Criadores do ‘Santuário de Elefantes Brasil’ querem transformá-lo no maior do mundo

Criadores do 'Santuário de Elefantes Brasil' querem transformá-lo no maior do mundo

Bambi esperou por quatro anos para o Tribunal de Justiça de São Paulo garantir a sua liberdade. Sua vida é um exemplo do que significa ser um elefante. Ela passou quarenta anos em trabalhos forçados em circos, foi trancada por longos períodos em contêineres pelas estradas da América Latina e ficou encarcerada em pequenos cativeiros

Em 6 de fevereiro deste ano, finalmente, a Justiça de São Paulo decidiu libertar Bambi para sempre. 

Com cerca de três toneladas, a elefanta poderá viver seus últimos dias de vida, após décadas de intenso sofrimento, livre em uma reserva no interior do Brasil, na Chapada dos Guimarães, a cem quilômetros da capital de Mato Grosso. 

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Bambi, a mais nova e mais alta da manada, é cega de um dos olhos / Foto: Rogério Assis

Antes de chegar ao santuário, em 2020, Bambi viveu por seis anos no Bosque e Zoológico Municipal Dr. Fábio Barreto de Ribeirão Preto, São Paulo. Em agosto de 2020, o Fórum Nacional de Proteção e Defesa dos Animais conseguiu uma decisão na Justiça para que Bambi fosse removida para o Santuário.

Bambi é a mais alta das cinco fêmeas de elephas maximus ou elefante-asiático do Santuário de Elefantes do Brasil (SEB): uma reserva particular de 167 hectares, cercada por serras e distante 30 quilômetros da cidade mais próxima.

(o Conexão Planeta contou sobre este projeto em agosto de 2016 e, desde então, vem acompanhando a chegada de cada elefante ao santuário: as reportagens estão indicadas no final deste post)

Livre de olhares humanos, é a primeira vez que Bambi tem uma manada. Sua rotina inclui comer frutas e alfafa, passear pelo cerrado da região com suas companheiras, Rana, Lady, Maia e Mara, e receber os cuidados de Katherine Blais, a técnica que, junto com seu esposo, Scott Blais, idealizou e dirige o local.

Cicatrizes, abscessos e dor crônica

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As sequelas dos maus tratos nos circos e da idade avançada se revelam também nos detalhes.
Aqui, Rana, uma das elefantas da manada recebe cuidados no Care Center do SEB.
Foto: Rogério Assis

A mais de dez metros da grossa cerca de madeira e ferro que a mantém distante com quatro humanos, Bambi finge não perceber a movimentação da máquina fotográfica. Basta dois cliques e ela surge, com uma agilidade impressionante, a menos de dois metros da cerca. Com uma espécie de sorriso de canto de boca, fita os intrusos com ar de quem busca uma travessura. 

“Melhor se afastar. Mesmo uma brincadeira pode ser perigoso”, alerta Scott, que não permite que os elefantes sejam apresentados como atração no local. “Já passaram a vida sendo expostas, merecem paz”, repete. 

A frase é quase um mantra ecoado durante todos os dias em que eu e o fotógrafo Rogério Assis visitamos o santuário em busca de compreender porque os Blais sonham em reunir, ali, os mais de 27 paquidermes cativos do Brasil. “Queremos todos da América do Sul!”, corrige Scott. 

A proximidade com Bambi traz algumas respostas. Ela é muito mais magra do que parece de longe e bem menos jovial. Nossa presença parece não a agradar depois de um breve tempo de contato. Nos afastamos, mas a elefanta mudou o comportamento. 

Com o olhar vidrado no espaço, Bambi permaneceu alguns minutos em um angustiante movimento repetitivo, como se tentasse livrar-se de argolas invisíveis. De perto também foi possível ver que o tamanho impressionante do animal – mais de três metros de altura – esconde uma marca no olho esquerdo. Bambi é parcialmente cega

A estereotipia de movimentos e os ferimentos no cristalino são frutos de anos de trabalho forçado em circo e de uma vida resumida à solidão. Como Bambi, quase todas as outras elefantas do recinto carregam cicatrizes e abscessos em seus corpos

A maioria dos machucados foram feitos por correntes e bullhooks, ferramentas de madeira ou metal na forma de gancho na ponta, usadas para ferir os elefantes a fim de que se submetam ao treinador. 

