Crise climática causou perdas econômicas de US$ 1,5 tri, em 2022, com efeitos mais severos em países pobres, mais populosos e tropicais

Por Leila Salim*

Novo estudo lançado esta semana (28/11) revelou que o mundo ficou US$ 1,5 trilhão mais pobre por causa das mudanças climáticas em 2022. O relatório Perdas e danos hoje: como as mudanças climáticas estão impactando a produção e o capital (em tradução livre), traz dados inéditos sobre o tema que promete estar no centro das discussões (e polêmicas) na COP28, a Conferência do Clima da ONU que começa hoje, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

E confirma: as economias de países pobres, sobretudo do Sul Global, são desproporcionalmente afetadas pela crise climática na comparação com os mais ricos. 

O relatório foi publicado pelo Centro de Ciência e Política de Mudança Climática Gerard J. Mangone, da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos. Segundo o estudo, o Produto Interno Bruto (PIB) de países de baixa renda, dependentes de agricultura e em regiões tropicais, já experimenta perdas substanciais, enquanto nações ricas sofrem impactos suaves, imperceptíveis ou mesmo benefícios temporários com as mudanças climáticas. 

Os países listados pela ONU como os menos desenvolvidos do mundo amargam uma perda média de 8,3% em seus PIBs, na comparação com um cenário sem mudanças climáticas. A conta é ponderada pela população de cada região ou grupo de países. 

A situação é mais grave nos países do Sudeste asiático, com uma perda média de 14,1% nos PIBs, e no Sul da África, com uma perda de 11,2%. Na outra ponta, países europeus registraram aumento médio de 4,7% em seus PIBs. A figura abaixo ilustra a desproporcionalidade. 

Países do Sul Global, em vermelho, têm maiores quedas do PIB causadas por mudanças climáticas / Fonte: Report Loss and Damage Today

“As mudanças climáticas já estão deprimindo a atividade econômica em todo o mundo. Essas descobertas destacam a necessidade urgente de cooperação global e apoio para lidar com os impactos das mudanças climáticas”, diz o relatório. “No entanto, nossa análise mostra como as perdas são concentradas principalmente pelo Sul Global. Essas cifras ilustram vividamente a desigualdade entre regiões e zonas econômicas”. 

O texto destaca ainda que, mesmo nos países ricos, os efeitos aparentemente “positivos” das mudanças climáticas são temporários, e que benefícios como a economia de energia usada para aquecimento (nos casos frequentes de verões mais quentes) tendem a dar lugar a desequilíbrios econômicos e perdas materiais.

“Tanto a Europa quanto a Ásia Central apresentam estimativas de PIBs 4,7% mais altos do que teriam sem as mudanças climáticas. Esses benefícios decorrem da redução do frio no inverno, o que diminui o consumo de energia e as taxas de mortalidade, entre outros fatores”, aponta o documento. 

“No entanto, à medida que o planeta continua a se aquecer, esses benefícios estão prestes a se erodir e, eventualmente, tornarem-se negativos, com os efeitos energéticos e de saúde dos verões mais quentes gradualmente neutralizando os benefícios dos invernos amenos. Os Estados Unidos e a China estão atualmente próximos ao ponto em que as perdas sob temperaturas mais altas superam os benefícios dos invernos mais suaves”, segue o relatório, destacando que os EUA apresentaram estabilidade em seu PIB em 2022, quando considerados os efeitos das mudanças climáticas na comparação com um mundo sem aquecimento. Já a China apresentou perda de 1,8%.

Ao propor soluções, o relatório manda um recado à COP28, ressaltando a urgência da criação e implementação do fundo de perdas e danos para apoio aos países mais vulneráveis, aprovado na última COP, realizada no ano passado no Egito.

No entanto, os esforços para alinhar a pauta antes da Conferência de Dubai esbarraram nas conhecidas disputas entre países pobres e ricos. As sessões de diálogo sobre o tema, realizadas entre o fim de outubro e o início de novembro, avançaram muito pouco

No centro da polêmica, está a resistência dos países pobres à nomeação do Banco Mundial como instituição anfitriã do mecanismo. Os países em desenvolvimento lembram de dívidas históricas já contraídas junto ao banco, além de denunciarem sua participação em financiamento de empreendimentos fósseis.

Depois de muita discussão, chegou-se a um acordo e o BIRD -Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento foi aceito como “gestor interino” do fundo. Mas, além disso, os países ricos resistem a serem os principais doadores do fundo, além de quererem restringir a lista de países beneficiários, impedindo o acesso de nações emergentes ao financiamento. 

Nesse cenário, o temor é de que, a despeito da urgência já comprovada, a COP28 não consiga uma resolução objetiva quanto ao fundo. A ver. 
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* Este texto foi publicado originalmente no site do Observatório do Clima em 29/11/2023

Foto: Miranda Grant/Pnuma (seca extrema no Quênia em 2023)

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Observatório do Clima

Fundado em 2002, o OC é a principal rede da sociedade civil brasileira sobre a agenda climática, com mais de 70 organizações integrantes, entre ONGs ambientalistas, institutos de pesquisa e movimentos sociais. Seu objetivo é ajudar a construir um Brasil descarbonizado, igualitário, próspero e sustentável, na luta contra a crise climática. Desde 2013 publica o SEEG, a estimativa anual das emissões de gases de efeito estufa do Brasil