, desde 2019 a rede de supermercados Carrefour protagoniza casos de violência racial, mas “apesar das inúmeras manifestações e denúncias dos movimentos negros sobre as práticas racistas, a situação ocorrida no último dia 19 de novembro reafirma a existência de um padrão institucionalizado de desrespeito e violência destinado à população negra, sem possibilidade de reversão”.

Em seu site, a Geledés publicou uma linha do tempo que apresenta os casos registrados desde 7 de agosto de 2009.

Soma-se a essa lista, o episódio relatado por uma juíza titular do Tribunal de Justiça do Rio, que, ao saber da morte de João Alberto, relembrou a tortura e o estupro de uma mulher negra e pobre nas dependências de uma loja do Carrefour, no Rio de Janeiro, depois de flagrada furtando comida.

Em agosto deste ano, um fato bizarro e desumano também foi registrado em supermercado da mesma rede, em Recife: um homem que trabalhava numa empresa fornecedora teve um infarto e faleceu na loja, mas seu funcionamento não foi interrompido pelo gerente. O corpo foi escondido por guarda-sóis e permaneceu assim, por horas, até a chegada de funcionários do Instituto de Medicina Legal. Em nota, o estabelecimento declarou que ‘protocolos para que as lojas sejam fechadas quando fatalidades como essa aconteçam já foram alterados’.

Este último caso não envolve racismo, mas também reforça o despreparo e a falta de empatia que caracteriza o cotidiano nas lojas da rede Carrefour, em qualquer parte do país.

Injúria racial e ameaças de morte nas eleições

Nas eleições, nem tudo foi tranquilo. A vitória de candidatos negros rendeu comentários racistas e até ameaças de morte.

Em Porto Alegre, cinco vereadores negros foram eleitos e, segundo a Folha de SP, a reação do candidato a prefeito Valter Nalgelstein (PSD), em audio pela internet, foi considerada racista. “Muitos deles jovens, negros. Vereadores esses sem nenhuma tradição política, sem nenhuma experiência e nenhum trabalho e pouquíssima qualificação formal”.

Em Joinville, maior colégio eleitoral de Santa Catarina, Ana Lúcia Martins (PT), primeira vereadora negra eleita, foi ameaçada de morte. Logo que começou a apuração dos votos, a candidata teve seu perfil no Instagram invadido. Em seguida, pelo Twitter, começaram as ameaças.

Em uma delas, ódio e preconceito: “Agora só falta a gente matar ela e entrar o suplente, que é branco”. “Também disseram que fascistas mandam e que ela precisa se cuidar”, contou sua advogada Andreia Indalencio Rochi à Folha.

A delegada Cláudia Cristiane Gonçalves de Lima, da Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (Dpcami) disse que “existe indício de que os autores pertençam a uma célula de um grupo neonazista em Joinville. Estamos fazendo diligências para identificar. Já vislumbramos nomes, mas a investigação está em andamento”.

O caso está sendo investigado como injúria racial e ameaças de morte.

“Vai acontecer comigo o que aconteceu com a Marielle. E eu me perguntava, gente, mas eu nem assumi o mandato”, disse Ana em reunião com assessores, logo depois das ameaças. Ana se referia à Marielle Franco, vereadora assassinada junto com seu motorista, Anderson SSSS, em março de 2018. Sua trajetória deve incomodar muita gente.

Ela foi servidora pública e professora, participa de movimentos sociais desde a adolescência e é uma das lideranças que defendem os direitos das mulheres, da população e das mulheres negras, dos imigrantes e de comunidade periféricas de Joinville. “Ninguém vai nos impedir de ocupar este lugar”.

Foto (destaque): Paulo Pinto/Fotos Públicas

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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