Declínio de aves em áreas intocadas da Floresta Amazônica surpreende cientistas

Declínio de aves em áreas intocadas da Floresta Amazônica surpreende cientistas

Há décadas pesquisadores monitoram a rica biodiversidade da maior floresta tropical do mundo, a Amazônica. Mas em levantamentos recentes, cientistas da Louisiana State University (LSU) descobriram uma redução no número de aves em áreas preservadas da região, ainda intocadas pelas atividades humanas.

A queda na população se dá sobretudo para pássaros que vivem próximo ao solo da floresta, onde buscam seus alimentos, principalmente insetos.

“Achamos que o que está ocorrendo é uma erosão da biodiversidade, uma perda de riqueza de espécies em um lugar onde nós esperaríamos que a biodiversidade pudesse ser mantida” diz Philip Stouffer, professor do departamento de Recursos Naturais Renováveis da LSU e principal autor de um artigo publicado na revista Ecology Letters.

Stouffer faz estudos de campo na Amazônia desde a década de 90. Todavia, por volta de 2008, ele e sua equipe começaram a notar que havia ficado mais difícil observar alguns tipos de aves. Os pesquisadores decidiram então fazer uma análise abrangendo uma linha do tempo mais longa, com informações que começassem ainda nos anos 80.

Depois de avaliarem os dados de 55 localidades diferentes, nos últimos 35 anos, eles tiveram a certeza que algumas espécies de pássaros deixaram de ser encontradas em áreas pristinas da Floresta Amazônica.

“É um conjunto de dados muito robusto de uma variedade de lugares coletados ao longo de muitos anos. Não é apenas um acaso. Parece que existe um padrão real e pode estar relacionado a coisas que sabemos que estão acontecendo com as mudanças climáticas globais e estão afetando até mesmo este lugar primitivo ”, alerta Stephen Midway, um dos co-autores do artigo.

Stouffer concorda que, se os padrões desses animais estão mudando na ausência de alteração na paisagem, isso sinaliza um aviso sério de que simplesmente preservar as florestas não manterá a biodiversidade da mata tropical.

Aves mais impactadas

Pesquisas preliminares apontaram o declínio no número de pássaros que estão mais frequentemente no solo da floresta, por ser ali que encontram suas presas.

Um exemplo é o o pinto-do-mato-carijó (Myrmornis torquata), que busca seus alimentos embaixo de folhas, que caem das árvores. Outro pássaro que os cientistas descobriram que se torna cada vez mais raro de ser avistado na Amazônia é o uirapuru-verdadeiro (Cyphorhinus arada), que possui um dos cantos mais icônicos da floresta (na imagem que abre este post).

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O pinto-do-mato-carijó

Entretanto, algumas aves, mesmo aquelas que comem insetos no chão, não parecem ter sido afetadas. É o caso do papa-formiga-de-topete (Pithys albifrons). Como ele se alimenta de formigas de correição, que se deslocam pelo solo da floresta predando tudo o que encontram pela frente, o pássaro não fica limitado a um território fixo.

Os pesquisadores americanos também notaram que as aves frugívoras, que tem a dieta baseada em frutas, apresentaram um aumento de sua população. Eles suspeitam que as espécies com hábitos alimentares mais variados terão maior resiliência para sobreviver à crise climática.

“A ideia de que há mudanças até mesmo nas partes mais intocadas de nosso planeta sem que nós as percebamos, nos mostra que precisamos estar ainda mais atentos a estas transformações,” ressalta Stouffer.

Declínio de aves em áreas intocadas da Floresta Amazônica surpreende cientistas

O papa-formiga-de-topete se alimenta de frutas e pesquisadores notaram que ele continua abundante na floresta

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Fotos: Philip Stouffer, LSU (abertura), Hector Bottai/Wikimedia Commons (pinto-do-mato-carijoó) e Francisco Enríquez/NBII Image Gallery/Wikimedia Commons (papa-formiga-de-topete)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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