Como conversar sobre a guerra com as crianças

Como conversar sobre a guerra com as crianças

A recente invasão da Rússia na Ucrânia, liderada pelo chefe de Estado Vladimir Putin, tem tomado os noticiários nacional e internacional e escancarado o lado mais obscuro da humanidade. Porém, se o olhar eurocêntrico ainda dita a agenda da mídia global, a nós, espectadores e cidadãos, cabe lembrar que são diversas as guerras que matam milhares de pessoas todos os dias, principalmente em países da África e do Oriente Médio. 

Mas não precisamos ir longe. Neste ano, o Brasil foi apontado pela organização Small Arms Survey como o país com maior número de mortes violentas do mundo, muitas delas ligadas à ausência do Estado de Direito para uma parcela da população. Um verdadeiro cenário de guerra.

Imagens da desigualdade social brasileira e do descaso do Estado com sua população deveriam espantar tanto quanto as de aviões e tanques de guerra bombardeando a Ucrânia, mas, neste último mês, devido à intensa cobertura do conflito no Leste Europeu, imagens de explosões, de mulheres grávidas em bunkers, de famílias à deriva e dos corredores humanitários lotados se firmaram no imaginário popular, atingindo, inclusive, as crianças.

Por se tratar de uma guerra do nosso tempo, que é transmitida na televisão, comentada no rádio e discutida nos encontros de família, por mais que tentemos evitar a exposição das crianças ao tema, elas são inevitavelmente impactadas por essa realidade e, eventualmente, sentirão necessidade de se expressar sobre o assunto.

Para Beatriz Bönecker, psicóloga e especialista em neuropsicologia infantil, é fundamental abrir canais de comunicação com as crianças, sempre com foco em clarear as informações e acolher sentimentos como medo e ansiedade:

“As crianças percebem o que está acontecendo. Elas têm acesso às imagens, escutam conversas. Por isso, o principal é estarmos disponíveis para ouvir o que elas têm a dizer e entender se existe alguma fantasia que está gerando um sofrimento maior, medo ou ansiedade”.

A especialista aponta que a conversa franca é a melhor forma de cuidar de sentimentos que podem emergir de contextos de trauma e dor:

“Nós, adultos, não temos todas as respostas, principalmente sobre a guerra. Não sabemos o que pode ou não acontecer, mas nosso papel é ouvir com cuidado e esclarecer dúvidas, sempre com sensibilidade para entender os limites de compreensão de cada faixa etária”. 

Situações dolorosas são inerentes à vida e crianças estão constantemente expostas a elas. “Conversas sobre temas delicados não vão ocorrer uma única vez, mas diversas vezes ao longo da vida. O importante é não fugir do assunto e oferecer segurança à criança”, explica Bönecker.

O nosso dever enquanto cuidadores e cuidadoras é conduzi-las para que possam lidar com a dor, mas que não a provoquem no outro. Em linhas gerais, a função da educação é abrir espaço para o diálogo e formar pessoas livres e conscientes, comprometidas em agir de forma positiva em suas comunidades. 

Precisamos mostrar para as crianças que o mundo é bom, mas que pode ser ainda melhor se cada um de nós se responsabilizar por ele.

Esta foi a lição que a filósofa e política alemã Hannah Arendt nos deixou em seus escritos pós II Guerra Mundial. Para ela, todo ser humano é um início e um iniciador e carrega em si a possibilidade de renovar o mundo

Mas, para que seja uma renovação positiva, é urgente abrir espaços de escuta e de diálogo com as crianças, já que é na conversa afetuosa que elas vão expressar sentimentos e ter a oportunidade de compreender a si e ao mundo, num movimento chave para torná-las iniciadoras de boas ações e críticas a contextos de destruição, como os que ocorrem hoje no Leste Europeu, na Somália ou nas favelas do Rio de Janeiro.

É com esse olhar – e com muita conversa – que devemos educar aqueles que iniciarão novos tempos. E que sejam tempos melhores!

Dicas e livros para ajudar na conversa

A psicóloga Beatriz Bönecker listou algumas atitudes que podem contribuir para a conversa com as crianças sobre a guerra e outros temas doloridos:

  • Descubra o que a criança já sabe sobre o assunto;
  • Escute com atenção o que ela tem a dizer;
  • Nunca ironize ou menospreze a situação;
  • Esteja comprometido em esclarecer dúvidas e oferecer segurança;
  • Evite a polarização entre o bem e o mal e explique os porquês dos fatos.
  • Traga explicações simples, adequando a linguagem à faixa etária;
  • Se a criança for pequena, traga informações mais fáceis de serem compreendidas;
  • Use recursos lúdicos como desenhos, jogos, livros ou músicas;
  • Com crianças maiores, explore dados históricos e use mapas e fotos para contextualizar a conversa;
  • Faça um filtro do que será mostrado à criança, para evitar a exposição à violência;
  • Se possível, tente enfatizar os pontos positivos da situação: a resiliência, a compaixão e o afeto que podem surgir de situações de dor.

No Instagram da A Taba, curadoria especializada em livros infantis e juvenis, você encontra uma lista com 10 livros para conversar sobre guerras com as crianças. Confira no link abaixo:

Edição: Mônica Nunes

Foto (destaque): Rawpixell

Carolina Prestes

Comunicóloga, Mestra em Ciências da Comunicação e especialista em Infância, Educação e Desenvolvimento Social. Trabalha há mais de 12 anos com pesquisa e produção de conteúdo sobre temas diversos, principalmente nas áreas da infância, da educação e da cultura. É editora do Blog ‘Além dos Muros da Escola”, canal de reflexão sobre práticas de educação não formal, e fundadora da Letras&Linhas, empresa cujo foco é entregar textos que encantam, mobilizam e transformam. Mãe da Olivia e da Pilar

Um comentário em “Como conversar sobre a guerra com as crianças

  • 10 de março de 2022 em 12:06 PM
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    Talvez seja mais fácil conversar sobre a PAZ.

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