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Desmatamento no Brasil cai 11,6%, em 2023, revela relatório anual do MapBiomas

MapBiomas* divulgou hoje (28) seu Relatório Anual do Desmatamento (RAD) no Brasil, com uma notícia boa e outra ruim. A boa aponta a primeira queda do desmatamento no Brasil desde 2019, quando foi iniciada a publicação do RAD. A ruim indica que “a cara do desmatamento está mudando no país: se concentrando nos biomas onde predominam formações savânicas e campestres e reduzindo nas formações florestais”, diz Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas em nota.

Mais da metade da área desmatada no Brasil, em 2023, ocorreu no Cerrado, o segundo maior bioma. Essa foi a primeira vez que (desde o início da série histórica do MapBiomas, em 2019) o Cerrado ultrapassou a Amazônia em desmatamento. 

Outro dado importante: quase todo o desmatamento do país (97%), nos últimos cinco anos, ocorreu devido à expansão agropecuária. Nesse período, o Brasil perdeu 8.558.237 hectares de vegetação nativa, o que equivale a duas vezes o estado do Rio de Janeiro. 

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Em 2023, o desmatamento caiu 11,6%, com 1.829.597 hectares de vegetação nativa suprimida. No ano anterior, foram 2.069.695 hectares. E vale observar que essa redução aconteceu, mesmo com um aumento de 8,7% no número de alertas.

Os estados no ranking do MapBiomas

Esta é a primeira vez que o estado do Maranhão ganha a liderança, indo da 5ª para a primeira posição em área desmatada, com 331.225 hectares: aumento de 95,1%. A Bahia ficou 2º lugar, com 290.606 hectares e crescimento de 27,5%. O 3º no ranking foi o Tocantins, com 230.253 hectares e de 177,9%, em relação a 2022.

Pará e Mato Grossolíderes históricos – registraram queda de 60,3% (184.763 hectares) e de 32,1% (161.381 hectares).

“Essa mudança se refletiu também no tipo de vegetação suprimida”, conta o MapBiomas. “Em 2023, pela primeira vez, houve o predomínio de desmatamento em formações savânicas (54,8%) seguido de formações florestais (38,5%) que predominaram nos quatro primeiros anos do levantamento”.

A instituição ainda ressalta que a liderança do Cerrado em área de desmatamento se reflete em outros indicadores. O maior alerta do Brasil aconteceu nesse bioma, com área de 6.691 hectares, no município do Alto Parnaíba (MA). E lá também foi detectado o alerta de maior velocidade média diária de desmatamento, sendo 944 hectares em 8 dias, no município de Baixa Grande do Ribeiro (PI).

O município baiano de São Desidério, dominado pelo Cerrado, lidera o ranking dos municípios que mais desmataram no país em 2023, com 40.052 hectares. 

Áreas Protegidas

No ano passado, a supressão de 20.822 hectares de vegetação nativa aconteceu em terras indígenas, representando 1,1% de todo o desmatamento nesse período. A redução da devastação ocorreu em mais de 27% das TIs, na comparação com 2022.

Em unidades de conservação (UCs), 96.761 hectares de vegetação nativa foram suprimidos, o que representa queda de 53,5%, em 2023. 

Já em UCs de Proteção Integral, a redução foi bem maior: 72,3%. A maior devastação em UCs ocorreu em Áreas de Proteção Ambiental (APA) estaduais no Cerrado, totalizando 41.934 hectares. E a APA mais desmatada também está no Cerrado: APA do Rio Preto, com 13.596 hectares desmatados.

“É no Cerrado que fica a Terra Indígena (TI) com maior área desmatada no país em 2023: Porquinhos dos Canela-Apãnjekra, com cerca de 2.750 hectares suprimidos. Ao todo, foram perdidos 7.048 hectares de vegetação nativa em TIs no Cerrado, um aumento de 188% em relação a 2022. Em todo o Brasil, ao contrário, houve queda no desmatamento em TIs”, destacou o MapBiomas.

Agora, vejamos o cenário em cada bioma brasileiro:

Cerrado

No ano passado, 61% do desmatamento ficou concentrado no Cerrado, com 1.110.326 hectares devastados, representando 68% de aumento em relação a 2022. Já a Amazôniaregistrou 25%, com 454,3 mil hectares e queda de 62,2% em relação a 2022.