“Dificilmente Bambi conseguirá superar por completo todos os problemas físicos e emocionais que carrega. O que tentamos aqui é reduzir o sofrimento delas. A maioria ainda enfrenta muita dor crônica. Por anos de péssima alimentação e expostas a recintos com pouca higiene, elas chegaram com os dentes, as gengivas e as unhas muito inflamados, além de outros traumas”, explica Katherine ou Kat

Rana, Bambi e Mara: inseparáveis

Rana, Bambi e Mara, sempre juntas / Foto: Divulgação

O comportamento natural do elefante os torna os seres mais sociáveis do mundo. Mas, os contínuos anos de cativeiro, pode fazer a espécie tornar-se avessa ao contato com os seus pares.

Kat relembra que Bambi não sabia interagir com outros elefantes quando chegou ao Santuário. Ela queria enroscar a tromba e adotava uma constante postura de contato, o que chegou a estressar alguns animais. 

“Foi Rana, outra idosa gentil do Santuário, quem a ensinou a ser novamente uma elefanta e livrar-se de muitos traumas do confinamento”, conta Kat, fitando Rana, a mais gordinha da manada, que ostenta uma simpática mancha cor-de-rosa na tromba

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Na primeira foto, Rana (à esquerda), a mais idosa e gordinha da manada, com sua tromba manchada de “rosa”, e Bambi, na hora do lanche, sem Mara, que, durante nossas passagem pelo SEB, estava em observação porque se alimentava pouco. Na segunda imagem, Bambi e Rana, de costas / Foto: Rogério Assis

Rana, Bambi e Mara são um trio inseparável. Enquanto uma recebe os cuidados de Kat em uma espécie de galpão gigante na forma de recinto,as outras duas a aguardam, em apoio.

“Elas são assim, uma cuida da outra o tempo todo. O comportamento de Bambi mudou muito após receber tanto carinho das outras elefantes. Quando chegou, ficou uns dias no recinto de transporte. Depois, foi incrível, desabrochou. Hoje, Bambi, essa magrelinha, é tão saltitante que esquecemos que tem quase três toneladas”, explica Shirlei Cioruci, integrante da equipe de tratadores do local. 

O trabalho no Santuário é árduo e exige muita força física. Todos os dias, Shirlei descasca quase cem quilos de frutas e limpando legumes para as elefantas. Outros dois tratadores ajudam no manejo, carregando alfafa e mantendo o local limpo. A maioria dos trabalhadores do Santuário é vegetariano e ativista da causa animal

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Frutas e legumes dominam a dieta das elefantas / Foto: Rogério Assis

Antes da decisão do Tribunal de São Paulo, Bambi poderia ter vivido uma das maiores torturas para uma fêmea de elefante, a morte solitária

Após chegar ao Santuário, o promotor de Justiça, Wanderley Trindade, chegou a pedir que o animal fosse trazido de volta para Ribeirão Preto. A alegação foi que Bambi era bem tratada no zoológico e que fazia parte do patrimônio público da cidade.  

“[…] é do interesse da população de Ribeirão Preto e da região metropolitana a sua permanência do zoológico Fábio Barreto”, escreveu Trindade no processo, em petição que foi anexada no último mês de novembro de 2020. Por sorte, o Tribunal de Justiça de São Pauilo não acatou o pedido (o Conexão Planeta contou sobre isso).

Maia, ‘a pequena mamute’; Lady, a mais aventureira do bando 

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Foto: Rogério Assis

Os recintos são separados em até cinco porções (os tamanhos variam: o menor é o 1, com 0,42 hectares; o maior é o 4, com 15,65 hectares), com paisagens variadas e passagens entre si (veja, num dos posts no Instagram do SEB, um mapa do Santuário).

