“Dados bateram certinho”, disse Salles, mas investigação sobre madeira apreendida na Amazônia revela irregularidades inquestionáveis

"Dados bateram certinho", disse Salles, mas investigação sobre madeira apreendida na Amazônia revela irregularidades inquestionáveis

No final de dezembro do ano passado, a Polícia Federal confiscou mais de 60 mil toras de madeira nativa extraída da Amazônia, operação que foi considerada a maior da história do país. O volume apreendido passou de 200 mil m3. A madeira foi localizada na divisa entre os estados do Pará e do Amazonas e foi avaliada em R$ 130 milhões. Provavelmente teria como destino a exportação.

A descoberta da carga se deu depois que uma balsa com documentação irregular foi encontrada em novembro, navegando no rio Mamuru, na área do município amazonense de Parintins. A partir daí, a Polícia Federal (PF) começou a investigar o movimento de madeireiros com a ajuda de imagens de satélite.

Desde então, a ação que era para ser considerada um triunfo do governo contra o crime ambiental no país se tornou uma disputa pessoal entre o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e a Polícia Federal.

Salles criticou a operação na Amazônia. Foi até o Pará, duas vezes, uma delas pagando a viagem para jornalistas, para fazer uma “verificação” da madeira apreendida. O ministro afirmou que houve falhas na ação e que as empresas proprietárias das toras teriam razão para contestar a investigação. Ele teria comprovado a origem de duas toras… Sim, duas!

Indignado com a declaração, o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, responsável pela apreensão, disse que era a primeira vez que via um ministro da pasta se posicionar contra a proteção da Floresta Amazônica e garantiu que as toras eram ilegais.

No último dia 14 de abril, Saraiva enviou então uma notícia-crime ao Supremo Tribunal Federal (STF), com o objetivo de demonstrar a interferência indevida de Salles, assim como do senador Telmário Mota (Roraima) e do presidente do Ibama, Eduardo Bin. O documento menciona “o intento de causar obstáculos à investigação de crimes ambientais e de buscar patrocínio de interesses privados e ilegítimos perante a Administração Pública”. São citados na notícia-crime os “crimes de advocacia administrativa, obstrução às operações e organização criminosa”.

Saraiva ressaltou que apesar das toras estarem etiquetadas, os empresários não conseguiram provar ainda a posse das terras de onde a madeira foi retirada. A suspeita é de grilagem nas terras públicas da região. O delegado também destacou que uma das madeireiras envolvidas no caso já recebeu 20 autos de infração ambiental do Ibama, cujos valores de multas resultam em aproximadamente R$ 8.732.082,00.

Mesmo com todas essas provas em mãos, no dia seguinte à apresentação da notícia-crime ao STF, o delegado da PF foi exonerado do cargo de superintendente no Amazonas.

Agora, uma reportagem da revista Veja dos jornalistas Juliana Castro e Eduardo Gonçalves, que tiveram acesso ao inquérito da Polícia Federal que investiga a apreensão histórica da madeira, revela ainda mais evidências de como não há dúvida de que as toras apreendidas são fruto de ação criminosa.

Pra começar, 70% da madeira apreendida ainda não foi “reinvidicada” por ninguém. Ou seja, até este momento, apenas 30% das toras parecem ter um “dono”. Por que uma carga tão valiosa estaria sendo menosprezada pelos seus proprietários? Certamente porque é ilegal.

Segundo, as espécies de madeiras apreendidas não correspondem àquelas descritas na documentação florestal. Além disso, o registro era de que a madeira era originária de uma área de plano de manejo, mas na verdade, foi retirada de uma unidade de conservação. Por último, o itinerário feito pelas balsas não corresponde com o trajeto realizado.

Salles continua defendendo os madeireiros e insistindo na alegação de que Alexandre Saraiva só quer a atenção da mídia. Muita gente em Brasília discorda dele.

Um grupo de deputados já entrou com um pedido de CPI na Câmara para investigar suas ações no Ministério do Meio Ambiente, como neste caso da apreensão das madeiras, e a ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre as notícias-crime apresentadas contra Salles. Para ela, “os fatos narrados são de gravidade incontestável e envolvem tema de significação maior para a vida saudável do planeta, como é a questão ambiental”.

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Foto: reprodução Twitter Ricardo Salles

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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