Descoberta nova espécie de louva-a-deus em região de Mata Atlântica do Rio de Janeiro

Descoberta nova espécie de louva-a-deus em região de Mata Atlântica do Rio de Janeiro

Há 2.500 espécies de louva-a-deus no mundo inteiro. O Brasil possui a maior diversidade delas, cerca de 250. E agora, pesquisadores adicionaram uma nova para essa lista: o Vates phoenix, primeira espécie Vates encontrada na Mata Atlântica. Até então, elas só tinham sido observadas na Amazônia.

A descoberta – e os anos de estudo necessários para que fosse comprovada que esta era realmente uma nova espécie de louva-a-deus -, foi feita por um grupo de biólogos do Rio de Janeiro do Projeto Mantis*, com a ajuda do cientista peruano Julio Rivera, um dos maiores especialistas mundiais em louva-a-deus.

A primeira vez que os pesquisadores brasileiros se depararam com o Vates phoenix foi em 2016. Encontraram dois indivíduos machos, durante uma expedição pela Mata Atlântica no município de Valença, no interior do Rio de Janeiro. Os biólogos Leonardo Lanna e João Herculano não conseguiram identificá-los, então recorreram à ajuda de Rivera, que suspeitou que ali poderia estar uma nova espécie.

Descoberta nova espécie de louva-a-deus em região de Mata Atlântica do Rio de Janeiro

As fêmeas têm o segundo par de asas com extensa
área branco-amarelada e parcialmente opaca

Em 2017, para poder fazer comparações e análises e a possível descrição da descoberta, os pesquisadores emprestaram do Museu Nacional uma caixa com 13 louva-a-deus do gênero Vates, mas havia apenas uma fêmea do gênero (meses depois, em setembro de 2018, um incêndio destruiria a maior parte de seu acervo – 20 milhões de itens, entre eles, mais de 5 milhões de insetos da coleção entomológica).

A fêmea havia sido coletada em maio de 1935 no Jardim Botânico do Rio. “Porém, o animal estava antigo e fora fixado de forma imprópria, escondendo algumas características importantes para uma descrição detalhada”, contam os biólogos.

Mas aí aconteceu uma ajudinha do destino em 2018. “Enquanto caminhava pelo arboreto do Jardim Botânico, nossa orientadora, Malu, encontrou um louva-a-deus cruzando o caminho. Quando ela nos chamou pra ver, mal acreditamos: se tratava exatamente da espécie nova que estávamos descrevendo, e dessa vez, era uma fêmea. No mesmo mês de maio, no mesmo local e 83 anos depois, a fêmea de Vates phoenix reapareceu”, revelam.

Há dois meses, em janeiro de 2020, depois de quatro anos de pesquisas, foi feita finalmente a descrição científica da nova espécie, em artigo divulgado na publicação European Journal of Taxonomy.

Vates phoenix : uma homenagem ao Museu Nacional

A nova espécie de louva-a-deus, endêmica da Mata Atlântica (ou seja, não existe em nenhum outro lugar do mundo), pode ser observada nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, em altitudes que variam de 7 a 600 metros. 

O louva-a-deus brasileiro tem uma pequena coroa e uma camuflagem entre folhas verdes e ramos de árvore, o que o torna quase invisível em meio à floresta.

“Apesar dos registros da espécie em diversas localidades, pouco sabemos sobre seu habitat, ou seja, onde encontrá-los na floresta. De todos os gêneros já observados por nossa equipe, esse é o único que nunca vimos em seu ambiente natural”, destacam os pesquisadores. “Onde encontrar um Vates phoenix selvagem segue um mistério. Acreditamos que possivelmente eles tenham preferência pelas copas das árvores, longe de nossos olhares… e buscas”.

Descoberta nova espécie de louva-a-deus em região de Mata Atlântica do Rio de Janeiro

O louva-a-deus brasileiro tem cerca de 6 cm de comprimento

O nome científico para batizar a nova espécie – phoenix -, é uma homenagem ao Museu Nacional do Rio de Janeiro. Segundo a mitologia, fênix era uma ave única de sua espécie, que após viver 300 anos, ardia em chamas para, em seguida, renascer das próprias cinzas.

“O Museu Nacional representa pra nós, e pra muitos pesquisadores, a história biológica e da ciência no Brasil. O incêndio foi um marco que extinguiu para sempre parte dessa história. Como parte dos indivíduos usados para a descrição da espécie veio do museu, ficou evidente que o nome deveria prestar essa homenagem”, afirma Leonardo Lanna, em entrevista ao Conexão Planeta. “Toda nossa coleção, assim como essa espécie, tem como destino final o museu. A espécie representa o renascimento da coleção de louva-a-deus.

O louva-a-deus

O nome louva-a-deus se origina da pose característica desses insetos, principalmente dos maiores, que juntam as pernas da frente (em forma de garrinha) de forma que parecem estar orando. “Em quase todas as línguas, seu nome remete a algo religioso ou espiritual. É um inseto cheio de simbolismos”, explica Lanna.

O biólogo explica que o louva-a-deus é um dos grandes predadores do mundo dos insetos, se alimentando de outros menores, incluindo aqueles que podem ser pragas. E também são alimentos para bichos maiores, como aves e anfíbios. “O louva-a-deus faz parte do ciclo de uma floresta saudável e não se adapta tão bem a ambientes muito urbanizados, normalmente vivendo em parques verdes dentro das cidades”, diz.

Lanna revela ainda que pode existir uma infinidade de possibilidades que estudos futuros, mais aprofundados, sobre de louva-a-deus, possam trazer. “Sabe-se, por exemplo, que uma espécie chinesa é capaz de ingerir lagartas muito venenosas sem ter problemas – o organismo dela absorve os nutrientes da lagarta e expele o veneno nas fezes. Esse mecanismo pode vir a servir para estudos sobre novas moléculas para a indústria farmacêutica”, acredita.

Descoberta nova espécie de louva-a-deus em região de Mata Atlântica do Rio de Janeiro

Os machos apresentam segmentos da antena assimétricos (em forma de S)

*O Mantis é um projeto de pesquisa, conservação e documentação de vida selvagem em florestas tropicais, tendo o louva-a-deus como símbolo e animal de pesquisa. A expedição da Mata Atlântica, durante a qual o Vates Phoenix foi descoberto, teve o apoio da National Geographic Society.

Fotos: divulgação Projeto Mantis

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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