Depois de quase três meses de quarentena, o biólogo e documentarista Ricardo Gomes mergulha na Baía de Guanabara e flagra espécies raras

Ricardo Gomes mergulha na Baía de Guanabara desde a década de 80; profissionalmente, desde 1989. É quase seu habitat natural. Conhece o fundo daquelas águas como ninguém. E a ama tanto que, quando a difamaram – principalmente durante os Jogos Olímpicos de 2014 – ele tratou logo de desmentir os boatos, na prática. Mergulhou, filmou, registrou a biodiversidade local e fez o documentário Mar Urbano, que encantou o órgão da ONU para o desenvolvimento, UNDP – United Nations Development Programme, seu apoiador até hoje.

Três anos depois, em junho de 2017, lançou mais um filme lindo – Baía Urbana -, desta vez na Conferência Internacional sobre Oceanos da ONU, em sua sede, em Nova York. Escrevi sobre o documentário, aqui no Conexão Planeta, absolutamente encantada.

Quando a pandemia chegou ao Brasil e a quarentena nos confinou em casa, Ricardo sabia que sentiria saudades dos mergulhos e de toda diversidade que lá habita, mas se manteve firme e forte, comprometido no isolamento. “Respeitei a quarentena não só por mim, mas também por aqueles que não podem ficar em casa. Minha esposa é enfermeira e ela se contaminou com COVID logo no início da quarentena, tratando de doentes infectados. Seria um desrespeito enorme a todos não levar isso em consideração”, conta o diretor do Instituto Mar Urbano, dedicado à preservação dos ecossistemas marinhos costeiros.

Milagre da natureza? Não, ilusão

Em abril, acompanhou as notícias que se espalharam rapidamente devido a vídeos feitos por transeuntes que mostravam águas tão cristalinas na baía, que até dava pra ver tartarugas nadando, felizes. O biólogo sabia que tais manifestações não passavam do desejo de se acreditar num “milagre da natureza”, mas eram ilusão.

“As pessoas viram tartarugas na baía da Glória, na Praia do Flamengo e ficaram empolgadas, como se a trégua compulsória tivesse resolvido o problema da poluição. Mas, na realidade, não foi nada disso! Todo o esgoto continua sendo jogado quase sem tratamento na Baía de Guanabara. Não adianta a gente ter quase 100% de saneamento em Niterói e, em São Gonçalo, que está do lado e tem um milhão de habitantes, ter só 3% de saneamento!”.

Ele explica o fenômeno: “As notícias foram uma espécie de fakenews do bem, de tanto que as pessoas desejavam acreditar num milagre. A água estava transparente, sim, mas isso já aconteceu em 2016, quando ondas fortíssimas derrubaram a ciclovia da Avenida Niemeyer. Naquela época, também entrou muita água limpa na baía. No dia em que a ciclovia caiu, eu fiz o melhor mergulho de todos para terminar o documentário Baía Urbana. Consegui filmar embaixo das barcas na Praça XV”.

Portanto, o que deixou a água da Baía de Guanabara, da Enseada de Botafogo e de outros pontos limpa foi o encontro de duas grandes ressacas com ondas de mais de três metros de altura, além dos ventos, que jogaram a água limpa do oceano para dentro da baía, e de uma maré de lua cheia maior do que o normal. “Isso acontece em alguns momentos. Desta vez, muita gente viu porque estava confinada”. Ao sair de casa, prestaram mais atenção à paisagem.

A vida persiste e insiste

Ricardo ainda lembra que a Baía de Guanabara renova 50% de suas águas a cada 12 dias devido ao movimento das correntes e das marés. “Quando a gente tem maré mais forte, com ondulações maiores, uma corrente forte, acontece a renovação dessa água”. E completa, dizendo que não quer desanimar ninguém:

“Não foi por conta da quarentena que as pessoas viram aquela água super limpa nem as tartarugas, mas claro que isso é motivo de alegria. Afinal, apesar da água contaminada e de toda a poluição, de todo o esgoto não tratado que é jogado na baía, os animais continuam ali. É pra ficarmos esperançosos, sim, porque apesar de tudo, a vida persiste e insiste”. 

