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‘Cuidado – Animais na pista’: documentário mostra porque a BR-262 é a rodovia da morte no Pantanal

BR-262 é a nona maior rodovia do Brasil, com 2.213 km de extensão que interligam Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Gerida pelo DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, principalmente no trecho que corta o Pantanal – ligando Campo Grande a Corumbá –, a estrada federal acumula elevados índices de atropelamento de animais (2 mil a 5 mil/ano), por isso é conhecida como Rodovia da Morte

'Cuidado! Animais na pista': documentário mostra porque a BR-262 é a rodovia da morte no Pantanal
Nas laterais da rodovia BR-262 há bolsões de água que atraem os animais,
principalmente na época de seca
. E como a estrada mortal fica linda com as flores!
Foto: reprodução do documentário Cuidado, animais na pista!

De acordo com estudo publicado pelo ICAS – Instituto de Conservação de Animais Silvestres, em três anos de monitoramento, entre 2017 e 2020, foram registradas 12,4 mil carcaças de animais atropelados. Entre elas, 363 eram de espécies ameaçadas de extinção, como a onça-pintada, a onça-parda, o lobo-guará, tamanduá-bandeira e a anta

'Cuidado! Animais na pista': documentário mostra porque a BR-262 é a rodovia da morte no Pantanal
Animais muito próximos da rodovia BR-262
Foto: reprodução do documentário Cuidado, animais na pista!

Cerca de metade desses animais era de grande porte, o que levou a acidentes gravíssimos, que também afetaram vidas humanas. A maioria das colisões (90%) ocorreu durante a noite, quando há maior atividade da fauna e menor visibilidade da pista

Com base nessa realidade, o Documenta Pantanal* e o Observatório Rodovias Seguras para Todos** se uniram para apoiar a produção do documentário Cuidado – Animais na pista, roteirizado e dirigido por
Sandro Kakabadze, documentarista da Georgia (EUA), que vive no Brasil há dez anos e já produziu diversas obras cinematográficas sobre o Pantanal (como esta aqui).

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O roteirista e diretor Sandro Kakabadze
Foto: reprodução do Instagram

Com 12’50’’, está disponível gratuitamente no canal do Documenta Pantanal no  YouTube.

“Essa tragédia se repete continuamente”

O filme foi produzido com o intuito de conscientizar o público sobre o impacto das mortes e estimular ações que tornem a estrada mais segurapara animais e motoristas, como a instalação de cercamento e passagens subterrâneas a fim de reduzir os atropelamentos, especialmente durante o período de seca, quando mais animais cruzam a pista em busca de alimento e abrigo.

“O Pantanal é um bioma único no Brasil, onde há realmente uma biodiversidade deslumbrante. A vida no Pantanal tem outro ritmo. As fazendas e as comunidades são bem isoladas, mas há uma rodovia que cruza este paraíso e aqui tudo muda. A BR-262 é conhecida como a rodovia da morte. Nela, morrem 2 mil até cinco mil animais por ano, então, são muitas espécies”, conta Arnaud Desbiezzoólogo, doutor em manejo de biodiversidade e presidente do ICAS.

'Cuidado! Animais na pista': documentário mostra porque a BR-262 é a rodovia da morte no Pantanal
Arnaud Desbiez, zoólogo e presidente do ICAS
Foto: reprodução do documentário Cuidado, animais na pista!

“Ninguém pega esta rodovia sem aperto no coração. Aqui, é carcaça atrás de carcaça. E tem sido assim há muitos anos. Mas uma coisa é ver os animais mortos, e outra coisa é contabilizar e ter noção do problema”, relata ele no filme (trecho gravado durante a pesquisa), indicando que o animal que o ICAS encontrou é o de número 2.263, em um ano (foto abaixo). 

'Cuidado! Animais na pista': documentário mostra porque a BR-262 é a rodovia da morte no Pantanal
Foto: reprodução do documentário Cuidado, animais na pista!

Ele também conta a história de Ty, tamanduá-bandeira acompanhado pelo ICAS por três anos, desde seu nascimento, que morreu atropelado em 2023 (contamos aqui). “A gente sabe que a tragédia desse indivíduo, na verdade, se repete continuamente”. 

Mais adiante, Desbiez ainda revela que alguns animais usam as passagens subterrâneas de fauna, mas que isso representa “apenas 1% das travessias”, por isso é urgente “a instalação de cercas para conduzir os animais”. E sentencia: “Sem cercas, essas passagens são inúteis”.

“O problema é muito grande, mas tem solução”

“Apesar do problema ser muito grande, existe solução”, afirma a bióloga Fernanda Abra, especialista em Ecologia das Estradas e idealizadora das pontes de dossel implantadas na Amazônia (em parceria com os indigenas Waimiri-Atroari) e em Alta Floresta, com o Projeto Reconecta (como já contamos aqui e aqui, respectivamente).