Nos estados do Maranhão, Tocantins, Goiás, Pará e Distrito Federal, o desmatamento mais que dobrou em relação a 2022. A exceção ficou com Piauí, São Paulo e Paraná.

O Cerrado já perdeu mais da metade da vegetação nativa, tornando-se protagonista do desmatamento no país, destaca Ane Alencar, coordenadora do MapBiomas Cerrado, que ainda lembra do impacto desse bioma nos demais:

“O Cerrado é um bioma estratégico no que diz respeito à questão hidrológica e o desmatamento do bioma tem um impacto grande na questão hídrica. Várias bacias que nascem no Cerrado banham outros biomas, então, nesse sentido, o desmatamento e a perda do Cerrado representam grande impacto para os outros biomas”.

Os números são impressionantes! Em 2023, a área média desmatada no país foi de 5.013 hectares por dia ou 228 hectares por hora. E mais da metade ocorreu no Cerrado, onde, diariamente, foram devastados 3.042 hectares de vegetação nativa, que representa mais que o dobro da devastação na Amazônia: 1.245 hectares por dia ou cerca de 8 árvores por segundo.

E o MapBiomas ainda detectou o dia em que, no país, ocorreu o maior desmatamento no ano passado: foi 15 de fevereiro. Nesse dia, em apenas 24 horas, foi destruída uma área equivalente a quase seis mil campos de futebol! É difícil, até, de imaginar.

Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia

Amazônia e Cerrado são os dois maiores biomas do país e, juntos, totalizaram mais de 85% de área desmatada. 

Nesse cenário, apenas quatro estados com Cerrado – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que formam a região conhecida como Matopiba -, ultrapassaram o desmatamento na Amazônia, respondendo a quase metade (47%) da perda de vegetação nativa em 2023. 

Desses estados, apenas o Piauí teve redução do desmatamento, enquanto nos demais, a devastação cresceu. Nesse período, Matopiba perdeu 858.952 hectares de vegetação, o que representa aumento de 59% em relação a 2022, ano que já havia registrado aumento (36%) em relação a 2021. 

Mais: no ano passado, três em cada quatro hectares desmatados no Cerrado (74%) ocorreram na região do Matopiba. Dos 50 municípios que mais desmataram no Brasil, 33 são no Cerrado. E Anne Alencar alerta:

“O combate ao desmatamento no Cerrado exige abordagem multifacetada. Primeiro, é essencial distinguir claramente o que é legal e ilegal, para que as ações de fiscalizaçãopossam efetivamente inibir o desmatamento ilegal. Ao mesmo tempo, devemos oferecer incentivos para o melhor aproveitamento das áreas já desmatadas, reduzindo a pressão sobre novas áreas e reduzindo, portanto, o desmatamento legal”.

Para a especialista, o aumento do desmatamento no Cerrado parece ser o resultado de uma percepção de que tudo pode ser legalizável no bioma. “Temos que entender que não é porque a reserva legal é menor no Cerrado que todo o desmatamento vai ser legal. Na realidade, precisamos, sim, ter claramente o número da ilegalidade para que as ações de comando e controle possam ser efetivas, assim como as ações de desestímulo à abertura de novas áreas também”.

Amazônia

Em 2023, o bioma registrou redução de 62,2% no desmatamento, que ocorreu em todos os estados, com exceção do Amapá, onde cresceu 27%. 

Na região conhecida como Amacro – que reúne Amazonas, Acre e Rondônia -, que já foi considerada a principal frente de desmatamento no Brasil -, também houve queda (74%): 102.956 hectares.  

Em 78% dos municípios que compõem o bioma (436 dos 559), foi detectado algum desmatamento. Nos 10 municípios mais desmatadores de outros rankings, houve queda. E, entre os 50 mais devastados em 2023, estão 13 que integram a lista de municípios do bioma considerados prioritários (Portaria GM/MMA 834 de 2023), todos com queda de áreas desmatadas em relação a 2022.

Em nota, Larissa Amorim, coordenadora do MapBiomas Amazônia, destaca que “houve redução no tamanho médio dos alertas e na área desmatada na maioria dos estados, incluindo a crítica região do Amacro. Por outro lado, observa-se um possível deslocamento deste desmatamento, que está crescendo em outros biomas, particularmente no Cerrado, que apresentou a maior área desmatada no Brasil em 2023”.

