De Apuí, no sul do Amazonas, vem o primeiro café sustentável da Amazônia brasileira

De Apuí, no sul do Amazonas, vem o primeiro café sustentável da Amazônia brasileira

Quem me conhece sabe que adoro café. É ele que me desperta para o avançar do dia, que dispersa meu “fog” matinal. E hoje resolvi contar a história de um café que tenho consumido desde 2018, quando conheci alguns dos agricultores que o cultivam no município de Apuí, no estado do Amazonas.

O Café Apuí Agroflorestal é o primeiro café agroflorestal produzido de forma sustentável na Amazônia brasileira. O que isso significa? Que ele é plantado e cultivado em meio às árvores, o que garante mais qualidade ao grão e ainda mantém a floresta em pé.

O modelo envolve dezenas de famílias ao longo da cadeia de produção, trouxe 300% de aumento à renda anual dos produtores, proporcionou o reflorestamento de uma área de 45 hectares com o modelo agroflorestal, promoveu o plantio de quase 15 mil mudas nativas, e a produtividade do café cresceu em 66%.

Outros modos de cultivo

De Apuí, no sul do Amazonas, vem o primeiro café sustentável da Amazônia brasileira
Grão do café cultivado em Apuí, sul do Amazonas – Foto: Idesam/Divulgação

Agricultores e agricultoras que cultivam o café vieram de várias partes do Brasil, e também trabalhavam na terra em suas regiões de origem. Buscaram implementar em Apuí os modos de cultivo a que estavam acostumados.

Com o trabalho desenvolvido a partir do café, descobriram a agrofloresta, que permite cultivar, em consórcio, alimentos e árvores nativas.

Em 2018, acompanhei uma visita do processo de certificação participativa do café em Apuí, e uma das pessoas que conheci foi Maria Bernadete, que veio do Pará e foi uma das primeiras a se integrar ao projeto, interessada em aprender a cuidar do café em sua propriedade:

“Meus vizinhos sempre me sugeriam acabar com o café. Eu respondia que não, que ia deixar o café ali e um dia eu ia aprender a mexer com ele. Um dia eu vi um convite debaixo da minha porta falando que iam ajudar a gente a cuidar do café. E eu fui ver o que era”, disse ela.

João Nilton Ferreira Julião, que veio do Espírito Santo, também logo se integrou ao projeto. “A gente cultivava o café do jeito tradicional, com o terreno o mais limpo possível. Eu nunca tinha cultivado assim, sombreado. ”

“Uma grande diferença é que a gente reduz a mão de obra, porque é mais fácil de manejar. E a gente limpa, desbrota e colhe na sombra. Isso também muda muita coisa”, disse ele. Julião destaca também o melhor preço do café e o cuidado com a saúde, já que a produção é orgânica e ele não tem contato com veneno. ”

Certificação orgânica

De Apuí, no sul do Amazonas, vem o primeiro café sustentável da Amazônia brasileira
Fiz esta foto durante visita de certificação participativa na propriedade de Maria Bernadete, de blusa vermelha

A certificação orgânica do café trouxe ainda mais valor agregado, e foi implementada de duas formas: participativa, que conta com a participação de técnicos, produtores e outras pessoas sem que seja preciso pagar uma taxa para obtenção do selo orgânico, o que se torna mais justo e menos oneroso para os agricultores familiares; e a certificação por auditoria do IBD (Associação de Certificação do Instituto Biodinâmico), responsável por atestar que a torrefação também atende aos requisitos necessários.

A certificação participativa é obtida em parceria com a Rede Maniva de Agroecologia, único OPAC (Organismo Participativo de Avaliação de Conformidade) da região norte do país. Na prática, funciona como uma certificadora participativa, e esta modalidade está prevista na legislação brasileira para os agricultores familiares.

“Quando a gente forma um grupo que acessa a certificação orgânica participativa, os agricultores começam a acessar mercados e outras políticas públicas de interesse. Se organizam e percebem o poder da união. A certificação participativa vai agregando consigo processos, é muito mais um meio do que um fim”, avalia Marina Yasbek, coordenadora do trabalho do Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia) em Apuí.

O início do processo

Em 2006, o Idesam iniciou um trabalho de assessoria técnica e extensão rural com agricultores e agricultoras familiares em Apuí.

O município, localizado no sul do Amazonas, abriga o maior projeto de assentamento rural do país promovido pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), o Rio Juma.

Como parte da estratégia do governo brasileiro de ‘povoar e desenvolver’ a Amazônia nos anos 1980, brasileiros de todas as regiões do país foram chamados a colonizar a terra no Norte.

Esses agricultores que responderam ao chamamento, vindos do sul, sudeste e nordeste, passaram a cultivar café de forma convencional, mas devido à crise no preço e à baixa produtividade, por volta do ano de 2000 eles foram aos poucos abandonando a cultura.

O tipo de café cultivado em Apuí é o Robusta, que cresce melhor em clima quente e à sombra das árvores. No processo de assessoria aos agricultores iniciado em 2006, o Idesam logo identificou entre os remanescentes de café abandonados que o fruto tinha mais qualidade justamente pelo cultivo sombreado.

Veio daí a motivação para investir no cultivo agroflorestal do café na região. E o passo seguinte, além de engajar agricultores e agricultoras no processo, foi cuidar do fomento de toda a cadeia agroflorestal para isso: garantir assistência técnica, apoiar a associação local de agricultores, promover capacitação de coleta de sementes, apoiar o viveiro local na produção e fornecimento de mudas para os agricultores, e também o torrefador local.

O processo contou também com o apoio da Prefeitura.

De projeto a negócio de impacto

Foto: Idesam/Divulgação

Em 2019, o projeto foi transformado em um modelo inovador de negócio de impacto na Amazônia: a empresa Amazônia Agroflorestal, cujo objetivo é vencer as dificuldades logísticas e promover conexões com o mercado, fechando assim um ciclo virtuoso de produção.

Para que a cadeia de valor do café ganhasse escala e ampliasse impactos socioambientais e econômicos, várias estratégias foram adotadas ao longo do processo, conectando filantropia (doação de recursos) com investimentos privados.

A Amazônia precisa de arranjos inovadores, que ao mesmo tempo contribuam para conservar e preservar a floresta, gerar renda para suas populações a partir disso e movimentar a economia.

O Café Apuí Agroflorestal é um exemplo de que isso é possível.

Se você quiser desenrolar todo o fio dessa história, aprendizados e desafios, acesse a publicação Do projeto à empresa de impacto: a experiência do Café Apuí Agroflorestal, lançada pelo Idesam em 2020.

E aproveite para provar esse café enquanto espia o material que, com certeza, torna-se muito mais saboroso com todo esse impacto positivo que vem embutido em cada embalagem – que por sinal é linda. Ele está à venda no site.

Edição: Mônica Nunes

Foto de abertura: Idesam/divulgação

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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