'Cuidado! Animais na pista': documentário mostra porque a BR-262 é a rodovia da morte no Pantanal
Fernanda Abra, bióloga, especialista em Ecologia de Estradas e sócia-diretora da ViaFAUNA
Foto: reprodução do documentário Cuidado, animais na pista!

“Este trecho da rodovia [no Pantanal] foi vistoriado. Nós levantamos todas as estruturas já existentes, que poderiam ser usadas no plano de mitigação e adaptadas para uso da fauna, e recomendamos a implementação de novas estruturas”.

“Os sistemas de mitigação mais comuns têm o potencial de reduzir até 80% o número de atropelamentos de forma muito significativa”, completa ela.

'Cuidado! Animais na pista': documentário mostra porque a BR-262 é a rodovia da morte no Pantanal
Fernanda Abra analisa os corpos de dois tamanduás mortos, num trecho da BR-262
Foto: reprodução do documentário Cuidado, animais na pista!

Otimismo e esperança

Por fim, Arnaud Desbiez se diz otimista: “O diálogo que está acontecendo me dá esperança de que, num futuro próximo, a gente vai poder monitorar nossos tamanduás e também estudar seus filhos, netos, bisnetos, e que o final deles não vai ser essa tragédia à beira da rodovia”. 

Seu otimismo se refere principalmente aos avanços do Plano de Mitigação de Atropelamentos de Fauna e Incremento de Conectividade – proposto pela ViaFAUNA e realizado com base na pesquisa do ICAS -, cuja implementação foi aprovada pelo DNIT em novembro de 2024 (contamos aqui).

A participação do órgão no documentário é muito pequena e destaca apenas a data de entrega desse projeto. Faltou dizer que o cercamento se refere a esse plano e sua posição atual.

“O DNIT está fazendo um grandes esforço para implementar as medidas mitigatórias do plano que foi desenvolvido e entregue pela ViaFAUNA. Ele vai ser implementado totalmente, sem qualquer modificação, e isso é muito incrível”, explica o pesquisador. “Realmente, a gente viu uma grande vontade do DNIT em trabalhar a questão das colisões veiculares. [O órgão] está fazendo pesquisa sobre as melhores cercas, envolvendo a sociedade civil e promovendo discussões. Então, estou vendo grandes avanços, daí meu otimismo”.

“Eu concordo que não está sendo rápido o suficiente, porque, a cada dia, pessoas e animais morrem ou se machucam, mas realmente nunca vimos uma vontade política tão grande por parte do DNIT para realizar essas mudanças. Está prevista a utilização de 170km de cerca, ou seja, 85 km de cada lado da pista, dez passagens de fauna subterrâneas e a reabilitação de outras passagens desse tipo, além de sete passagens superiores para primatas” [como as pontes de dossel do Projeto Reconecta, sobre as quais comentei acima]. Então, há várias medidas bacanas que estão sendo realizadas!”, finaliza.

Outras vozes

Outras figuras e organizações de destaque no Pantanal foram ouvidas pela equipe do documentário:

– a pesquisadora Flávia Miranda, do Instituto Tamanduá-Bandeira, que conta por que os filhotes sobrevivem ao atropelamento das mães. Em geral, eles são levados pelo CRAS para seu instituto, onde são cuidados até estarem aptos a voltarem para a natureza. “Esse trabalho de reintrodução é apenas uma parcela de mitigação dos danos, para que o declínio não seja maior”; 

– Gustavo Figueiroa, biólogo e diretor de comunicação do SOS Pantanal, que informa sobre a responsabilidade da concessionária responsável pela rodovia, que pode ser processada por vítimas das colisões ou suas famílias. “Se todos fizessem isso, inviabilizaria financeiramente” e quem sabe medidas de mitigação seriam rapidamente adotadas;

– Mariana Queiroz, médica-veterinária do Instituto Homem Pantaneiro, que lamenta o atropelamento, em massa, de queixadas (foto abaixo) – uma família, certamente –, “que me chocou muito e a toda nossa equipe”, e levou a uma atitude emergencial: a limpeza e o monitoramento (com câmeras trap) das pontes de vazantes; e 

'Cuidado! Animais na pista': documentário mostra porque a BR-262 é a rodovia da morte no Pantanal
Foto: reprodução do documentário Cuidado, animais na pista!

– Raquel Machado, diretora do Instituto Líbio, que critica a inércia das autoridades: “Tem anos que a gente escuta promessas. E mesmo, agora que a gente tem projetos, não acontece. Mas a gente vai continuar cobrando das autoridades para que as medidas contra os atropelamentos de fauna sejam implementadas”.
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* Documenta Pantanal é uma iniciativa que visa documentar, divulgar e conservar a riqueza natural, cultural e a biodiversidade do bioma Pantanal por meio de diversas produções.

** Observatório Rodovias Seguras para Todos é um coletivo de organizações da sociedade civil: ICAS, Onçafari, SOS Pantanal, Instituto Homem Pantaneiro, Instituto Ipê, Incab (Instituto Nacional de Conservação da Anta Brasileira) e Instituto Líbio.

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Foto (abertura): reprodução do documentário

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