Coronavírus já matou 121 indígenas em 59 etnias: “Com cada um deles, morre parte da nossa história coletiva”, lembra a líder Célia Xakriabá

Atualizado em 22/5/2020

O texto depois do card (abaixo) foi escrito em 18/5. Mantive as informações intactas e optei por incluir a atualização dos dados (22/5) do Comitê Nacional da Vida e Memória Indígena apenas no início do texto, como segue:

 Indígenas/dia18/521/522/5
Falecidos103110121
Infectados610758846
Etnias 44 53 59

Entre os estados, o Amazonas lidera com 89 mortes. Em seguida, vem Pará e Pernambuco (8), Roraima (6), Ceará (5) e os demais com um único caso fatal: Amapá, Alagoas, Mato Grosso, Rio Grande do Norte e São Paulo. Até 21/5, eram 9 estados; agora são 10.

Segundo informações do Ministério da Saúde, a taxa de letalidade dos indígenas é de 14,3% e a dos não-indígenas, 6,5%.

No quadro abaixo, um resumo do que acabo de escrever. A seguir, veja porque os dados da Sesai, vinculada ao Ministério da Saúde, são tão diferentes dos dados levantados pelo Comitê, que reúne inúmeras organizações e especialistas. Tambem leia o que diz a líder indígena Célia Xakriabá sobre as mortes indigenas e saiba como ajudar.


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Texto escrito em 18/5/2020:

Enquanto a Sesai – Secretaria de Saúde Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde, diz que, até 17/5, 23 indígenas foram vítimas fatais da COVID-19 e que 370 estão infectados, o Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígenaformado durante a Assembleia Assembleia Nacional de Resistência Indígena, no início deste mês* –, mais uma vez, aponta que os dados oficiais estão muito aquém da realidade.

De acordo com seu levantamento – que envolve diversas organizações – já morreram 103 indígenas e 540 estão contaminados em 9 estados: Amazonas (o pior, com 78 mortes), seguido por Pernambuco (7), Pará (6), Ceará (4), Roraima (3) e Rio Grande do Norte, São Paulo e Alagoas (1). No quadro abaixo, estão indicadas as 44 etnias atingidas. O povo Kokama continua sendo o que mais sofre com o coronavírus.

Como já contamos, aqui, a discrepância entre as informações da Sesai e do comitê se deve principalmente ao critério de localização do indígena contaminado e falecido, adotado pelo governo: entram em sua conta apenas os casos de indígenas que vivem em aldeias, excluindo os que moram nos centros urbanos.

“Mortes indígenas não são apenas números, são corpos com memórias, histórias e vozes coletivas

Esse é um dos trechos da declaração muito tocante que a a líder indígena Célia Xakriabá fez, em seu perfil no Instagram, sobre o a morte de indígenas devido a pandemia do coronavírus.

Ela falou da importância dessas vidas e das histórias que se perdem com a morte, da cultura e da sabedoria que têm sua potência reduzida de forma brutal e não natural. Reproduzo sua mensagem, aqui, como um registro delicado e amoroso, mas também de tristeza e de indignação. Como um alerta e um apelo.

“Mortes indígenas no Brasil não são apenas números, são corpos com memórias, histórias e vozes coletivas. A cada Indígena que se vai é uma voz que deixa de entoar o canto. É uma mão que deixa de bater o maracá. Do luto à luta. Não é somente número, cada corpo Indígena tem uma encantaria ancestral.

Com cada Indígena morto, morre parte da nossa história coletiva. Enterrar um parente pelo genocídio em massa é enterrar mais um corpo que luta por direito. Cada Indígena derrubado é uma árvore ameaçada”.

Célia finalizou sua mensagem convidando todos nós a ajudar os povos indígenas a passarem por este momento, de forma menos vulnerável: Quer fortalecer as lutas dos povos indígenas para enfrentar a pandemia? A seguir, damos algumas sugestões.

Como ajudar os povos indígenas

Com o coronavírus, a vulnerabilidade dos povos indígenas é ainda maior. Um dos fatores é o aumento das invasões de garimpeiros e de outros exploradores em territórios indígenas nesta pandemia. Isto se deve ao apoio do governo Bolsonaro, que nada faz para proteger esses povos e ainda enfraquece os órgãos de fiscalização como Ibama e ICMBio. A Terra Indígena Yanomami, por exemplo, que até novembro do ano passado tinha 20 mil garimpeiros, hoje está com cerca de 30 mil. Um jovem de 15 anos dessa etnia foi uma das primeiras vítimas do coronavírus entre esses povos no Brasil.

Além disso, para obter a renda emergencial a que muitos indígenas têm direito – e que pode ajuda-los a comprar kits de higiene, alimentos e equipamentos de proteção -, os indígenas aldeados são obrigados a ir até as cidades. Quando voltam às aldeias, sem orientação nem assistência, levam o vírus e infectam os demais integrantes de suas etnias. E assim a doença se espalha. 

Mas, então, o que podemos fazer para ajudar esses povos a enfrentar a pandemia?

Acompanhar e divulgar informações sobre a realidade indígena, é uma forma eficaz de manter os brasileiros atentos para que possam colaborar com doações de que tudo que lhes faz falta. Inclusive brasileiros que moram no exterior, ou estrangeiros interessados na causa indígena.

O site Quarentena Indígenacriado durante a Assembleia Nacional de Resistência Indígena, no inicio deste mês, para divulgar os dados levantados pelo Comitê (ver mais informações no final deste post) – e o observatório da Apib (Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros), pelo Instagram são duas boas fontes para obter informações confiáveis.

A Apib criou uma campanha de financiamento coletivoVakinha online – que é ininterrupta, com a qual você pode contribuir sempre que puder. Trata-se de uma forma direta de colaboração.

Outra fonte bacana é o Instituto Socioambiental que reúne, em uma página de seu site, boa parte das campanhas de doação de dinheiro, alimentos e outras exclusivamente para os povos indígenas.

A organização também mantém uma plataforma de monitoramento da situação indígena durante a pandemia do coronavírus no Brasil. Nessa página, ainda há um indicador de vulnerabilidade dessas etnias à doença e estão publicados relatos sobre cada indígena que morreu, para que saibamos quem são, para que sejam sempre lembrados e não se transformem em números.

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*Formado durante a Assembleia Assembleia Nacional de Resistência Indígena – no início deste mês, que reuniu lideranças e especialistas de diversas áreas -, o Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena divulga dados que reúnem a apuração das informações de diversas organizações indígenas regionais: Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME); Conselho do Povo Terena, Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste (ARPINSUDESTE); Articulação dos Povos Indígenas do Sul (ARPINSUL); Grande Assembléia do povo Guarani (ATY GUASU); Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e Comissão Guarani Yvyrupa, sob a coordenação da  Apib – Associação dos Povos Indígenas Brasileiros.

Foto: Renato Soares (destaque), Reprodução do Instagram (Célia Xakriabá)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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