Como agir no mundo real e online

Durante os anos da infância, a criança age no mundo por meio de sua linguagem fundamental, o brincar. Em contato com a natureza e na companhia de outras crianças, ela se expressa por meio do corpo em movimento, dos gestos autênticos, em uma narrativa cheia de significado e sentido, ao mesmo tempo individual e coletiva. A criança que brinca em liberdade é potente, é autora, é o ser humano se expressando e agindo no mundo com beleza e subjetividade.

À medida em que cresce, se afasta da infância e entra na adolescência, o jovem continua a desejar agir no mundo. Na verdade, talvez em nenhum outro momento da vida a experiência humana seja tão alicerçada nessa pulsão de transformar o mundo com as próprias mãos. Mas, assim como a sociedade atual nega de muitas formas à criança espaço, tempo e liberdade para brincar, ao jovem também são negadas, de muitas e variadas formas, oportunidades de agir no mundo.

Assim como uma das causas fundamentais do aumento do sofrimento na infânciaexpressos nos índices cada vez mais altos de problemas emocionais, de aprendizado e de comportamento – está no confinamento e na falta de oportunidades de contato com a natureza e de brincar ao ar livre – o aumento do sofrimento na adolescência tem, como uma de suas causas, a falta de chances de agir no mundo e sentir que pode, potencialmente, renová-lo.

Nesse contexto, as telas têm exercido enorme presença e relevância na vida de muitos meninos e meninas, desde a primeira infância. Fonte de muitos riscos, que acabam tomando a maior parte dos debates e reflexões, o acesso à tecnologia também é um direito das crianças e dos jovens, por ser fonte de possibilidades importantes ligadas aos campos das relações, da criação, da mobilização e do conhecimento. Afinal, o uso da tecnologia pode ser uma importante forma de expressão.

Dentro dessa perspectiva, pesquisadores, especialistas e organizações trabalham na busca de caminhos que levem crianças e jovens a estabelecerem uma relação saudável, criativa e sustentável com a tecnologia. Para muitos, um fato está cada vez mais evidente: as estratégias devem ir além do simples controle de tempo de telas ou filtros de segurança ou monitoramento. Devem envolver uma agenda multisetorial, na qual toda a sociedade tem responsabilidades: o governo, a indústria da tecnologia, as escolas e os responsáveis. Devem também contemplar as características individuais das próprias crianças e jovens, que percorrem processos distintos na sua interação com as telas, influenciada tanto pelo seu contexto social, econômico, familiar e educacional, como por suas próprias habilidades e interesses. 

Este ano, uma pesquisa conduzida em três países mostrou que muitas crianças, especialmente as mais jovens, aproveitam majoritariamente as plataformas e ferramentas ligadas ao entretenimento e socialização ​​que a internet oferece, mas não sobem a “escada” para alcançar as atividades cívicas, informativas e criativas que muitas vezes são anunciadas como oportunidades cruciais da era digital. Diversos fatores influenciam o quão alto as crianças podem “subir” a escada da participação online à medida que se desenvolvem, incluindo políticas públicas, regulação da indústria, programas de cidadania digital nas escolas e estratégias de mediação parental.

Recentemente, uma professora do quinto ano do ensino fundamental que também é mãe me questionou sobre como oferecer referências digitais aos alunos que vão além de youtubers que entram em uma banheira de creme de avelã. Numa fase da vida em que buscam naturalmente por inspiração e referências, cabe a nós, adultos, apresentar às crianças exemplos de jovens que estão usando os recursos da tecnologia para transformar o mundo em um lugar melhor para todos nós.

Jovens como a ativista Greta Thunberg (acompanhe pelo seu perfil no Facebook ou pelas matérias do Conexão Planeta), uma menina de dezesseis anos que, desde 2018, é a principal liderança do movimento por mudanças que diminuam os impactos do aquecimento global. Ou os alunos do sétimo ano de uma escola em Itabira, Bahia, que utilizaram o YouTube para armazenar vídeos produzidos por eles mesmos sobre temas como racismo, abuso, violência doméstica e homofobia, num amplo e profundo exercício sobre empatia e rede de apoio. Eles participaram do programa Criativos na Escola, do Instituto Alana.

No momento em que estamos delineando respostas sobre o que os governos, a indústria da tecnologia, as escolas e as famílias podem e devem fazer para que a relação entre as crianças com as telas se traduza em benefícios reais, acredito ser fundamental apostar numa narrativa positiva, ampla e mobilizadora sobre as oportunidades e os riscos da tecnologia na vida de crianças e adolescentes. Isso inclui estratégias de mediação parental ou de educação midiática que os incentivem a acessar todo o universo de possibilidades que há para além da superexposição das plataformas sociais, do consumo passivo de vídeos e da adição aos jogos online. Inclui também sentar ao seu lado e, com interesse genuíno, aprender com eles sobre as oportunidades positivas que eles descobrem por meio de seus smartphones, ao criar, mobilizar e transformar.

Afinal, a tecnologia é uma forma incrivelmente potente de agir no mundo e há muitos caminhos nos quais ela pode aperfeiçoar o que há de melhor em nossa sociedade. Precisamos, jovens e adultos, poder trilhar esses caminhos.

Foto: Divulgação/Colégio Municipal Professora Didi Andrade

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

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