
Mulheres que chegam à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, para denunciar violência, encontram um “agente especial” que, na maioria dos casos, ajuda a acolher sua dor ou encantar – e distrair – as crianças que as acompanham.
Batizado de B.O. (sigla de Boletim de Ocorrência), o gato de pelo laranja foi adotado na ONG Lelo Love Pet pela equipe da delegacia, há cerca de dois meses, com o intuito de tornar o ambiente mais leve. E conseguiu.

Foto: reprodução de vídeo da DDM / São João da Boa Vista
Sem raça definida (SRD), ele tem sete anos, garras afiadas, olhar curioso, miado fofo e está sempre disposto a receber atenção e afagos. Exibindo uniforme e distintivo, claro que foi impossível evitar o trocadilho e logo começou a ser chamado de “delegato”.
“A gente recebe muitas mulheres vítimas de violência doméstica com crianças, e pensamos em transformar o ambiente e deixar mais acolhedor, menos austero, porque delegacia é geralmente assim e queremos mudar esse paradigma”, explicou o investigador Leandro Moreira, de 40 anos, ao G1.
“Ele é uma ferramenta a mais que a gente tem para distrair as crianças e tem funcionado bem”.
O delegato tem licença para subir nas mesas, mexer em tudo e até quebrar objetos, além de tirar uma soneca em cima dos arquivos, do armário ou de um sofá.

Foto: DDM / São João da Boa Vista
“Ficamos com medo dele fugir, mas ele nos adotou também, e se adaptou. Buscamos um animal que precisasse de carinho e cuidados, e ele estava magro precisando de um lar. Ele não é arisco, só não é de fazer festa”, acrescentou Moreira.
Um dia de consciência e ação
Em março de 1999, o dia 25 de novembro foi reconhecido pela ONU como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, em homenagem às irmãs Mirabal (Pátria, Minerva e Maria Teresa), assassinadas pela ditadura de Leônidas Trujillo na República Dominicana.
E, desde então, a data é um chamado, não somente para a reflexão e a consciência sobre o tema – expondo o avanço do feminicídio, de estupros, de violência doméstica e de outras agressões, reforçando a necessidade de políticas públicas e de uma rede de proteção -, mas também para a ação.
A data integra o calendário dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra Meninas e Mulheres e, no Brasil, a ação tem início no Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, indo até 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
‘Você Não Está Sozinha’
Ontem (24), Juliette Freire, ex-BBB, lançou a campanha ‘Você Não Está Sozinha’, liderada por ela, que reúne celebridades como artistas, apresentadoras e influenciadoras para chamar a atenção para o feminicídio e seu avanço no país (contamos aqui).
No vídeo, Xuxa Meneghel, Angélica, Juliana Paes, Bela Gil, Bianca Andrade, Erika Januza, Ingrid Guimarães, Cíntia Chagas, Duda Santos, Isadora Cruz e Tati Machado relatam casos verídicos – citando os nomes das vítimas -, características desses crimes, a diferença entre violência psicológica, patrimonial, moral e sexual, além de dados sobre essa realidade avassaladora no país.
Dados alarmantes
3,7 milhões de mulheres brasileiras vivenciaram um ou mais episódios de violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores à Pesquisa Nacional de Violência Contra a Mulher, realizada este ano pelo DataSenado, Instituto Natura e Gênero e Número, ouviu 21.641 mulheres por telefone.
A maioria dos casos ainda é tratado na esfera privada, ou seja, após a violência, as mulheres buscam apoio na família (58%), na Igreja (53%) ou nos amigos (52%).
A busca por órgãos formais como delegacias é muito menor: apenas 28% registraram denúncia em Delegacias da Mulher e 11% acionaram o Ligue 180.
A busca por órgãos formais é menor: apenas 28% registraram denúncia em Delegacias da Mulher e 11% acionaram o Ligue 180.
Além disso:
– para 58% das entrevistadas, a situação de violência é recorrente, ocorrendo há mais de um ano, o que indica a dificuldade em romper esses vínculos;
– em cerca de 71% dos casos, as agressões aconteceram na presença de outras pessoas;
– em 70% dos casos de agressão com testemunha, havia, pelo menos, uma criança no ambiente: são 1,94 milhões de agressões testemunhadas por menores; e
– em 40% das situações com testemunhas, a vítima não recebeu ajuda.
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