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Este é o Care Center, onde as fêmeas que ocupam atualmente o SEB recebem tratamento
de saúde, alimentação controlada e banhos. Na foto de Rogério Assis, Scott com Bambi e Rana

Em uma das partes ficam as instalações de cuidados veterinários e outras bem afastadas, mais próximas a um grande vale, com cerrado nativo.

Lady, a caçula do bando / Foto: Rogério Assis

Nessa região, vive Lady, “a que mais se aventura pelo espaço, apesar de ter as duas patas da frente muito machucadas devido a anos de confinamento”, explica Scott. “Mesmo assim, Lady insiste em viver seus dias livre na natureza, explorando o Santuário”, acrescenta Mateus de Assis Bianchini, o veterinário matogrossense da equipe.

Próxima de Lady está a área onde Maia, a mais nova, permanece em seu em luto. Para avistá-la, é necessário percorrer as trilhas mais afastadas do Santuário em um quadriciclo.

Ver Maia em meio ao Cerrado é uma cena que emociona. Com pelagem avermelhada e olhos quase verdes, ela lembra o que poderia ser um pequeno mamute, como os que viveram ali há milhões de anos.  Seus movimentos são gentis enquanto se aproxima do quadriciclo, como quem faz um comprimento.

Sua maior diversão é mastigar vegetação e nadar. A água alivia o peso de três toneladas que pressionam suas patas lesionadas, um prazer roubado por décadas em circos. 

Santuários reduzem sofrimento dos animais capturados e explorados

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Maia em uma de suas caminhadas pelo santuário / Foto: Rogério Assis

Na natureza quem lidera as manadas de elefantes são as fêmeas. Tanto entre as espécies asiáticas (Elephas sp.), quanto nas africanas (Loxodonta sp), são guiadas por matriarcas. Já os machos são mais solitários e se aproximam dos grupos  em época reprodutiva, ou se agregam em casais.

Com uma gestação de quase dois anos (22 meses), filhotes são eventos especiais. De difícil reprodução, elefantes precisam de uma extensa área para sobreviverem, e de muito contato de grupo.

A espécie nunca foi considerada domesticada, porém é usados pelos homens há milênios, como transporte, armas de guerra ou atrações de circos e zoológicos

A caça e a perda de habitat incluiu os elefantes na lista dos animais que correm risco de desaparecer do planeta. A ONG União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) classifica o elefante africano como vulnerável de extinção (VU), Já o asiático é considerado como em perigo de extinção (EN), uma das categorias mais próxima de risco.

No caso dos asiáticos, a melhor evidência disponível indica que a espécie provavelmente será extinta num futuro próximo. Este é o segundo estado de conservação mais grave para as espécies na natureza.

Para chegarem aos 75 anos, os elefantes precisam de 200 quilos de alimentos e até 100 litros de água por dia. A dieta da espécie inclui gramíneas, ervas, bambu, cascas de árvores e raízes, o que requer grandes áreas naturais, cada vez mais tomadas pelo ser humano. 

Restam menos de 300 mil elefantes africanos e 53 mil asiáticos livres na natureza. Segundo estudo da Academia de Ciências dos Estados Unidos, publicado em 2015, baseado em dados da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Selvagem (CITES), a população total de elefantes africanos e asiáticos decaiu entre 50% a 64% em uma década.

Censo Geral dos elefantes africanos de 2016, realizado em 18 países do continente, mostra que, mesmo no seu continente de origem, restam 352.271 indivíduos. A população declinou em 30% entre 2007 até 2014.

A vida em cativeiro não garante a sobrevivência da espécie, que dificilmente se reproduz nessas condições. Os santuários foram criados apenas para reduzirem o sofrimento dos animais capturados filhotes e que passaram a vida servindo aos humanos. 