Mais uma vez, ele destaca a importância de se promover o saneamento nos municípios onde ele é quase inexistente, cobrar governos… “Aí, sim, a gente vai resolver o problema. Se a gente faz a nossa parte, a Baía faz a dela. Se promovermos o saneamento básico, vamos ver uma melhora absurda em nível de biodiversidade, de balneabilidade, vai ser um investimento que mudará a vida do cidadão no Rio de Janeiro”.

O primeiro mergulho na quarentena

Assim, tranquilo e observando sua cidade, o documentarista aguardou a liberação das atividades aquáticas individuais pelo governo do Rio de Janeiro, o que aconteceu há duas semanas. “Eu estava há quase três meses esperando pra fazer esse mergulho, desde que a quarentena foi decretada, em 24 de março. Então, assim que esses esportes foram liberados, aproveitei para ir confirmar se o que eu imaginava aconteceu, depois de quase 90 dias”. 

Voltou à Praia Vermelha numa noite de lua cheia, em 10/6, quarta-feira. Ah, sim, Ricardo prefere mergulhar à noite – de madrugada, na verdade, porque é nesse período que a vida e a cor nas águas da baía amada se apresentam com maior intensidade. Mas não só por isso.

Um canhão de luz de LED o ajuda a controlar melhor a luz: penetra na escuridão, revelando detalhes dos peixes, das estrelas-do-mar, de moluscos e crustáceos. “Durante o dia, as variações da luz do sol na água interferem e distorcem a cor e a textura dos bichos”. E tem mais um detalhe: à noite, o comportamento dos animais também muda: “alguns, que ficam entocados durante o dia, saem de seus esconderijos para caçar e posso vê-los e fotografar à vontade. Com a luz, outros bichos ficam mais parados e parece que se deixam fotografar com mais facilidade”.

E o que ele encontrou nas profundezas da Baía de Guanabara? “Claro que eu sabia que a biodiversidade não teria mudado tanto, impossível isso acontecer em tão pouco tempo. Mas tinha esperança de que os peixes estivessem menos ariscos e que eu conseguiria me aproximar mais deles, filmar e fotografar mais. E foi realmente isso que aconteceu”, conta.

Com seus dois documentários, Ricardo já apresentou ao público a rica biodiversidade da baía, que ainda é muito ignorada. Contei no início deste texto que, quando assisti à Baía Urbana, fiquei encantada com essa riqueza. Só de peixes há 202 espécies, dá pra acreditar?

O biólogo destaca que, com a obrigatoriedade da quarentena, do isolamento social, a caça submarina e de outras atividades marítimas foram extremamente reduzidas. E isso deixou peixes e outros bichos do mar mais tranquilos, menos arredios. “Menos gente transitando parece que deixou os animais sem medo”.

Mais peixes, menos ariscos, mais proximidade e mais fotos. “A visibilidade da diversidade marinha da Baia de Guanabara foi atípica pra mim. E, se tem essa vida marinha pra me inspirar, só posso ter o compromisso de levantar essa bandeira pela vida marinha, pelos oceanos”, sentencia.

“Fiquei tão maravilhado com o que vi que usei até a última respirada do tanque – o ar do cilindro, não é oxigênio, é ar puro! – para aproveitar o mergulho ao máximo. Não queria sair da água. Em geral, costumo mergulhar por uma hora, uma hora e meia. Desta vez fiquei mais. O momento merecia. E olha que a água nem estava tão limpa, mas a Baía surpreende! Flagrei peixes que nunca tinha visto lá como o bodião-batata, que é muito difícil de fotografar por ser extremamente arisco.

Ricardo registrou um mundo de cores no fundo da baía: o rosa inusitado do peixe-falso-voador ou coió, o amarelo intenso das esponjas, o laranja quase espiritual das estrelas do mar, o azul divertido de alguns caranguejos e os detalhes iridescentes no tom negro profundo do peixe-anjo francês, mais conhecido como parú. Vamos a eles!

