Coronavírus e crise climática: e se você soubesse antes?

Imagine, por um momento, que você soubesse de tudo isso: da COVID-19, do cancelamento dos vôos, das mortes e dos hospitais abarrotados, do distanciamento social, do sofrimento obsceno dos doentes – antes de acontecer. “Quanto tempo antes”, você pergunta? Digamos que um ano, dois ou, quiçá, dez.

O que você faria com o tempo que lhe restaria de normalidade anterior à crise? Como agiria diante da certeza de que, mais cedo ou um pouco mais tarde, chegaria o dia que transformaria tudo? Você tomaria uns tragos a mais no boteco? Diria para aquele garoto que o ama? Deixaria de ir à academia ou se dedicaria mais à ginástica? Compraria um estoque de álcool gel e máscaras? Faria de tudo para avisar parentes, amigos e a sociedade, mesmo correndo o risco de ser taxada de louquinha?

Pois é esta a situação dos climatologistas, os cientistas do clima, aqueles que dedicam a vida a entender o que acontece com o sistema climático do planeta Terra. Tal como os estudiosos de pandemias – entre eles o hoje famoso Átilo Iamarino -, os climatologistas sabem que nossas vidas vão mudar.

Sabem disso há décadas, embora não tenham certeza de quando, não exatamente. Mas já viram os primeiros sintomas. Disseram que o tempo iria esquentar, dizem isto há muito tempo, e não é que os últimos cinco anos, de 2015 a 2019, foram os mais quentes da história? Isto é perigoso? Sim, é muito perigoso porque é cumulativo. Só piora.

Os estudiosos do clima já chegaram à conclusão de que não dá mais para evitar uma crise de impacto forte em todo o mundo. Esta é a má notícia.

Os furacões serão cada vez mais fortes e perigosos. As chuvas serão mais intensas, as secas, também. O nível do mar vai subir e começar a invadir diversas cidades ao redor do planeta, como Nova York, Recife, Rio de Janeiro e Miami, sem falar de Caraguatatuba. No estado da Flórida, algumas cidades já inundam regularmente. A temperatura média da Terra continuará a subir e não deve parar tão cedo, talvez nunca, aliás, se a gente – a gente no caso é a humanidade – não tomar providências. Haverá outros impactos também, mas falemos deles mais adiante, em outro texto.

A boa notícia é que os cientistas, engenheiros e ativistas têm já muitas soluções e ideias claras para ajudar a humanidade a se esquivar do pior. Muitos daqueles que souberam antes dessa catástrofe iminente se dedicaram ao longo das últimas décadas a montar planos para enfrentá-la.

Tal como acontece com a COVID-19, não dá mais para evitar uma crise – neste caso, a do clima. Mas como os cientistas já sabem faz tempo que ela irá acontecer, mapearam as melhores maneiras de enfrentar a tempestade.

Para começo de conversa precisamos parar de queimar carvão, gasolina, gás e óleo diesel – o quanto antes. Comer menos carne ajudaria também, tal como plantar mais árvores. No Brasil, o mais importante é preservar a floresta amazônica. Mas o mais urgente mesmo, mundialmente, é parar de queimar os combustíveis chamados fósseis (da lista acima). São eles os principais responsáveis pelos gases de efeito estufa que estão aquecendo o ar e os mares e todo o sistema climático do nosso planeta. Por que não disseram antes?

Avisaram, como também veremos mais adiante. Esta crise é cantada em verso e prosa e filmes e na mídia social há décadas.

Em 1988, o diretor da NASA, James Hansen, explicou tudo para o Congresso dos Estados Unidos em um evento público que ganhou destaque na primeira página do New York Times. Não é nenhum segredo. Mas os poderosos, capazes de tomar medidas contra a crise do clima, não quiseram ouvir ou fizeram pouco.

Muitos políticos, como os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, tentam ainda hoje negar a existência da crise climática, igualzinho fizeram quando a COVID-19 se manifestou.

Eles e outros negacionistas são financiados pelas indústrias de carvão, petróleo e gás. Estas, as principais responsáveis pelo aquecimento global, gastaram bilhões de dólares na produção de desinformação, de notícias falsas, campanhas políticas e pesquisas duvidosas. Todo este dinheiro foi investido para fazer com que você e seus pais e seus tios e seus amigos duvidassem da gravidade da crise do clima.

Infelizmente, a crise climática já começou a mostrar seu poder devastador. Tal como acontece com a pandemia do coronavírus, não dá mais para esperar. Não se mexe com o clima terrestre impunemente. Os cientistas sabem disso. Chegou a hora, já passou a hora, aliás, de ouví-los.

* Este texto foi publicado originalmente no site Fervura.Net, em 12/4/2020

Ilustrações e charge: Caco Galhardo

Matthew Shirts

Jornalista, escritor, colunista e produtor de vídeos, lançou a edição brasileira da National Geographic, dirigindo a publicação por 14 anos e mantendo-se colunista de 2013 a 2019. Foi um dos mentores do Planeta Sustentável (Editora Abril), a maior e mais influente plataforma sobre sustentabilidade em língua portuguesa (2007/2015). Escreveu crônicas para a Veja São Paulo e O Estado de São Paulo (onde ainda fala de mobilidade urbana) e teve coluna diária na BandNews FM. Colabora com diversas publicações, produz vídeos sobre São Paulo e sustentabilidade, é conselheiro do World Observatory for Human Affairs e desenvolve a Fervura, plataforma dedicada à crise climática.

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