O sonho dos elefantes

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Vista áerea de parte da reserva do Santuário dos Elefantes, na Chapada dos Guimarães, MT
Foto: Rogério Assis

“Eu me apaixonei por elefantes quando tinha quinze anos. Fui fazer um trabalho como tratador e decidi que minha vida seria trabalhar com eles. Presenciei o sofrimento deles, decidi dedicar minha vida a salvá-los”, diz Scott, considerado um dos maiores especialistas em manejo de elefantes em cativeiro do mundo

Em 1995, ele foi um dos cofundadores do Global Sanctuary for Elephants (GSF)organização sem fins lucrativos sediada no Tennessee, EUA, que visa ao fomento e ao desenvolvimento de projetos de santuários de elefantes no mundo todo. Foi também no Santuário dos EUA, que o casal Scott e Kat se conheceu.

Ela abandonou uma carreira de mais de uma década como técnica em veterinária em um subúrbio de classe média alta em Nova Iorque, nos EUA, para trabalhar com os elefantes. 

“Minha vida era tratar infecções gástricas em pets, eu estava muito entediada e queria outros desafios. Foi quando decidi estudar animais selvagens e vi que havia uma vaga no Santuário do Tennessee. Acabei conhecendo o Scott e casamos”, conta. 

A vinda de Scott e Kat para o Brasil foi motivada também pelos elefantes. 

“Havia o pedido de alguns zoológicos para que os animais fossem resgatados. Vimos que existia a necessidade de um espaço aqui também, como o que temos nos EUA. Viajamos muito pelo Brasil até encontrar esta área, praticamente perfeita.”, explica Scott mostrando as serras e a paisagem quase jurássicas do Cerrado de Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso.

Ironicamente, o local, há alguns milhões de anos, abrigou mamutes.

Tristes despedidas 

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Guida chegou ao SEB com Maia, em 2016, e morreu em julho de 2019 – Foto: Divulgação

Hoje, além dos fósseis, o Santuário contém duas ossadas de elefantes asiáticos. O local já foi palco de uma das cenas mais impressionantes da natureza, a despedida de elefantes da manada

Guida era a nossa líder, a partida dela abalou a todos. Foi ela quem me ensinou como tratá-los aqui. Só conseguimos manejar e cuidar de um elefante quando ganhamos sua confiança e eles nos permitem tocá-los. É impossível depender de anestesia para manipular um elefante”, conta Kat.

“Esse tratamento é baseado em extrema confiança. Qualquer  movimento errado meu, pode ser fatal. Guida me mostrou como esses seres são fantásticos, gentis e pacientes, apesar de tudo que nossa espécie já fez”, complementa a técnica, com os olhos cheios de água. 

Após a morte de Guida, em julho de 2019, a manada do Santuário passou dias velando-a. O Santuário seguiu as regras do licenciamento ambiental do local para medidas sanitárias, mas a morte foi muito parecida com a de um animal em ambiente natural. Guida deitou-se debaixo de uma árvore e ficou lá acompanhada pela manada.  “Uma das fêmeas, Maia permanece de luto, afastada do bando até hoje”. 

Ramba chegou ao Santuário em outubro desse ano, depois de uma longa viagem por estradas e avião, numa grande operação de logística que a trouxe do Chile (como o Conexão Planeta contou, aqui). Usufruiu do novo espaço por dois meses apenas: foi encontrada morta por Scott num dia de dezembro, em um dos seus lugares favoritos: o recinto número 4, além do riacho.

“Ela parecia estar dormindo”, contou ele, em mensagem publicada no site do SEB. De forma muito amorosa, ele falou da preciosa convivência com Ramba, que sofria de problemas renais há sete anos. “Nessa época, tínhamos muita esperança que ela conseguisse viver por mais um ano, no mínimo. Milagrosamente esse ano transformou-se em sete, dando-lhe forças que a ajudaram a chegar ao Santuário”.

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Ramba viveu apenas dois meses no SEB: ela tinha problemas renais há sete anos – Foto: Divulgação

Scott também revelou que Ramba foi um dos motivos pelos quais ele e Kat resolveram seguir em frente com a ideia do Santuário no Brasil.

“Nos apaixonamos por ela, quando a conhecemos. Não havia como deixá-la para trás ou esquecê-la depois de a ter conhecido. Parece que não somente os humanos se sentiram assim, aqui. Ramba teve um efeito de sustentação sobre Maia, Rana a adorava e até Lady parecia relaxar e confiar em sua presença”.