Bodião batata: um peixinho que salva os corais

Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano

Este não foi o primeiro peixe que Ricardo avistou assim que mergulhou. Mas foi o primeiro sobre o qual comentou, tal seu desejo de encontra-lo. Trata-se de um peixinho muito arisco, arredio porque é muito visado pelos mergulhadores e sabe que eles representam perigo. Por isso, o biólogo o viu muito poucas vezes, desde que começou a mergulhar. “Quando ele te vê de longe, já foge. A gente só vê um vulto indo embora. Mas, desta vez, eu consegui me aproximar dele e fazer uma foto muito bonita”.

Ricardo diz que, para ele, essa foto é muito icônica porque os bodiões têm importância enorme na saúde dos recifes de coral. Muito comum no Caribe, também é encontrado no Nordeste brasileiro. “Os peixes da família dos bodiões têm o dente fusionado em forma de bico porque se alimentam das algas que crescem por cima dos corais. São eles que mantêm a saúde dos recifes. Sem eles, as algas crescem em excesso e sufocam os corais.

“E, quando a gente fala da saúde dos recifes de coral, fala da saúde do oceano como um todo porque 25% de toda biodiversidade marinha depende desses recifes de alguma maneira”. Ele lembra que, embora os recifes correspondam a 1% de toda a área do oceano, são responsáveis pela existência de ¼ de toda biodiversidade marinha. “Por isso, foi uma alegria ver esse peixinho ali e ele ter me deixado chegar a menos de um metro de distância pra eu poder fazer uma foto linda. Naquela hora, eu já tinha ganho o mergulho”.

Peixe-borboleta: “o casal parecia que posava pra foto”

Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano

Ricardo confessou que “estava doido” para encontrar o peixe-borboleta e fazer uma foto mais próxima, o que nunca foi possível porque ele também é muito arisco. Mas, desta vez, ele não teve só a sorte de encontrar um exemplar da espécie, mas um casal que não se desgrudava.

“Esse é um peixinho muito bonitinho, que parece de aquário, e, quando encontra seu par, fica junto para a vida inteira – até que a morte os separe -, como acontece com as araras”. E ele acrescenta: “Se fossem humanos seriam exemplo do ideal de amor romântico”.

E, assim, o documentarista realizou seu sonho em dose dupla. Fotografou os dois “bem de pertinho” e contou que até parecia que eles estavam se exibindo para suas lentes. “Parecia que eles queriam fazer um book de casal e eu aproveitei: tirei várias fotos, na maior alegria”.

Caranguejo-aranha: pequenino e muito frágil

Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano

Eis outro bicho da baía que é muito arredio: ele está sempre entocado, sempre fugindo dos mergulhadores, sempre assustado e corre para sua toca ao primeiro sinal da presença humana. Mas não porque seja caçado para virar alimento.

“Como é muito pequenininho e magrinho – tem pernas muito finas, parece uma aranha, daí o nome -, é muito frágil. Se um mergulhador encostar um pé de pato nele, já era! Pode quebrar suas patinhas”, conta Ricardo.

O documentarista disse que, nesta recente expedição, viu vários exemplares andando fora da toca, procurando alimento tranquilamente: “Parecia um desfile de caranguejos-aranha. Aproveitei!”.

Parú ou peixe anjo francês, um dos bichos mais lindos do Rio de Janeiro

Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano

Outro que foi facinho diante das lentes de Ricardo foi o parú ou peixe-anjo francês ((Pomacanthus paru). “Lindo, ele também posou pra mim”, se diverte o biólogo. É considerado um dos animais mais lindos do Rio de Janeiro.

Muito comum em recifes rasos, é negro e tem listras fluorescentes. Alimenta-se de esponjas, algas, gorgônias entre outros organismos.

