De problema à solução: empresa transforma pele do peixe-leão, espécie invasora e perigosa, em couro para o mercado da moda

De problema à solução: empresa transforma couro do peixe-leão, espécie invasora e perigosa, em couro para o mercado da moda

Primeiro ele chegou no Mar Mediterrâneo. Depois foi a vez de se proliferar pelas águas do Caribe. E mais recentemente, o peixe-leão começou a ser encontrado com maior frequência no litoral brasileiro. Os alertas iniciais aconteceram em Fernando de Noronha e há poucos meses pescadores relataram que eles foram encontrados em praias do Ceará, Piauí e em em recifes da foz do Rio Amazonas, entre os estados do Amapá e Pará.

Nativo dos Oceanos Índico e Pacífico, o peixe-leão é um predador. Em seu habitat natural, ele é controlado pela cadeia alimentar, onde é presa de espécies de garoupas e até por tubarões. Mas longe desses inimigos, se alimenta vorazmente de outros peixes e se reproduz rapidamente e sem controle. Uma fêmea pode colocar até 2 milhões de ovos por ano.

Infelizmente, após estabelecida, há muito pouco a se fazer para impedir que a população da espécie aumente. “Por sobreviverem em diferentes habitats e alcançarem grandes profundidades (de 1m a 100m), o manejo das populações invasoras é difícil. Mesmo com programas de capturas intensas em zonas rasas, visto que a espécie pode se reproduzir em águas mais profundas, o controle é um desafio”, explica Marcelo Soares, pesquisador do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará.

Em alguns países, o abate do peixe-leão é permitido. E incentivado. Em certos lugares, a solução para combater o invasor é levá-lo para o prato! Apesar de seus espinhos serem venenosos, a carne não é. E de acordo com quem provou, garante-se que é deliciosa.

Mas uma empresa na Flórida, nos Estados Unidos, decidiu optar por outra alternativa: produzir couro a partir da pele do peixe-leão! A Inversa Leathers foi criada por três apaixonados por mergulho, que se cansaram de nadar em recifes de corais e perceber o estrago causado pela espécie invasora nesses ecossistemas.

A companhia trabalha com pescadores da costa da Flórida e do México. Mas planeja criar uma cadeia de produção e fornecedores que seja 100% sustentável e gere renda justa para todos os envolvidos, especialmente comunidades mais pobres. Com esse projeto, a Inversa foi uma das nove selecionadas pela iniciativa Ocean Resilience Innovation Challenge (ORIC), uma competição internacional que identifica e financia projetos inovadores e liderados pela comunidade que desenvolvam resiliência costeira e reduzam o risco oceânico.

De problema à solução: empresa transforma couro do peixe-leão, espécie invasora e perigosa, em couro para o mercado da moda

Tênis produzidos com retalhos do couro do peixe-leão

Se for uma das ganhadoras do prêmio, a Inversa pretende criar cooperativas de pesca na região mexicana de Quintana Roo, no Caribe, e equipar pescadores e pagar prontamente pelos peixes-leões coletados.

A empresa já produz o couro sustentável e fornece o produto para várias marcas do mundo da moda e fabricantes de acessórios, como carteiras e relógios.

“Nosso objetivo é realmente empoderar o consumidor e a moda ao fazer algo pelo planeta – então capacitamos as comunidades de mergulho nas cooperativas de pesca em todo o Caribe a fazer algo por si mesmas”, disse Aarav Chavda, um dos fundadores da empresa, em entrevista ao jornal The Guardian.

De problema à solução: empresa transforma couro do peixe-leão, espécie invasora e perigosa, em couro para o mercado da moda

Apesar de fina, a pele do peixe é muito resistente porque a estrutura da fibra é transversal

Fotos: divulgação Inversa Leathers

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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