Resistência à dor

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Foto: RogŽério Assis

Segundo os estudos de ecologia dos elefantes, esses animais, realmente têm consciência da morte – velam seus mortos, às vezes durante dias A espécie também tem empatia suficiente para ajudar os fracos e doentes, usam ferramentas para resolver problemas e são capazes, inclusive, de detectar campos minados.  

Um estudo de 2019, publicado na revista da Academia Nacional de Ciências americana, revelou que os elefantes podem contar usando apenas o sentido do olfatoA resistência de um elefante à dor também é incrível.  

Segundo Mateus Bianchini, veterinário, todas as elefantes que estão hoje no Santuário enfrentam algum sofrimento físico real. Ele descreve alguns dos danos físicos que o cativeiro e ambientes irregulares causaram a elas:  

Rana é a mais velha, tem quase 63 anos. Ela tem um problema na articulação da escápula esquerda e caminha com essa pata dianteira sempre reta. Lady, a mais nova, tem as duas patas da frente com uma grave lesão óssea.  Bambi é cega de um dos olhos e a mais alta. Mara tem um problema no estômago que ainda não conseguimos identificar, pois é muito complicado fazer exames com ultrassom em um elefante. Maia é a mais saudável: chegou com uma lesão abaixo da axila direita, mas agora está curada”.  

Danos ambientais? O SEB restaurou área de pasto para alimentar as elefantas

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Foto: Rogério Assis

Antes da criação do Santuário, alguns grupos contrários à vinda dos elefantes, acusaram o SEB de criar animais que poderiam destruir a vegetação nativa do Cerrado

O temor era que as cinco elefantas consumissem toda a vegetação da região. Uma preocupação quase irônica, considerando que Mato Grosso tem o maior rebanho bovino e a maior área plantada de soja do país. 

“Sim, eles tinham medo do impacto de alguns elefantes. Muito triste, não vou entender nunca esse temor. Na verdade, o que estamos fazendo é remanejar uma área de antigo pasto pra vegetação natural. Estamos aumentando a área verde natural daqui.”, explica Scott, enquanto mostra o mapa da área do Santuário em um notebook na sala de sua casa. 

Ele permanece muito tempo apontando no mapa todas as parcelas de Cerrado nativo que permanecerão como reserva legal obrigatória do SEB.

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Foto: Rogério Assis

A visão de Scott sobre a área é muito diferente da cultura que encontrou na região. Sua forma de interagir com os animais dali é um pequeno exemplo de sua visão sobre as razões da existência do SEB.  

Na sala da casa de Scott, os gatos tentam interromper a apresentação e sentam no computador, enquanto duas galinhas dormem em camas de cachorro, com talas improvisadas para tratar ferimentos nas patas. Uma situação que as levaria imediatamente para a panela se pertencessem a outros donos. 

“Quando chegamos havia algumas galinhas dos antigos proprietários. Pedi para o caseiro cuidar delas e quando voltei ele estava atirando nos animais (!). Foi quando decidi proibir de comer carne aqui”, explica. 

Sim, além dos elefantes, duas ovelhas, quase duzentas galinhas, três cães e dois gatos circulam pelo local livremente, inclusive visitando as áreas dos elefantes. A interação entre as espécies é pacífica, mesmo com a diferença descomunal de tamanho. 

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As elefantas do SEB se adaptaram ao ambiente natural da Chapada dos Guimarães, no MT,
e convivem muito bem com outras espécies / Foto: Rogério Assis

A superpopulação de galinhas foi contornada com a separação de galos e galinhas. As aves e os outros animais do recinto têm o mesmo status de todos os outros moradores, sejam elefantes ou humanos. Na cozinha da casa, frutas e verduras comprovam a realidade da dieta predominante do SEB.

A falta de riscos à integridade do ambiente foi comprovada. Uma publicação de 2019, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) de Mato Grosso, mostrou que a interação dos elefantes do Santuário com a vegetação natural é quase sem impacto. 

O empreendimento possui licença de operação emitida pela Sema para abrigar até dez animais em uma área de mais de 20 hectares. 

