Contra o garimpo, povos Yanomami e Ye’kwana lançam chocolate produzido com cacau nativo da Amazônia

Não é de hoje que a Terra Indígena Yanomami (TIY) sofre com o garimpo. Mas é fato que a situação voltou a se extremar no governo Bolsonaro. Maior território indígena brasileiro, com 9,6 milhões de hectares, a TIY abriga os povos Yanomami e Ye’kwana, com populações de 25 mil pessoas e 700 pessoas, respectivamente, distribuídas em 321 aldeias.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), os Yanomami são considerados o maior povo indígena do planeta a manter seu modo de vida tradicional, o que se deve ao fato de serem ‘povo de recente contato’. São pelo menos cinco subgrupos que falam línguas diferentes de uma mesma família: Yanomam, Yanomami, Sanöma, Ninam e Yanoamë.

A maior ameaça a essa diversidade é o garimpo. Hoje o território registra a maior invasão garimpeira desde a corrida do ouro nas décadas de 1980 e 1990 – quando o território foi tomado por 45 mil garimpeiros, levando à morte 20% da população Yanomami.

Estima-se que, agora, o número de garimpeiros seja superior a 20 mil. Em 27/11, as lideranças que participaram do Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana redigiram uma carta endereçada às principais autoridades do Executivo e do Judiciário brasileiro. No documento, descrevem os diversos impactos da presença e atividade garimpeira na Terra Indígena.

Chamando a atenção para esse problema, outro ‘ouro’ da floresta, o cacau, desponta como alternativa econômica para valorizar a floresta em pé e se contrapor à atividade garimpeira, que acaba atraindo parte da população indígena. Por isso, os Yanomami e os Ye’kwana estão lançando o primeiro chocolate com cacau nativo da Terra Indígena Yanomami.

O lançamento oficial será em 14/12, das 10h às 16h, em São Paulo, no Mercado de Pinheiros, como parte das atividades do Festival pelos Povos Indígenas, promovido pelo ISA e a rede Origens Brasil (esta rede é reconhecida e premiada pela ONU).

A primeira safra de cacau colhida na TIY deu origem a um lote de chocolate produzido pelo chocolatier César de Mendes, cujo trabalho com comunidades amazônicas já abordei aqui, no Conexão Planeta. Nem preciso dizer que esse é um produto único, que traz no sabor de cada barra o valor inestimável de preservar a floresta, o território e o conhecimento tradicional Yanomami e Ye’kwana.

O cacau desse primeiro lote de chocolate Yanomami é nativo, beneficiado na comunidade Waikás e transformado em mil barras de 50g por Mendes em sua fábrica, no Pará. Em cada barrinha, além de todos esses valores, a gente encontra 69% de cacau, 2% de manteiga de cacau e 29% de rapadura orgânica.

Acostumado a transmutar cacau nativo da Amazônia em chocolate, em trabalho que envolve contato com comunidades tradicionais na localização e colheita dos frutos nativos, Mendes relata que esse lote aromou de maneira mais intensa durante o processo: “As entidades da floresta desceram aqui na fábrica e trouxeram um perfume que não tínhamos experimentado antes. É fora da curva”, brinca. “Esse é um chocolate com presença na boca. Tem persistência prolongada e agradável, com doce equilibrado”.

Uma boa ideia para combater o garimpo

Na verdade, a história dos Yanomami com o cacau e a possibilidade de estruturar essa cadeia produtiva começa bem antes. Preocupado com o aumento do número de garimpeiros na TIY, Maurício, liderança Ye’kwana, sugeriu o cultivo do cacau como possibilidade de geração de renda e contraponto econômico para as comunidades indígenas, em conversa com Moreno Saraiva, antropólogo do ISA que atua no território Yanomami.

O ano era 2012 e o ISA ainda não tinha acúmulo em trabalhos com produtos da floresta para avançar nesse sentido. Mas, cinco anos depois, em 2017, essa situação mudou dentro do Instituto e o cacau voltou à pauta.

Partindo da ideia das lideranças Ye’kwana, em julho de 2018 aconteceu, na comunidade de Waikás, uma oficina promovida pela Associação Wanasseduume Ye’kwana com apoio do ISA e parceria com o Instituto ATÁ, para que César de Mendes compartilhasse com diferentes comunidades as técnicas de colheita e processamento do cacau para produzir matéria prima para chocolates finos. Foi produzida, ali, a primeira barra de chocolate da história da Terra Indígena Yanomami.

“Nós temos muitos conhecimentos da floresta. Fazemos cestaria, artesanato e vimos que esse nosso conhecimento pode gerar renda para as comunidades”, explica Júlio Ye’kwana, liderança local. “A gente estuda na cidade que o chocolate é feito do cacau. E vimos que uma plantação de cacau seria uma alternativa ao garimpo. Nós temos riqueza na natureza e não no subsolo. Temos riqueza aqui em cima e não precisa destruir. Em vez de destruir a gente planta mais, sem deixar ferida na nossa terra. A natureza não vai ficar irritada”, diz.

Moreno, que acompanhou o processo pelo ISA, diz que o objetivo dessa primeira oficina realizada em 2018 era dar uma olhada no cacau, perceber o potencial da região e avaliar se a cadeia produtiva teria impacto econômico positivo. E claro, também dividir conhecimento sobre a fermentação do cacau.

A oficina foi importante para conhecer as variedades de cacau endêmico na região da TIY e também para que os índios tomassem contato com os processos. Ao mesmo tempo, revelou a necessidade de ampliar a quantidade de cacau na região para conseguir o impacto econômico desejado.

Em 2019, aconteceu novo encontro e a colheita de cacau – que deu origem ao primeiro lote de chocolate Yanomami. Cacau de duas regiões da TIY: Waikás e Tototobi – entram na composição. A previsão é que um total de 1.142 pessoas, de cinco comunidades, sejam beneficiadas pelo projeto do Chocolate Yanomami. Para ampliar a produção de cacau, foram plantados 3 mil pés esse ano, e a expectativa é terminar o ano de 2021 com 7 mil pés.

Moreno faz as contas: se cada pé produzir cerca de 600 gramas, esse total de pés de cacau gerará cerca de 4 toneladas de fruto para ser beneficiado e transformado em chocolate, o que já define um impacto financeiro importante para a região.

A barra de chocolate é apenas o começo

Júlio Ye’kwana diz que as comunidades estão animadas para trabalhar com o cacau e acreditam que, como o chocolate, iniciativas para gerar renda de forma sustentável são estratégicas para oferecer alternativas ao garimpo, sobretudo para os indígenas mais jovens.

Valorizar as populações tradicionais e o saber da floresta tem um potencial que vem se mostrando cada vez maior para a chamada bioeconomia. Cacau, pimenta, ervas, insetos, mel, cogumelos, ativos para cosméticos e alimentos são uma fração mínima, embora muito significativa, do que pode nos ensinar e fornecer a floresta.

Para que isso se torne realidade, é preciso preservar a Amazônia e suas populações do garimpo ilegal, do desmatamento, da grilagem e de tantas outras ameaças que se avolumam nesse governo federal. É preciso tratar a floresta com a devida reverência, levando em conta o potencial que ela traz e toda a riqueza cultural e biológica que se perde com a devastação.

A barra de chocolate Yanomami é apenas o começo.

O produto pode ser adquirido pelo site do Chocolates De Mendes.

Foto: Mateus Mendes

Edição: Mônica Nunes

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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