Baiacú, na intimidade

Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano

Esta espécie, em geral, se afasta quando sente a presença de um mergulhador. Mas, neste mergulho especial de Ricardo, deixou-se fotografar. Só que não foi uma permissão qualquer. Ele “deu autorização” para que o documentarista registrasse um momento muito íntimo: o de “fazer a cama para dormir”.

Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano

Todas as noites, o Baiacú cava o local onde pretende passar a noite, na areia do fundo da baía. Nesta experiência, depois da cama pronta, deitou e ficou (foto acima), enquanto Ricardo o filmou e o fotografou tranquilamente.

Peixe falso voador ou coió

O Dactylopterus volitans – conhecido como falso-voador ou coió -, vive no fundo do mar e usa a parte anterior de seu corpo, livre das nadadeiras peitorais, para explorar o leito em busca de pequenos caranguejos, moluscos e peixes menores.

Peixe falso voador ou coió – Foto: Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano

Marimba juvenil e peixe porco

Marimba juvenil e Peixe-porco / Foto: Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano

Polvo camuflado

Polvo camuflado / Foto: Ricardo Gomes / Instituto Mar Urbano

Um sonho coletivo

Ricardo saiu de seu mergulho na Baía de Guanabara já na madrugada de 11/6, maravilhado e realizado. Sua expectativa era grande, mas encontrou muito mais do que foi buscar.

“Apesar de todos os problemas, a Baía encanta e oferece um grande alívio para a dureza do dia-a-dia. O coronavírus está nos ensinando sobre como a vida é frágil. Deveríamos aprender com isso, com este momento, e levar essa lição para nossa relação com o meio ambiente, para nossa relação com a Guanabara, para proteger esse tesouro, a nossa casa”.

“Hoje, essa biodiversidade está tão presente pra nos inspirar, mas os cariocas – e os brasileiros em geral – têm cultura de praia, não cultura de oceano. Pois, se temos a oportunidade de nos inspirar com algo tão belo como a diversidade marinha, que se oferece todos os dias, assim, temos que procurar conhecê-la. O lendário Jacques Cousteau dizia que “não se protege o que não se conhece“, então é preciso conhecer a Baía de Guanabara e sua rica biodiversidade. Apesar dos problemas, ela está lá, pulsando”.

Compreendo Ricardo, e pergunto, como é possível provocar a empatia sobre o mar e os oceanos, já que o que se conhece e se usufrui, em geral, é a praia? Ainda é tão difícil conscientizar os brasileiros sobre a importância de suas florestas, da Amazônia, de seus povos, e já há tantas campanhas nesse sentido. Ele respondeu assim:

“Veja como as pessoas se encantaram com a água limpa e as tartarugas! O que acontece no fundo do mar é muito maior. Existe uma floresta amazônica no fundo do mar! Mas, aqui no Rio de Janeiro, podemos começar pela Baía da Guanabara: por um sonho coletivo sobre a baía, sua biodiversidade, para dar o primeiro passo”. 

E Ricardo ainda lembrou que, em 2021, começa a Década dos Oceanos, a Década Internacional da Oceanografia, promovida pela ONU, que “serão os dez anos cruciais para garantirmos a existência da vida na Terra”. Uma oportunidade e tanto. Ricardo já está cheio de projetos. Dará notícias em breve.

Baía, mar, rio…

Agora, se você não tem Ricardo Gomes, nem a Baía de Guanabara por perto, procure voltar seus olhos, a mente ou o coração para a sua cidade e buscar suas águas. Onde estão? Num rio, num riacho, num córrego? Como estão esses cursos d’água? Vivos? Sufocados? Tem uma praia? Consegue enxergar além dela? Qual sua relação com a água? Qual sua cultura?

Como inspiração, assista ao vídeo que Ricardo produziu em seu primeiro mergulho na Baía de Guanabara nesta quarentena. Em seguida, veja os traillers dos dois documentários feitos por ele e sobre os quais já comentei: Mar Urbano (2014) e Baía Urbana (2017).

Fotos: Ricardo Gomes/Instituto Mar Urbano / As fotos da Baía de Guanabara são reproduções do filme Baía Urbana

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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