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As inseparáveis Rana e e Bambi / Foto: Rogério Assis

Os quatro de Mendonza”

O sonho do casal é aproveitar o licenciamento e trazer novos animais para a área. A proposta é que esses novos elefantes cheguem o mais rápido possível para o SEB.

Um novo desafio de gestão, pois Scott e Kat pretendem transportar um macho asiático e elefantes-africanos, estes últimos têm a fama de serem mais violentos e maiores, com até quatro metros e cinco toneladas

Scott questiona o desafio e defende que não há diferença entre as espécies.

“Isso é um mito, os africanos são mais expressivos e vocalizam mais do que os asiáticos, mas ambos são animais com as mesmas características de comunidade. Estamos totalmente aptos a recebê-los”, diz, mostrando a área escolhida para ser lar dos animais batizados como “Os quatro de Mendonza”, devido à localização do ecoparque onde vivem.

Integram os futuros moradores do SEB uma verdadeira família de elefantes asiáticos: Tamy, Pocha e a filha do casal, uma jovem elefanta de 22 anos, Guilhermina. No grupo também tem uma jovem elefante africana, Kênya.

A vinda do grupo para o Brasil conta com o apoio de uma das conselheiras do Santuário, Joyce Poole, diretora-científica da organização ElephantVoices, e Ph.D. em comportamento de elefantes pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Ela estuda o comportamento social e a comunicação dos elefantes africanos há mais de trinta e cinco anos. 

Com a redução de seu habitat, é cada vez mais frequente ver elefantes-africanos em cativeiro. Apesar da proibição da caça em grande parte do mundo, ela ainda acontece no Zimbabue e em Botsuana, no continente africano.   

Há sete anos, no Zimbabue, um caçador pagou R$ 200 mil para matar um elefante de quase 60 anos. A idade do animal é uma estimativa devido o tamanho de suas presas, com quase 50 quilos. 

Na Argentina, os elefantes africanos, como Kênya, são sobreviventes dessas caçadas legais. Eles chegaram filhotes à América e tiveram que ser entregues a zoológicos para sobreviverem. Memo os que nascem em zoológicos, acabam em condições ruins.

“A filhote de Tamy e Pocha nunca esteve num local gramado. E o macho foi separado da fêmea e da filha, que permanecem juntas. A família se comunica apenas através de um muro, onde podem tocar as trombas em algumas situações. É muito triste”, conta Scott (entenda a situação triste em que vive Tamy no vídeo publicado pelo SEB em suas redes sociais: veja no Instagram e no Facebook).

Por isso, a meta do santuário é transportá-los o mais rápido possível para o Brasil.

O custo da construção do novo recinto para machos asiáticos, entre eles, o Tamy, é estimado em pouco mais de R$ 1,7 milhão. Destes, quase R$ 715 mil foram arrecadados em uma campanha de arrecadação (Vem Tamy!), até o fechamento deste post, em 8 de julho. Mas o SEB anunciou, em suas redes sociais (como o Instagram), que o montante para trazer Tamy (a primeira fase do recinto para os machos) foi alcançado.

Em breve, este senhor de 50 anos, poderá viver em liberdade numa reserva linda, bem diferente do fosso de concreto no qual tem passado as últimas três décadas.

A seguir, retratos das cinco fêmeas que habitam o Santuário dos Elefantes Brasil e receberão Tamy:

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Bambi: a mais ativa e alta do grupo, se locomove com muita rapidez, apesar de ser cega do olho esquerdo.
Foto: Rogério Assis
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Lady: a mais jovem do grupo, tem as patas frontais lesionadas, mas se locomove muito pelo recinto, apesar da dor Foto: Rogério Assis
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Maia: a mais saudável do grupo, tem pelagem avermelhada e adora nadar.
Ainda está “de luto” devido a perda de seus amiga Guida. 
Foto: Rogério Assis
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Mara: uma das mais velhas, tem problema digestivo e inflamações numa das patas por ter
ficado em recintos inadequados e muito úmidos / Foto: Rogério Assis
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Rana: atual lider da manada, é muito apegada a Katty. Tem problema na articulação de uma das patas
e caminha mancando / Foto: Rogério Assis

