Desvendado mistério da morte de 330 elefantes no Delta do Okavango, em Botsuana

O mistério começou em março, quando os primeiros elefantes foram encontrados mortos no vasto Delta de Okango, no interior de Botsuana, na África, por conservacionistas que sobrevoavam a região de Serong.

Ao todo, morreram cerca de 330 animais. As investigações foram cercadas de polêmica como contamos aqui, em julho. Primeiro, suspeitou-se de caçadores, que poderiam ter envenenado a água disponível para extrair as presas dos animais, mas logo essa ideia foi descartada. Ninguém se aproximou deles e as presas continuaram intactas.

Os pesquisadores alertaram para a morosidade com que o governo encaminhou o assunto, mas não havia mais nada a fazer do que aguardar os resultados dos exames. E eles começaram a ser divulgados no final de julho, ainda com algumas outras hipóteses. Falamos disso em agosto.

Até que, no final de setembro, após meses de investigações e testes realizados em laboratórios de vários países – Estados Unidos, África do Sul, Zimbábue e Canadá – o Departamento de Vida Selvagem e Parques Nacionais informou que os elefantes consumiram água contaminada por “uma eflorescência tóxica de cianobactérias”, o que provocou distúrbios neurológicos.

Como contamos em julho, “alguns elefantes ainda vagavam pela região, aparentando fraqueza, letargia e cansaço, além de sinais de desorientação e dificuldades para caminhar”.

A água contaminada estava em reservatórios sazonais na região. Os elefantes pararam de morrer quando esses reservatórios secaram completamente.

Mais mistério

Mas ainda há um mistério rondando o caso. Em coletiva de imprensa, em Gaborone, Cyril Taolo, diretor interino desse departamento, contou que nenhuma outra espécie que vive na região foi contaminada. Nem as hienas e os abutres, que se alimentaram dos elefantes, apresentaram sinais da doença.

Mmadi Reuben, veterinário-chefe do mesmo departamento, destacou: “Ainda temos muitas questões a serem respondidas: por que apenas os elefantes, e por que apenas naquela área? Há uma série de hipóteses que ainda estamos investigando”.

O governo declarou que as pesquisas sobre a bactéria mortal continuam, e garantiu que será instituído um plano de monitoramento de reservatórios de água sazonais de forma a rastrear possíveis incidentes como esse no futuro e evitar mortes.

Bactérias e aquecimento global

Também conhecidas como algas azuis, as cianobactérias são organismos microscópicos muito comuns na água, que também podem ser encontrados no solo. Algumas produzem neurotoxinas, mas nem todas são tóxicas.

Contudo, cientistas alertam que estão cada vez mais frequentes as variedades de cianobactérias perigosas para os seres humanos e os animais. Isto se deve às mudanças climáticas, que aumentam as temperaturas do planeta.

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, na África Austral (também conhecida como África Meridional, que fica no sul do continente é banhada pelo Oceano Índico na costa oriental e pelo Atlântico na costa ocidental), as temperaturas têm subido duas vezes mais que a média global.

As águas mais quentes favorecem o fenômeno da eflorescência tóxica, que invadiu as águas do Delta de Okavango.

Fotos: National Park Rescue/Facebook (destaque) e Reprodução

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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