Coronavírus atinge 36 povos indígenas em 8 estados, com 84 vítimas fatais e 415 infectados, revela Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena

Estes dados chocantes foram divulgados hoje, 14/5, pelo Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena, lançado durante a Assembleia Nacional de Resistência Indígena, em 8 e 9 de maio, e que reuniu lideranças e especialistas de diversas áreas. O objetivo desse encontro foi o de fazer um diagnóstico das realidades locais e organizar estratégias para minimizar o impacto da pandemia sobre os povos originários. A partir desses debates – que revelaram a discrepância entre os dados oficiais e a realidade -, surgiram o comitê e o site Quarentena Indígena.

A missão do comitê é acompanhar a disseminação da COVID-19 junto a esses povos já que os dados oficiais, divulgados pela SESAI – Secretaria Especial de Saúde Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde, estão muito aquém da realidade identificada pelas organizações indígenas sobre casos de contaminação e óbitos.

Enquanto o Comitê revela que as vítimas fatais chegam a 84, a SESAI diz que são 19. Enquanto o Comitê indica 415 casos de contaminação confirmados, a SESAI indica 277 (veja os dados da Sesai, no final da página). E assim vai.

De acordo com a Apib – Associação dos Povos Indígenas Brasileiros, essa discrepância de informações se deve principalmente ao critério de localização do indígena contaminado e falecido, adotado pela Sesai: entram em sua conta apenas os casos de indígenas aldeados, excluindo os que vivem nas cidades.

O estado do Amazonas lidera os óbitos entre indígenas (66), seguido pelo Pará (6), Ceará, Pernambuco e Roraima (3, cada), Amapá, Sergipe e São Paulo (1, cada).

Quarentena Indígena: plataforma de divulgação e articulação

O site, idealizado durante a Assembleia Nacional de Resistência Indígena, reúne dados e todos os conteúdos referentes à luta do movimento indígena neste cenário de pandemia do coronavírus.

A página Casos Indígenas reúne a atualização de dados consolidados e divulgados pela Apib com base na apuração das informações das organizações indígenas regionais: Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME); Conselho do Povo Terena, Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste (ARPINSUDESTE); Articulação dos Povos Indígenas do Sul (ARPINSUL); Grande Assembléia do povo Guarani (ATY GUASU); Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e Comissão Guarani Yvyrupa.

Em Informacoes Úteis, o site divulga dados oficias da SESAI e da Fiocruz e também cartilhas e tutoriais produzidos por indígenas e por organizações indigenistas, com um pouco de atraso: os dados indicados, hoje, ainda são de 11/5.

Nele estão notícias da Apib e vídeos divulgados por organizações nas redes sociais, que ensinam, orientam e dão repertório aos indígenas para o enfrentamento desta realidade.

Um exemplo dos vídeos que me chamaram a atenção é a gravação feita pelo Projeto Xingu logo no início da pandemia, com os médios Douglas e Sofia, muito atuantes, queridos e respeitados nas aldeias, que explicam aos indígenas a gravidade da situação.

Outro exemplo bacana é a animação divulgada no Instagram da Coiab/Amazônia (Coordenação da Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), que, de um jeito fácil e muito amoroso, conta para “os parentes” o que é o coronavírus e o que deve ser feito para evitar que a transmissão aconteça e se prolifere – também entre os povos em isolamento voluntário -, remetendo, também, aos tempos da invasão dos portugueses, quando muitos indígenas morreram vítimas de doenças trazidas por eles. Assista ao vídeo no final deste post.

Também estão indicadas no site a vaquinha organizada pela Apib para a arrecadação de dinheiro para a compra de alimentos, remédios e material de higiene para as aldeias (o link direto é este), e a página do Instituto Socioambiental, que reúne todas as “vaquinhas” e campanhas em prol dos povos indígenas.

Outras ações importantes do movimento

O movimento indígena que sempre foi forte, atuante e organizado, nesta pandemia ganhou ainda maior dimensão. Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Apib, contou hoje, em Encontro virtual das frentes indígenas, quilombolas, ambientalistas e Fórum da Amazônia, promovido pela Mídia Ninja em seu YouTube, algumas das ações realizadas neste período, entre elas a Assembleia e a consequente criação do comitê e do site, como contei no início deste texto.

Em 28 de abril, divulgou e cobrou do governo federal 16 medidas urgentes para combater a COVID-19 e impedir que a doença se alastre pelas aldeias. Mas todos sabemos que Bolsonaro e os órgãos competentes – principalmente a Funai – não estão dedicados a essa luta e muito menos interessados em proteger os indigenas. Então, direcionaram suas reivindicações para os governadores. Poucos deram retorno.

Sonia comentou sobre o Acampamento Terra Livre online, realizado no final de abril, com grande repercussão nacional e internacional, que contou com a participação de lideranças, representantes de diversas etnias e o apoio de artistas, e resultou em um documento/carta com reivindicações dirigidas à sociedade. Leia o texto na íntegra, que foi traduzido para inglês, francês, espanhol e italiano como parte das ações realizadas por uma rede internacional de apoio de divulgação e financeiro, composta por pessoas e coletivos.

Em parceria com a Fiocruz, o movimento elaborou um manual de higienização para orientar os indígenas, também sobre como proceder ao receber alimentos e kits de higiene, evitando a contaminação.

No final de sua fala, Sonia fez um apelo para o socorro ao povo Kokama, do Amazonas – estado onde morrem mais brasileiros vítimas do coronavírus -, que já apresenta 36 óbitos, o maior número de mortes entre indígenas. “Trata-se de um verdadeiro genocídio em curso. Precisamos buscar formas de pressionar a Sesai para que atue com barreiras sanitárias e atendimento efetivo”, ressaltou. Vale lembrar que o primeiro caso de coronavírus entre indígenas foi detectado em uma assistente social dessa etnia, que se curou.

A líder indígena também chamou a atenção para a curva de crescimento da transmissão nas aldeias indígenas: “Ela deve atingir um dos picos no meio de junho, devido ao trânsito de pessoas, que não cessou, mas também à falta de estratégias para um combate efetivo e o atendimento por parte da Sesai”.

Agora, assista ao vídeo da Coiab sobre a orientação aos povos indígenas a cerca do coronavírus:

Foto: Imagem do documentário “Amazônia: a nova Minamata?”, de Jorge Bodanzky, cedida para o site Amazônia Latitude / Ilustrações reproduzidas do site da Apib e da animação da Coiab

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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