Leia também:
Bambi, futura moradora do Santuário dos Elefantes Brasil, a caminho (setembro de 2020)
Mara, da Argentina, a nova moradora do Santuário dos Elefantes, na Chapada dos Guimarães (maio de 2020)
Morre Ramba, uma das moradoras do Santuário dos Elefantes Brasil morre (dezembro de 2019)
Lady a caminho: em breve, a quarta moradora do Santuário dos Elefantes (novembro de 2019)
Ramba chega ao Santuário dos Elefantes após viagem de quatro dias (outubro de 2019)
Ramba chega ao Brasil: parafernália logística em aeroporto recebe elefanta do Chile (outubro de 2019)
Rana, a nova moradora do Santuário dos Elefantes Brasil (janeiro de 2019)
Santuário dos Elefantes de luto: depois de viver três anos livre no Cerrado, Guida morre aos 44 anos (julho de 2019)
Maia e Guida chegam ao Santuário dos Elefantes na Chapada dos Guimarães (out. 2016)

Foto (destaque): flagrante de Lady por Rogério Assis

Edição: Mônica Nunes

Juliana Arini (texto) e Rogério Assis (fotos)

Juliana Arini é jornalista, fotógrafa e documentarista especializada em temas socioambientais, energia e Amazônia. Mora em Mato Grosso e colabora com a National Geographic Brasil, entre outros veículos de comunicação. Foi repórter da Época, editora do ‘Globo Natureza’ e grantee do Pulitzer Center. O fotógrafo Rogério Assis iniciou sua carreira documentando os costumes e a cultura dos indígenas brasileiros para o Museu Emílio Goeldi. Trabalhou para agências de notícias e grandes jornais, e descobriu sua paixão pela fotografia documental. Teve editora (Mandioca) e revista (Pororoca) pra falar só da Amazônia. Desenvolve projetos editoriais – com destaque para o livro sobre os indígenas Zoé – e colabora com Greenpeace e Instituto Socioambiental (ISA) cobrindo principalmente a realidade dos povos originários

4 comentários em “Criadores do ‘Santuário de Elefantes Brasil’ querem transformá-lo no maior do mundo

  • 10 de julho de 2021 em 10:26 AM
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    Será pouco pedir perdão de joelhos, a estes animais sofridos, por termos sido tão maus e cruéis com eles. No entanto, Katherine e Scott estão fazendo muito mais do que isso. Estão se doando, mostrando-lhes o lado luz da vida, para eles, que estavam quase mortos. Estão lhes devolvendo a alma, banida do corpo deles pelo algozes sem alma. Se é verdade que elefantes jamais esquecem a face dos verdugos e carcereiros que injustamente os aprisionaram ontem, também é verdade que não esquecem o rosto de quem, hoje, os acolhe com o amor de pai e mãe para que desfrutem de um céu merecidamente deles, ao lado de seus irmãos de espécie. Saberão ser gratos por toda a sua vida e até mesmo além da morte porque GRATIDÃO é o sentimento que trouxe a alma deles de volta.

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    • 12 de julho de 2021 em 12:23 PM
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      Que todos elefantes que vivem em circo ou zoo na América do Sul sejam transportados para o santuário para viverem em paz sem tortura sem sofrimento, um belo trabalho de Scott e kat criadores desse lugar fantástico para os elefantes otima matéria

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  • 12 de julho de 2021 em 10:46 AM
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    Competência para isso, os idealizadoras do Santuário tem se sobre, prova disso é Santuário do Tennesse e o apoio do Governo de Mendoza que liberou todos os elefantes para virem. Como eles não tem mais capacidade de ser soltos no habitat deles, sem contar que ninguém iria bancar uma viagem daqui para a África ou Ásia, nada mais justo do que criar um para poderem ter o resto da vida que foi tirado desde que eram pequenos.

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  • 13 de agosto de 2021 em 10:18 AM
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    maravilhosa iniciativa.

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