Pantanal

O bioma registrou a maior área média de desmatamento entre os biomas (158,2 hectares) e aumento de 59,2% em comparação com 2022. Ao todo, no ano passado, foram suprimidos 49.673 hectares de vegetação. E, pelo terceiro ano consecutivo, o Pantanal registrou a maior velocidade média de desmatamento: 2,1 hectares/dia, por evento.

73% do desmatamento se deu em formações florestais e savânicas e quase toda a devastação (99%) ocorreu em áreas privadas registradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

“O município de Corumbá (MS) responde por 60% do território do Pantanal e por metade do desmatamento registrado no bioma no ano passado. É também o quinto município que mais desmatou no Brasil em 2023. Mais da metade (52%) do desmatamento do Mato Grosso do Sul está no Pantanal, bioma que representa menos de um terço do território do estado”, destacou o MapBiomas.

Também em nota, Eduardo Rosa, coordenador do MapBiomas Pantanal, destaca que “o desmatamento de florestas e savanas para a formação de pastagem exótica acontece em grande escala. A preservação das áreas florestadas e o manejo das pastagens são fundamentais para a manutenção da biodiversidade de fauna e flora, em conjunto com os sistemas tradicionais de pecuária do Pantanal”.

Mata Atlântica

12.094 hectares de Mata Atlântica foram desmatados no ano passado, o que representa queda de 59% em relação a 2022, que se deu em todos os estados que compõem o bioma. 

Em Minas Gerais, o desmatamento caiu 60% (mais de 7 mil hectares); na Bahia, 53%; no Paraná, de 71%. Mas, por outro lado, dos 10 municípios mais desmatadores da Mata Atlântica, os dois primeiros ficam na Bahia e os oito restantes em Minas Gerais.

Natalia Crusco, coordenadora do MapBiomas Mata Atlântica, revela que “a agropecuária ainda é o principal vetor de desmatamento no bioma, seguida pela expansão das cidades. Em 2023, observamos áreas devastadas por desastres naturais causados pelas chuvas em São Paulo e por mineração em Minas Gerais”.

Caatinga

Mais de 1/5 quinto dos alertas validados em todo o país, no ano passado, vieram da Caatinga, bioma que respondeu por 11% do desmatamento total: 201.687 hectares, que representa aumento de 43,3%. 

87% dos municípios que compõem o bioma (1.047 de 1.209) tiveram, pelo menos, um evento de desmatamento.

A Bahia é líder com 93.437 hectares: aumento de 34% em relação a 2022. Em segundo lugar, está o Ceará, com 32.486 hectares: crescimento de 28%. Em terceiro, o Rio Grande do Norte, estado que registrou o maior aumento: 9.133 hectares (62%). 

Pernambuco foi o único que apresentou redução na supressão de vegetação nativa: 15.996 hectares ou queda de 35% em relação a 2022.

Washington Rocha, coordenador do MapBiomas Caatinga, conta que “o maior desmatamento verificado na Caatinga foi impulsionado pela expansão de atividades agropecuárias, principalmente na fronteira agrícola do Matopiba. Um exemplo é o município de Barra, na Bahia, onde há registro do maior desmatamento e alerta no bioma. Um fenômeno que capturamos é o desmatamento para fins de implantação de parques solares e eólicos crescendo pelo bioma”.

Importante: mais de 4.302 hectares foram desmatados por empreendimentos de energia renováveis, como eólica e solar.

Pampa

A queda do desmatamento no Pampa foi de 50%, com 1.547 hectares. Dos 231 municípios que compõem o bioma, em 97 (42% do total) foi detectado algum desmatamento. Em 5 deles, foi registrada mais da metade (51%) do total desmatado no bioma. 

Mais de 77,7% da devastação ocorreu em áreas de formações florestais e 21,9%, de formação campestre. No entanto, o MapBiomas explica que seus atuais sistemas de detecção no Pampa estão calibrados para a supressão das florestas e, que o monitoramento da vegetação campestre (nativa, típica e predominante no bioma) ainda não é eficiente.

A seguir, assista ao lançamento do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD) 2023:

*O MapBiomas é uma rede colaborativa, formada por ONGs, universidades e startups de tecnologia, que mapeia, anualmente, a cobertura e o uso da terra, além de monitorar a superfície de água e “cicatrizes” de fogo mensalmente, com dados desde 1985.
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Com informações da Agência Brasil e G1

Foto: Adriano Gambarini para WWF Brasil

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