Conselhos Regionais de Biologia do Nordeste recomendam suspensão imediata de obras de parque eólico perto de refúgio da arara-azul-de-lear

Conselhos Regionais de Biologia do Nordeste recomendam suspensão imediata de obras de parque eólico próximo a refúgio da arara-azul-de-lear

No último dia 13 de outubro, os Conselhos de Biologia das 5ª e 8ª Regiões, que, juntos, têm jurisdição em todos os estados do Nordeste, enviaram uma carta manifesto para o Governo do Estado da Bahia, Ministério Público Federal, Ministério Público do Estado da Bahia e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) recomendando a suspensão imediata das obras de construção de um complexo eólico, na região de Canudos, próximo ao único refúgio da arara-azul-de-lear do Brasil. A multinacional francesa Voltalia, responsável pelo empreendimento, pretende instalar 80 turbinas perto do principal habitat dessa espécie, considerada em perigo de extinção. Pelo último censo, realizado em 2019, estima-se que sejam apenas 1.500 indivíduos (leia reportagem completa aqui).

No documento, as entidades apresentam as razões técnicas que para os especialistas justificam a necessidade da paralisação urgente da obra. Eles afirmam que as torres eólicas serão colocadas em três das cinco áreas de dormitório e reprodução utilizadas pelas araras-azuis-de-lear: a Estação Biológica de Canudos, a Serra Branca (localizada na porção sul da Estação Ecológica do Raso da Catarina) e a Fazenda Barreiras – as mais importantes para a espécie e fundamentais à sua sobrevivência. “Há um alto risco de choque das aves com as turbinas eólicas, o que geraria uma diminuição populacional e o consequente desaparecimento da espécie”, alertam.

Em setembro, diversas ONGs internacionais e nacionais já tinham solicitado à Voltalia a realocação do complexo eólico na Bahia, demonstrando a mesma preocupação externada agora pelo conselhos de biologia.

“É devastador. É surpreendente o suficiente que qualquer pessoa considere a instalação de um complexo eólico ali, quanto mais prosseguir com o projeto até aqui. Destruir o habitat de uma espécie em extinção sem avaliar os impactos ambientais é chocante. Este projeto deve ser cancelado e o habitat da espécie restaurado imediatamente”, disse Mike Parr, presidente da American Bird Conservancy, na época.

Além disso, em julho o Ministério Público da Bahia também recomendou a suspensão da obra. Segundo o MP, “a instalação do empreendimento pode causar impactos irreversíveis para a fauna da região e para as comunidades tradicionais”. O órgão recomendou ainda que o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) suspendesse ou mesmo, anulasse, a atual licença ambiental do parque. Acontece que a Voltalia não precisou apresentar um licenciamento ambiental completo para obter a permissão. Todavia, uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabelece a exigência de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), além de audiências públicas, para plantas eólicas que estejam situadas em “em áreas de ocorrência de espécies ameaçadas de extinção e endemismo restrito”.

Mesmo assim, o Inema aprovou o projeto somente com a apresentação do licenciamento simplificado. 

Desde que o caso veio a público há no meio do ano, tanto o Inema, como o Cemave – centro nacional voltado para a conservação das aves silvestres ligado ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) – não responderam aos e-mails enviados para suas assessorias de imprensa ou fizeram qualquer tipo de declaração sobre o assunto.

Existe uma petição online contra o Complexo Eólico de Canudos, que já conta com quase 80 mil assinaturas. Se você também quer a suspensão da obra e gostaria que as autoridades locais se pronunciassem a respeito, assine e compartilhe este link.

Conselhos Regionais de Biologia do Nordeste recomendam suspensão imediata de obras de parque eólico próximo a refúgio da arara-azul-de-lear

A localização do Complexo Eólico de Canudos está indicada com a seta vermelha, onde aparecem as linhas finas laranjas. A mancha clara, em verde, apresenta a área de uso da arara-azul-de-lear na região do Raso da Catarina

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Foto: arara-azul-de-lear (João Marcos Rosa/Fundação Biodiversitas)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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