“Como mulher branca, minha fala é validada, mas as mulheres pretas são tachadas de loucas”, diz Giovanna Ewbank

No último sábado, num restaurante na Costa de Caparica, a 20 km de Lisboa, em Portugal, Titi e Bless, de 9 e 7 anos, filhos da atriz Giovanna Ewbank e do ator Bruno Gagliasso,foram expostos a agressões verbais racistas. Uma mulher portuguesa insultou as duas crianças e um grupo de turistas angolanos – chamou-os de “negros imundos!” –, exigindo que se retirassem do local. Isso depois de atacar um dos funcionários do restaurante, também negro. 

Ao tomar conhecimento das ofensas, Giovanna dirigiu-se à mulher – depois identificada como Maria Adélia Coutinho Freire de Andrade de Barros, de 57 anos -, gritou com ela e deu-lhe um tapa. 

Minutos depois, contrariada, Maria Adélia foi levada pela polícia, prestou depoimento na delegacia, foi identificada e liberada. Hoje, a Guarda Nacional divulgou que ela estava visivelmente embriagada e, no momento da prisão, também xingou os policiais.

O caso deplorável viralizou rapidamente nas redes sociais e rendeu, além de apoio ao casal e a seus filhos, reflexões importantes. 

Se o episódio tivesse acontecido com filhos negros de pais negros, o desfecho teria sido o mesmo? Provavelmente, não, porque, em geral, quem é racista procura deslegitimar o agredido, impedindo-o de se defender.  E o silêncio da sociedade ainda é ensurdecedor. Giovanna e Bruno sabem disso.

“Ela não esperava que uma mulher branca fosse combatê-la como fiz. E eu sei que, como mulher branca, minha fala é validada. Eu não vou ser tachada de louca, raivosa, como acontece com tantas mães pretas, que são leoas todos os dias como eu fui neste episódio”, declarou a atriz em entrevista ao programa Fantástico, ao lado do marido. 

E Bruno acrescentou: “Se eu e minha mulher fôssemos pretos, isso teria acontecido? será que ela teria sido tirada do restaurante? Será que a polícia apareceria? Iria levá-la? será que o caso teria essa atenção toda se fôssemos pais pretos de crianças pretas?”.

É cruel pensar que crianças negras precisam aprender a se defender desse tipo de ataque. E isso acontece todos os dias em qualquer lugar do mundo.

Esta não é a primeira vez que Giovanna e Bruno passam por isso. Quando Titi tinha dois anos, o casal foi alvo de ataques preconceituosos e racistas nas redes sociais porque eles, brancos, haviam adotado uma menina negra (contamos aqui). Ele prestou queixa-crime na polícia e declarou em seu Twitter: “Minha filha tem algo que esses caras não têm: amor. Em relação ao preconceito, a gente tem que ser intolerante”. 

Depois veio Bless, também negro e dois anos mais novo que Titi. O casal sabia que teria que ensinar os filhos a lidar com essa triste realidade, mas, até há pouco, eles estavam mais protegidos porque eram menores. Agora, estão mais expostos ao mundo. 

“É muito cruel pensar que Titi e Bless já têm que ser fortes. Que eles já precisam ser preparados para combater o racismo, estão sendo preparados para isso”, lamentou Giovanna. 

“Eles teriam que estar vivendo sem pensar nessas questões, como tantas milhares de crianças. E há crianças que são colocadas nessa situação todos os dias, no Brasil, em Portugal, no mundo. Mas suas mães não têm voz para gritar como eu pude gritar naquele restaurante”.

A luta contra o racismo não pode ficar relegada aos negros: tem que ser do Estado e toda a sociedade. E, como disse Bruno, durante a entrevista, “de nós brancos, pais de crianças pretas, de nossos amigos brancos pais de crianças brancas!”. 

Uma luta que o filho mais novo – e biológico – do casal ainda não sabe que existe (tem apenas dois anos), mas tem sido preparado no dia a dia, de maneira muito natural, na convivência com os pais brancos e os irmãos negros.

“Ele não vai precisar ser introduzido na questão como nós tivemos que ser, ele a vive todos os dias”, destacou Giovanna.

O caso, na Justiça de Portugal 

A direção do restaurante onde o crime racial ocorreu divulgou nota de repúdio à conduta de Maria Adélia e se colocou à disposição da polícia para fornecer imagens gravadas pelas câmeras de segurança. 

O consulado brasileiro também se manifestou oferecendo apoio e assistência jurídica.

Em Portugal, como no Brasil, injúria racial é crime previsto no código penal e, portanto, a acusada pode ser punida com prisão de seis meses a cinco anos, de acordo com o entendimento da Corte.

Depois da prisão e da identificação da acusada, uma investigação só poderia ser aberta pelas autoridades portuguesas a partir de uma queixa formal do caso, o que foi confirmado hoje pela polícia.

Para o advogado e especialista em direitos humanos, Hélio Gustavo Alves, que também foi ouvido pelo Fantástico, o crime racial cometido por Maria Adélia é gravíssimo visto que “ela não cometeu apenas uma injúria, mas exigiu que as pessoas saíssem do local”. Queria que todos fossem retirados do recinto para que ela se sentisse mais confortável. 

Foto (destaque): reprodução do programa Fantástico

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.